À primeira vista, Ted Cole ( Jeff Bridges, indicado ao Independent Spirit Awards) é um sujeito escroto e ponto. Escritor premiado de livros infantis, egocêntrico e excêntrico, vivendo um rascunho de casamento com Marion ( Kim Basinger), contrata o jovem estudante Eddie (Jon Foster ) para ser seu assistente e datilógrafo durante o verão. Para o jovem, que anseia por ser escritor, parece a oportunidade mais do que desejada de adentrar no universo da literatura – descobrir os métodos, a disciplina e o trabalho de um escritor que ele tanto admira é sua chance de ouro. Não tarda, no entanto, para o jovem perceber que não há muito trabalho a se fazer. Como os livros de Cole são compostos de no máximo quinhentas palavras (“É preciso pensar e repensar cada uma delas”), se dá conta de que suas atribuições não vão variar muito de datilografar e re-datilografar a mesma página, com a modificação variável de uma vírgula para um ponto-e-vírgula ou de um ponto-e-vírgula para uma vírgula, dia após dia. Na verdade, Eddie vira seu motorista, seu leva-e-traz, assessor para todas as pequenas e desinteressantes coisas.
O que parece inevitável é que Eddie se aproxime de Marion. Sensivelmente interpretada por Kim Basinger, com uma beleza madura que não se apaga pelo envelhecimento que o choro constante lhe emprega, a desolada esposa de Cole carrega o sofrimento constante e uma apatia quase imobilizante pela morte dos dois filhos do casal. Mesmo que junto com Cole tenha tentado recomeçar a vida, em um lugar diferente e tendo uma outra filha, Ruth (a pequena talentosa Elle Fanning), nada parece fazer mais sentido para Marion. A bela casa de frente para a praia se transformou em quase um museu de fotografias onde as imagens dos falecidos Thomas e Timothy sufocam e se tornam obsessão de todos – incluindo a pequenina Ruth, que venera os irmãos que não conheceu em pessoa, prestando-lhes rituais diários de atenção a todos os detalhes de todas as fotos, cerimônia incentivada por Ted Cole. Que, mesmo à primeira vista parecendo um sacana, confunde ao se mostrar um pai atentíssimo e carinhoso, dono de um carisma que logo vai deixar claro não ser desprezo o motivo pelo qual parece deixar Marion tão abandonada.
O filme é adaptação de A Widow for One Year (Viúva por um ano), de John Irving, um livro de 1998. O título – que, por mais que me esforce, não consigo encontrar motivo para se chamar Provocação em português (não é uma bricadeira torpe, uma sedução, um triângulo amoroso engendrado para diversão; quem provoca quem?) – original, The door in the floor ( Tod Williams, EUA, 2004), faz referência a um livro escrito por Cole. Em uma magistral cena, quando é lido pelo autor para uma platéia de adultos, mostra todo o sentido metafórico contido no que não é uma ingênua história para crianças. A fábula sobre o temor do desconhecido encerra muito dos sentimentos do próprio Cole e Marion.




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