Simplicíssimo

Nesses novos dias

Eu não vi, mas é como se estivesse vendo agora na minha frente o Marcos Valle, sem camisa e sentado ao piano em uma tarde de sábado de 1971, compondo o tema de fim de ano encomendado pela Globo, com o Nelsinho (em estado, digamos, alterado de consciência) esperando a música ficar pronta para botar letra junto com o Paulo Sérgio, irmão do Marcos.

Música concluída, letra entregue e discussão armada:

– Olha, sei lá, meu… não é melhor “nesses lindos dias” do que “nesses novos dias”?

O Nelson se defende.

– Mas eu falo dos dias que estão por acontecer. Não enche o saco, Marcos.

– Sei não, olha só, tem “novo dia” no primeiro verso, no segundo tem “novo tempo”, depois vem “novos” de novo? É muito “novo” pra uma letra só, se você trocar por “lindos” fica bom do mesmo jeito e não repete tanto.

Eu vi, um ano antes, sentado num pufe e abraçdo a um bambi de pelúcia, noventa milhões em ação botando o Brasil pra frente. Aqueles mexicanos com seus sombreros invadindo o gramado de Guadalajara. Sem saber direito o que estava acontecendo e em preto e branco, com um plástico azulado por cima da tela, pra dar um certo gostinho de TV colorida – coisa que só chegaria pra valer na Terra de Santa Cruz em 72, 73. E apenas nas vitrines das lojas chiques, onde o povo se amontoava à noite, boquiaberto. Lembro que tinha até pipoqueiro na esquina e rádio patrulha rondando, no caso de haver confusão. Estes poucos aparelhos, quando saíam do mostruário, iam para as casas dos muito, mas muito ricos mesmo.

Eu vi a Lolita e o Airton segurando uma bandeja, com um porco assado de maçã na boca, fazendo merchan da Cantina Don Ciccilo ao lado do Carlos Imperial – bebendo uísque e fumando, em pleno programa vespertino. Sendo que o merchan era pura permuta – o restaurante entrava com o rega-bofe para os artistas todos do “Almoço com as Estrelas” e o apresentador fazia o testemunhal. Zero de dinheiro envolvido!

Eu vi o Silvio Santos apresentando o “Só compra quem tem” e falando com seu irmão Léo pelo telefone, dizendo que “prêmios, prêmios, prêmios o Baú agora dá”. Pelo menos em 50 desses 70 anos que a TV faz agora, alguns flashes marcantes deixaram registro nesta caixola abarrotada. Coisas que aos poucos vão deteriorando. Como as fitas de videotape que ainda restaram, salvas dos incêndios da Record, da Globo, da Tupi, da Excelsior.

Eu vi, sim. E é quase certo que não trocaria o que vi, fragmentos que guardo em caixinhas de veludo dentro de um cofre de aço, pelas décadas que um garoto de 15 de hoje tem pra ver. Prefiro reter o pouco que possuo entre uma dobra e outra dos miolos, mesmo que nada disso exista mais, do que partir, titubeante, rumo ao que esse menino teria pela frente. Pra que eu fizesse uma troca dessas, precisaria ter muita vantagem envolvida. Vantagem grande, de respeito. Talvez uns 150 anos de bônus por aqui. E isso se eu tivesse certeza que o “aqui” continuaria existindo em 2170, evidentemente.

Esta é uma obra de ficção.

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Imagem: https://observatoriodatv.uol.com.br/

Marcelo Sguassabia

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