Simplicíssimo

Quase morte

O homem está em sua sala de estar, sentado em uma poltrona, fumando nervosamente. Sua aparência é desleixada. Barba por fazer, metido num velho pijama, chinelos nos pés. Ao lado da poltrona, há uma pequena mesa com um gravador antigo, à fita. Ao lado do gravador, um revólver e um aparelho de telefone. Termina de fumar, apaga o cigarro no cinzeiro e dá uma volta em torno da poltrona. Aperta play e rec no gravador e fala, bem próximo ao microfone, fazendo um teste. Em seguida, se fixa na ponta oposta, do outro lado da poltrona, testando: “'Tá gravando…?”, pergunta ele, rindo nervosamente e coçando o queixo de maneira frenética. “Porra, se não tiver também, azar… Nem sei porque dessa frescura, mesmo… Idéia mais sem originalidade… Quem será que foi o idiota que inventou que todo suicida tem que deixar um testamento…? Mas que merda, que se foda tudo e todos, também. Querer primar pela originalidade nos últimos instantes de vida, quando eu sei que tudo o que eu quero é emocionar os que possivelmente vão ouvir essa fita… Originalidade seria morrer em silêncio… Cidadão normal, vida normal, aparentemente feliz, típico acomodado, acima de qualquer suspeita… Um belo dia me dispo, como pra mais um costumeiro banho, e me deixo afundar, si-len-cio-sa-mente, na minha banheira: nenhum estampido, nenhum grito, nenhum sangue para ser limpo por nenhum faxineiro infeliz, depois de cumpridas as formalidades policiais…”. O homem se distrai por um momento, se dá conta de estar devaneando e volta a si, tornando a falar para o gravador: “Isso não interessa, também… Droga, isto não tem nada a ver… Perda de tempo, mesmo, ficar gravando essa bosta… Pra quem vai interessar isto? Mais material pro noticiário da tevê: ‘homem se suicida e deixa fita-testamento. Ouça um trecho…’ Ah, não! Esqueci do acordo da imprensa em não veicular notícias de suicídio… é incentivador, segundo estudos… Ah, ah, nem para isto esta merda serve! Idiota, idiota, mesmo! Que se dane essa baboseira”, diz o homem, levantando a voz. “Vou acabar que nem homem com esta bosta! O homem aperta a tecla stop do gravador e, nervosamente, pega a arma de cima da mesa ao lado. Leva-a a até a boca e pressiona os olhos, fortemente, dedo no gatilho. Suas mãos que agarram com força o revólver tremem e ele fica naquela posição hesitante, durante muito tempo. Por fim, vai serenizando a face e baixando vagarosamente o revólver e termina por colocá-lo em cima da mesa ao lado, novamente. O homem fica um instante em silêncio, mirando um ponto imaginário do espaço e volta a falar, olhar perdido: ”Não… morrer quieto é coisa de leão-marinho velho, não vou te dar este gostinho, não… Não vou morrer sem fazer esparro, coisa que eu sempre fiz, não vai ser agora que eu vou deixar de fazer, não! Morte com todo estardalhaço possível: fita-testamento, e pedaços de miolos e sangue espalhados por todas as paredes!”, o homem ri de maneira doentia. “Será que você vai sentir pena? Vai chorar desesperada quando me vir – vir os meus pedaços – e esconder o rosto no peito do policial fardado?”, pergunta o homem, gritando. “Vai chorar, sua vagabunda, hein, você vai chorar?!”, o homem torna a baixar a voz e continua. ”É bom que chore, porque se você não chorar, não vai haver ninguém mais para chorar por mim… Os policiais, profissionais, e a equipe do Instituto Médico, conseguirão no máximo comentar compadecidos: ‘Mais um infeliz…’, enquanto tapam o nariz com seus lenços a fim de não inalarem o cheiro de sangue fresco e miolos que vai estar impregnando a casa inteira… Mas e se houver algum mais sensível entre eles? Não importa: é você que eu quero que chore por mim”. O homem mira o nada. Aperta play e rec no gravador, e recomeça a ladainha: “Pergunta número um: você vai chorar por mim, Luiza? Pergunta número dois: vai chorar desesperadamente ou vão ser aquelas fungadinhas de putinha fingida? Pergunta número três: você já está chorando? Pergunta número quatro: porque você é uma puta?! Maldita vagabunda! Onde tu andou esfregando esse rabo sujo, hein? Te esfregou onde, antes de se esfregar em mim? Continua com o corpinho malhado de sempre ou esse vírus fodido já tá tomando conta do teu corpo, também? Se alastrando por toda a tua pele e deixando bem à vista as feridas que nunca cicatrizam, as nódoas e inflamações sem fim? Tá cumprindo tua meta de espalhar essa porra pra todo o mundo com quem tu conseguiste cruzar? São quantos outros otários, além de mim, sua desgraçada?!” O homem grita e leva as mãos ao rosto, chorando compulsivamente. Funga e limpa o nariz com as costas da mão. Quando retorna a falar, é em um volume mais baixo. “Não importa… O meu destino tá traçado… Assim como o teu… Tu escolheste a tua sina, eu, a minha. Nada adianta pra nada, mesmo…Pra falar a verdade, acho até que tu me prestaste um favor… Encurtando minha já triste existência nesse mundo… Triste e inútil: um