Simplicíssimo

1001 – Décadance Avec Élégance (parte II)

Me lembro de ter acordado perto do meio dia com a boca extremamente seca, a cueca molhada e um pedaço de pizza ao meu lado. Senti vontade de voltar pra casa, arrumei minhas coisas e fui pegar um coletivo para ir até a rodoviária. Me lembro de ter acordado perto do meio dia com a boca extremamente seca, a cueca molhada e um pedaço de pizza ao meu lado. Senti vontade de voltar pra casa, arrumei minhas coisas e fui pegar um coletivo para ir até a rodoviária. O cara que vende as passagens me convenceu a ir a pé. Economizei dois reais. Eu não sabia se teria ônibus naquele horário mas sabia que queria ir embora e estava disposto a esperar. Perto da rodoviária um maluco quis engraxar meu coturno, inventei que estava com pressa, ele insistiu, jogou uma gosma branca ou sei lá que cor em cima do coturno esquerdo, insisti em ir embora, ele passou uma escovinha pra espalhar a coisa, eu disse que realmente estava com pressa e me livrei dele, com um coturno quase limpo e outro quase sujo. Eles estavam realmente precisando de uma boa engraxada (mas isso é coisa que se resolve com um pano molhado. Economizei mais dois reais), fiquei até com dó do cara, ali, implorando para limpar os sapatos das pessoas (e hoje em dia quase ninguém usa sapato), com a cara no chão, pedindo pra eu apoiar o pé numa caixa de maçã, me mostrando sua tabela de preços, deveria estar sem almoço, sem cigarro, vi sua expressão de derrota, de indignação quando viu que não iria conseguir me arrancar uns centavos, mas pô! Eu não queria a merda da graxa, pasta ou sei lá o que é que ele tinha pra me oferecer.

Fui comprar a passagem, o ônibus saía em oito minutos. Merda! Eu tinha planos de cagar na rodoviária, fumar, comer, fumar, assistir ao jornal, dar uma boa relaxada e aí sim, encarar uma viagem. O atendente perguntou se eu queria com seguro ou sem, eu sei la, porra, na dúvida, economizei mais dois reais.

Sentei ao lado de uma guria que parecia gostosa, mas na fila de bancos que fica do outro lado, um pouco pra trás, difícil de explicar, mas, enfim, uma posição privilegiada para observá-la. Incrível como suas pernas eram curtas e ela conseguia sentar, esticar as pernas e encostá-las retas no banco da frente. A certa altura da viagem, ela deitou no banco com a bunda virada pra mim. Não dava pra ver grande coisa mas era a primeira vez que eu ficava excitado em dias. Passei as últimas semanas cheirando, fumando e bebendo como um louco, mas ainda me dava ao luxo de escolher entre comer uma boceta ranhenta ou não comer boceta alguma. A última vez foi num desses botecos onde os tacos de sinucas parecem berimbaus de tortos que são e o dono da espelunca assa carne na calçada, com uma preta, gostosa até, me cobrou vinte, tive que pedir cinco de volta ou não sobreviveria à semana seguinte. Voltei pra casa com o pau latejando, a cueca grudando e as pernas doendo, nem sempre sexo vale a pena.

A menina do ônibus se sentou e depois deitou de novo até se sentir incomodada comigo ali e deitou com a bunda virada pra parede. Merda! Ela usava uma blusinha de zípper, ela poderia se insinuar, abrir um pouco a blusa, só pra se mostrar, só pelo prazer de saber que um otário babão a observa ali do lado, toda mulher gosta disso, se sentir desejada, fazer caras de bobo, principalmente os que já são bobos e não tem chance alguma. Mas não, nada. Ela deitou. Deitou e ficou. Talvez, se fosse a mesma viagem à noite. Talvez, talvez… Vadia!

Meia hora depois, uma moça apareceu no meu ombro direito perguntando se eu tinha caneta. Será que eu tenho cara de quem tem caneta? Ela me achou com cara de intelectual ou coisa assim? Não, idiota, ela nem viu sua cara, ela só precisa de uma caneta. Eu lia Bukowski, meu pau tava meio duro e eu não tinha caneta. Merda! Se eu tivesse uma caneta eu poderia escrever meu telefone na sua nuca, ela sentiria arrepios, me daria um beijo na orelha, depois marcaríamos um lugar para nos encontrar e ela me diria que fazia pós-graduação em Letras, gostava de MPB, tinha dois gatos persas e um irmão pentelho viciado em video-game. Eu poderia escrever Budapeste em sua cintura, Camões, Hesse, ou enfiar a caneta no seu cu enquanto fazíamos um 69 no ônibus. Ou ela esqueceria de devolver a caneta e um dia nos encontraríamos, lembraríamos um do outro, daríamos risadas e eu a levaria pra cama. Ela deve ter uns 27, 25, 32 anos, não sei, nunca fui bom em calcular idade, distância, tamanho, medidas. Ela tinha cara de irmã mais velha, de mãe solteira. Espiei pela fresta do banco. Era magra, barriga de fora, tinha os ossos dos ombros saltados e estava coçando o pescoço quando a blusa caiu e ela começou a coçar a nuca. Ela prestava atenção na leitura. Tinha um monte de pastas e malas no banco ao lado, mas nenhuma caneta.

Enquanto eu tentava decorar o seu rosto e pensar em alguma coisa inteligente pra dizer quando chegássemos à rodoviária, o ônibus passou por um buraco fazendo com que todos pulassem dos seu assentos. Havíamos chegado à cidade, os buracos diziam isso, eles diziam “olá, você chegou”.

Rodrigo D.

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