Simplicíssimo

Banco Alavanca S/A

Este começo de junho trouxe, junto com o frio oscilante, um calor humano que há muito não se experimentava pelos rincões de Jacutinga: a presença de Mestre Duña, o inoxidável profeta do nosso tempo.

Com sua túnica puída, cravejada de lantejoulas bordadas pela beata Roseli Jacintha dos Pinhais, o nunca suficientemente louvado Oráculo se dirigiu à meia dúzia de gatos pingados que se aglomeravam em frente a um caixote da Ceasa, sobre o qual o venerável iniciava a preleção: eram eles Manda-Chuva, Espeto, Bacana, Batatinha, Gênio e Chou-Chou, além de um até então insuspeito enteado do Guarda Belo, que a tudo assistia sem piscar os olhos.

– Queridos Hannabarbéricos, é chegada a hora da revelação que os levará a refletir, em suas latas de lixo, sobre o sentido da existência. Mas antes, tenho um importante comunicado comercial a fazer.

– Não coloque minha pessoa em seu balaio de gatos, Mestre – vociferou o parente de Belo. Tenho minha casinha, pequena porém quitada, a alguns quarteirões daqui. E em seguida lançou-lhe à orelha, quase que à queima-roupa, um caqui mofado, concluindo raivosamente:

– Em lata de lixo se aloja a senhora sua mãe!!!

Após enérgico rufar de tambores, vindo não se sabia de onde, a divindade prosseguiu:

– É com prazer que anuncio aos fiéis e prospects a entrada em operação do Banco Alavanca, do qual detenho 51% das ações e que chega ao mercado para subsidiar o dízimo de fiéis castigados financeiramente pela pandemia e pelo algoz do cercadinho – aquele a quem chamam de Zero à Esquerda, genitor do Zero Um, do Zero Dois, do Zero Três, do Zero Quatro e de um filho bastardo, o Recruta Zero.

Uma salva de palmas irrompeu, ensurdecedora, vinda de toda a Mantiqueira.

– Todos os demais bancos emprestam dinheiro não pela missão de amenizar o sofrimento de outrem, mas pela ganância de multiplicar o capital a juros extorsivos. O Banco Alavanca chega para suprir esta lacuna de egoísmo e desamor, onde o fel escorre aos borbotões. Regozijai com a boa nova e aproveitai, crentes duñescos!

Esta é uma obra de ficção

© Direitos Reservados

Marcelo Sguassabia

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