Simplicíssimo

Ainda é possível comer a Martha Rocha

Este é um texto experimental, escrito de duas formas, diálogo e narrativa, para saber a preferência dos leitores. Quem sabe também seja o meu retorno à escrita, em especial aqui no Simplicíssimo, quem sabe também na parte administrativa. Quem sabe… Mas enfim, vamos ao(s) texto(s):

 

Ainda é possível comer a Martha Rocha (diálogo)
Eduardo H. Sabbi

No balcão de atendimento da confeitaria…

_ Bom dia, em que posso ajudá-lo?
_ Eu queria algo doce, tipo um negrinho ou uma nega maluca…
_ Que horror, um homem bonito como você não pode falar assim nos dias de hoje. Vão pensar que você é um pedófilo racista!
_ Mas não é essa a intenção. É o nome do doce, entende?
_ Sim, entendo. Mas o senhor tem que ser politicamente correto.
_ Então eu deveria dizer o quê? Quero um mini afrodescendente ou uma afrodescendente com distúrbio psiquiátrico?
_ É ficaria estranho mesmo. Mas enfim, é para comer aqui ou para levar?
_ Para levar. Tenho um vizinho que está bem velho…
_ Idoso, diga idoso.
_ Certo, certo. O meu vizinho é idoso e tem um filho anão…
_ Verticalmente prejudicado, fica menos agressivo.
_ Tudo bem. Meu vizinho idoso tem um filho verticalmente prejudicado deficiente mental…
_ Não! Ele é portador de necessidade especial…
_ Que legal, você conhece o Juquinha?
_ Não, meu senhor. Só estou lhe dizendo como seria melhor chamá-lo…
_ Ah, sim… Então, meu vizinho idoso tem um filho verticalmente prejudicado portador de necessidade especial que adora doce e vim comprar algo para ele. Na verdade estou morrendo de vontade de pegar um para mim também, mas não quero ficar gordo.
_ Horizontalmente avantajado, você quer dizer.
_ Tem isso também é?
_ Sim, tem. Mas você está bem elegante, comendo um docinho não vais ficar horizontalmente avantajado.
_ Mas é sempre bom cuidar. Assim como estás me ensinando com as palavras. Se eu ficar aqui falando do que sou avantajado você pode entender como uma cantada e me botar para correr.
_ Ha ha ha! Eu não faria isso, não. Você é um homem charmoso, tenho reparado quando vens aqui, mas nunca tivemos a oportunidade de conversar.
_ Eu também tenho observado você. E agora sei que além de ser muito bonita, és uma mulher muito culta.
_ Obrigada, fico lisonjeada. Só tens que cuidar com suas palavras.
_ É estou precisando umas lições. A propósito, o que achas da gente se encontrar depois do expediente? Adoraria conversar mais com você sobre esse assunto e elevar o meu… vocabulário, entende?
_ Sim, excelente ideia, solto as sete, me pegas aqui?
_ Te pego onde você quiser. As sete estarei aqui.
_ Ótimo. Ah, nem nos apresentamos. Qual o seu nome?
_ Eusébio. Eusébio Miranda. E o seu?
_ Martha, Martha Rocha…

 

Ainda é possível comer a Martha Rocha (narrativa)
Eduardo H. Sabbi

Na manhã de terça-feira Eusébio se arrumou para ir à confeitaria a pedido do seu vizinho já velho. Na verdade idoso, pensou. O outro termo se tornara pejorativo nos dias de hoje. O vizinho idoso tinha um filho anão. Sim, melhor seria dizer verticalmente prejudicado. Pois o vizinho velho tinha um filho verticalmente prejudicado e deficiente mental. Certo, portador de necessidade especial soaria melhor, corrigiu. Enfim, Eusébio estava pronto para ir à confeitaria a pedido do seu vizinho velho cujo filho verticalmente prejudicado e portador de necessidade especial adorava doce. Em especial aquela bolinha de chocolate preto coberta com granulado conhecido no sul como Negrinho. Achou melhor deixar bem explicado para evitar a acusação de racismo ou pedofilia. Brigadeiro era o outro nome desta guloseima, mas não arriscaria ser preso ao expressar o desejo de comer um desses. O garoto também gostava do bolo de Nega Maluca. Melhor comprar o primeiro a trocar por uma afrodescendente com distúrbio psiquiátrico. E deveria ter muito cuidado para não sucumbir aos doces expostos na prateleira, uma vez que estava de dieta por se achar assim… um pouco… gordo. Bem, horizontalmente avantajado.

O fato é que, naquela da manhã de terça-feira, Eusébio, um ser horizontalmente avantajado, que se programara para ir à confeitaria a pedido do vizinho idoso, aquele do filho verticalmente prejudicado e portador de necessidade especial para comprar uma bolinha de chocolate preto coberta com granulado, se cansou de tudo isso. Trocou de roupa, colocou um perfume e ligou para a Martinha que, afinal de contas, não se importava com nada disso.

Eduardo Hostyn Sabbi

1 comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.