Simplicíssimo

Capitão Algodãozinho

Mil, mil e duzentos, mil e quinhentos mortos por dia. Relincha o “Capetão”, com a fleuma de estrebaria que lhe é peculiar: “E daí? Sinto muito, mas no tocante a esse negócio de morte aí, são coisas da vida”. Deita a cabeça no travesseiro e dorme a sono solto, roncando e babando na fronha.

Acorda às três da manhã, resquício da rotina da caserna. E devaneia ainda deitado: “A vacina é o mais tranquilo, deixo agir a lei da oferta e da procura. Mais uns dois ou três dias e fica tudo encalhado na prateleira dos laboratórios. Tô ouvindo falar aí que todo mundo já comprou e tá imunizando, então vou esperar a hora da xepa. Se não negociar comigo vai perder a validade. Aí eles vão ter que desovar e vender tudo a preço de banana para o Brasil acima de tudo. No tocante às seringas e às agulhas, eu já sei bem de quem que eu vou pegar.

O Pançuelo diz que o problema maior mesmo é no tocante ao algodãozinho. Eu vou falar com o Caiadão, estamos reatando aos poucos, para ver se no tocante a essa questão do algodão há a possibilidade de confisco dos cotonicultores. É o homem certo pra encampar comigo essa missão – médico e líder do agronegócio lá no tocante à região dele. Sim, porque o algodão no caso é hidrófilo, de uso hospitalar.

Se o Caiadão ficar em cima do mourão (o de cerca, não o meu vice) ou mijar pra trás eu pego o rapazinho lá do meio ambiente pelos cueiros e mando desmatar o que for preciso de selva para plantar algodão. O que eu não sei é se dá tempo de esperar o algodão crescer, mas tudo bem, nesse tocante mando encharcar de agrotóxico que é pra colher mais rápido.

Ou então, melhor ainda. Vou apelar para o brio cívico do povaréu. Eita capetão do brejo, não é à toa que a tua astúcia te trouxe até aqui, no tocante ao Alvorada. Tá pronto até o slogan. Se bem que esse negócio de slogan é coisa de marica – tá pronto o grito de guerra: “Cidadão que é cidadão obedece o Capitão: na hora da vacinação, traga o seu próprio algodão”. Aí resolve, cada um que traga o seu chumaço de casa. Já chega a vacina da gripezinha, que é por conta do governo.

Esta é uma obra de ficção.

© Direitos Reservados

Marcelo Sguassabia

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