poeta medíocre, recusado por todas as editoras possíveis, biscateiro de tudo e de todos, não podia ter bom fim, não. Mas me bastava morrer em paz. Não, tinha que ser esse troço dolorido, humilhante, desmoralizante, nojento… E eu não vou esperar por isso, não! Eu prefiro as coisas da minha maneira… Luiza: tá fazendo o que, hein? Tá viva ainda? Policial, se você tá ouvindo esta fita: deixa essa infeliz em paz que ela vai ter sua própria condenação, já está tendo… assim como eu…” O homem vai baixando mais a voz, à medida que vai afundando na poltrona, olhando para o parede branca à sua frente. Se dá conta de que a fita está rodando, olha para o lado e recomeça a falar. “Ah, claro, antes que eu me esqueça, eu ainda estou aqui, Luiza. Enquanto você não tiver ouvido o estampido e o som gosmento de miolos sendo arremessados contra a parede, é por que eu continuo vivo: eu e minha voz, que, se se confirmarem os meus desejos, ficará pra sempre a ecoar na sua cabeça… se eu conseguir tanto. Não sei se minha pretensão é tamanha, também. O que eu conseguir de reação de você, já está de bom tamanho, uma vez que reação parece ser sinal de consideração… Coisa que tu não tiveste quando… quando… você sabe. E eu me pergunto que força doentia pode vir a mover uma pessoa como você… Doentio, sinistro… Eu, que nunca acreditei muito em Deus, começo a me perguntar se esse tal diabo não existe, não, pra influenciar essa sua cabeça a mover tão sinistra ação… E, falando nisso, mais um ponto ganho com minha decisão: vou poder saber, finalmente, se Deus existe, ou não. Se eu for pro inferno, é por que realmente Ele existe e me mandou pro lugar que dizem que é pra aonde vão os suicidas. Se eu for pro céu, outra prova de que Ele existe e é bom… Não poderia imaginar que meus devaneios chegassem a tanto… Poeta medíocre concretista, me embasando na teologia vazia dos penitentes com sua fé irracional… É risível, irônico como quase tudo o que tem me rodeado ultimamente… Sozinho, amargurado, suicida, sem pai nem mãe… um contaminado prestes a dar um tiro na cabeça… Sem nem bem saber o porque. Por ser um contaminado? Por ser um bosta total? Um cara que não consegue ganhar a vida com seus poemas medíocres, rejeitado por todos? Porque eu não posso me resignar a ser mais um ‘vencedor’, um lutador contra a doença, um pobre-diabo, apenas, a esperar o inevitável, como todo qualquer cidadão mediano de razoável bom nível educacional e situação financeira igualmente mediana? Enfim, um medíocre! As pessoas desconsideram a palavra medíocre, a subestimam… Ninguém quer estar no meio, indefinido, andrógino… Mas também, que motivo eu teria para não enfiar essa azeitona na cabeça? Ninguém bate nesta porta a… nem sei quanto tempo… Viver pra que? Pra quem?” O homem grita em direção à porta do seu apartamento: “Algum entregar de pizza por aí? Jornaleiro? Alguma carta para mim? Alguém quer saber se eu tenho gás? Alguma puta se oferecendo, de porta em porta? Alguém, alguém…?” O homem silencia, depois ri, nervosamente. “Não, não posso perder a minha chance de aparecer no jornal, nem que seja nas páginas policiais, pequeno retângulo noticiando apenas como citação. Não vale a pena gastar espaço no jornal com alguém que não tem nem quem reclame o corpo… Nem pai, nem mãe, nem irmãos, nem amigos, nem companheiros de cachaça, nem poetas loucos de praça, nem mendigos, nem cachorros carniceiros, nem…, nem…, nem você, Luiza. Luiza, você vai reclamar meu corpo?” O homem se inclina para o gravador, como quem pergunta a uma criança. “Vai, Luiza, você vai reclamar meu corpo? Se não for você, quem vai, Luiza? Você vai reclamar meu corpo, Luiza? Vai? Diz que vai, Luiza, diz que vai, diz que vai…” O homem continua repetindo, ininterruptamente, e vai direcionando a mão para onde está o revólver. Com os olhos fechados, pega-o com as duas mãos e, volta-o para dentro de sua boca, apertando muito fortemente os olhos. Os dedos, tremendo, começam a engatilhar o revólver, vagarosamente – quando se ouve batidas na porta. A princípio, o homem não dá importância, depois se dá conta e abre os olhos, com as batidas repetidas, interrompendo a ação e aguardando, enquanto as batidas se repetem, e, finalmente, alguém fala: “Seu Antônio, seu Antônio? É a Rozela, seu Antônio… Vim pra limpar…, o senhor ta aí, seu Ant..”. O homem larga o revólver apressadamente em cima da mesa, passa a mão no rosto e sorri. Abotoa os botões do pijama e, dirigindo-se à porta, fala: “Já vou. Só um instante, que eu já vou abrir… Rozela!”

Alessandro Garcia (http://suburbana.blogspot.com ) é escritor e publicitário, tem 24 anos, e acha Porto Alegre a capital do mundo. Apaixonado por Legião Urbana e Pearl Jam (e contraditoriamente, fã ardoroso de música soul), sabe que tudo é uma questão de manter a mente aberta, a espinha ereta e o coração tranqüilo.

Alessandro Garcia

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