Na poeira das estradas…

Pelo retrovisor do carro as imagens dos caminhos já percorridos por mim se confundem na poeira das estradas que sonhamos ver um dia. Lembro-me de que quando era um jovem adolescente jamais admiti que eu pudesse um dia me tornar um idoso. Na cabeça dos jovens – como eu – o amanhã era quase inatingível. E chegar à idade madura nem pensar……

Na poeira das estradas…

Por Luiz Maia

Pelo retrovisor do carro as imagens dos caminhos já percorridos por mim se confundem na poeira das estradas que sonhamos ver um dia. Lembro-me de que quando era um jovem adolescente jamais admiti que eu pudesse um dia me tornar um idoso. Na cabeça dos jovens – como eu – o amanhã era quase inatingível. E chegar à idade madura nem pensar. Nunca imaginei que isso pudesse acontecer. Daí, quando somos jovens, a nossa quase certeza da imortalidade, a confiança imaginária de que somos superiores ao próprio tempo. Olhando-me agora, já tão distante daqueles dias, percebo que não mudamos com o decorrer da vida. Embora eu tenha chegado à maturidade, o meu sentimento interior permanece idêntico: sinto-me um jovem-maduro, e me recuso de ser taxado de uma pessoa velha. Com o peso da idade, de quem já passou dos cinqüenta, reconheço que a minha cabeça não acompanhou a evolução dos anos representada no meu corpo pelas marcas do tempo. Certamente não há ninguém que, olhando de vez em quando para trás, lembrando de certos momentos vividos, fique impassível diante desses fortes sentimentos.

Isso vem provar que corpo e espírito são companheiros da mesma viagem. Quando dispomos de corpos jovens nos esquecemos que temos espírito também, e que esse jamais envelhece com o tempo. É bom falarmos tranqüilamente de um tempo que se foi, mas que deixou lembranças que não se diluem jamais. Tempo em que tudo cheirava a pureza. O cheiro do mato e das flores aguçava nossos sentidos. O mugir das vacas e o canto dos galos ainda permanecem vivos em minha memória. O leite de vaca quentinho, o pão assado com queijo de coalho, a carne de sol com macaxeira estavam sempre à nossa espera para um saboroso café matinal. Não temos porque nos desfazer completamente de nossas memórias, sejam elas agradáveis ou não. É preferível guardá-las na parte mais sensível do coração e consultá-las sempre que precisarmos de um um novo impulso em nossas vidas. Mas sempre com a finalidade de nos permitir que vivamos melhor o tempo presente, o único que realmente nos importa. É maravilhoso poder olhar para trás e ter do que se lembrar.

Recife, 29 de julho de 2005