Índios Empulhadores

Quando se buscam informações na área das ciências humanas há muitos perigos, sobretudo quando os conhecimentos em determinado assunto são escassos. Um dos riscos mais freqüentes é aceitar como verdade tudo o que é dito sem fazer uma análise do informante e de suas circunstâncias. Não será novidade, que herdeiros indigentes de povos derrotados busquem íntima satisfação ao informar errado sobre coisas de seu povo. Isso acontece com maior freqüência se o coletor de informações assumir uma superioridade odiosa e encarnar a figura de apressado e chato perguntador. Continue lendo “Índios Empulhadores”

Cartazes do Simplicíssimo

Agora você pode divulgar o Simplicíssimo na sua região.
 
Imprima um ou mais cartazes e leve para a Universidade, para Cafés, Livrarias e locais onde a cultura acontece para divulgar o Simplicíssimo. Vamos levar as Viagens Etéreas e Psicodélicas Impressas no Éter Universal para quem delas precisa!
 

O homem e a desvalorização de seus símbolos

Bem, na verdade eu não teria nada para escrever se não fosse algumas coisas que me vieram à mente a alguns minutos atrás. Atualmente estou lendo o livro “O Homem e seus Símbolos” de Carl Gustav Jung e é mais ou menos sobre ele que quero escrever.

É um livro de fácil compreensão que vem dar uma base ao estudo da psicologia Junguiana a qual se diferencia da Freudiana por aspectos como a valorização do inconsciente não só como um depósito de material reprimido (como diz Freud), mas também como um lugar de onde se pode tirar coisas trazendo à consciência como um produto desde sempre inconsciente. Isto é, Jung considerava o inconsciente como um lugar também de criação ou produção e não somente um depósito inerte como o era para Freud.

Seguindo, o livro trata da dimensão simbólica do homem desde sempre e como a racionalidade veio a destruir a importância original que os símbolos exerciam sobre o homem. Com certeza não é só essa a mensagem do livro, mas infelizmente não terminei de lê-lo ainda e minha contribuição não será tão rica devido aos meus poucos conhecimentos acerca da psicologia Junguiana – e aqui até faço um apelo para meus amigos estudiosos de Jung para que me ajudem caso esteja errada.

Agora então, finalmente, começo. O homem é um ser que se utiliza símbolos para viver. Em outro texto já havia escrito acerca da linguagem humana e lembro que em algum momento falei da dimensão inconsciente dessa. E aqui encontro um bom gancho para começar o que quero dizer. O homem desde sempre utilizou a simbologia a qual trazia junto consigo um aspecto inconsciente que lhe conferia importância nas decisões das sociedades primitivas. Antigamente, sonhos, visões ou premonições assumiam o papel de mensagens as quais dirigiam a ação e indicavam o caminho para o homem. Um exemplo disso são os personagens dos filmes que vemos como feiticeiros, pajés, magos, etc os quais possuíam o poder de receber mensagens do além. A forma de se interpretar esse fenômeno não mudaria se fosse transposto para os dias atuais, ou seja, seriam frutos da imaginação ou do inconsciente. A diferença está na forma como, antigamente, o homem percebia esses eventos (sonhos, visões, intuições, premonições), e lhes conferia uma devida importância. Suas ações e decisões eram baseadas nessas mensagens vindas do inconsciente. O que aconteceu com o homem moderno foi a perda dessa percepção ou a desvalorização dela. O homem continua sonhando e tendo intuições, mas não lhe confere a sua devida importância. O homem moderno passou por cima dos símbolos que estão presentes nos sonhos que tem todas as noites. Deixou de prestar atenção às suas intuições num mundo que perdeu a dimensão irracional, e vive como se não houvesse nada além da sua consciência. Com isso, perdeu a capacidade de se perceber como um ser simbólico que vive rodeado de símbolos conscientes e inconscientes.

Em certo trecho do livro, Jung ressalta o começo do fim da simbologia humana com o surgimento do cristianismo, ou seja, com a instituição de um Deus único e soberano em detrimento dos antigos “deuses” da natureza. Esse fenômeno acarretou o fim da simbologia atribuída à natureza em geral – a Deusa do lago, a Mãe natureza, e a crença de que todos os seres pertencentes ao mundo possuíam vida ou alma como as árvores por exemplo. Porém, o que aconteceu foi uma troca – digamos desvantajosa – entre milhares de “pequenos deuses” por um único e grandioso Deus mostrado pela igreja. Todo o resto era então desvalorizado e desacreditado. É como se ficasse uma grande falta de significado ou de essência em nosso mundo: tudo foi trocado por uma única coisa que passou a simbolizar tudo. Meio complicado isso né ?! Mas o problema não foi exatamente a troca de vários deuses por um só, o problema parece que está no fato de que não se colocou nada nos lugares que eram antes preenchidos por algum sentido ou significado, e o mundo parece que ficou assim mesmo: cheio de falta de significado. A luz da igreja fez nascer um homem “sozinho”. Tudo isso contribuiu para a desvalorização do nosso próprio inconsciente – nosso primeiro guia. Tudo que é muito próximo do homem não é tido como sagrado nem tampouco digno de ser valorizado.Talvez o homem antigo fosse mais feliz com seu mundo tão cheio de significado, e suas crenças tão menos carregadas de pecado e culpa.

A Dinâmica dos Relacionamentos do Médico-Residente no Hospital Conceição – Uma Breve Etnografia I

ÍNDICE

1. INTRODUÇÃO
2. O AMBIENTE DE TRABALHO
3. AS RELAÇÕES PROFISSIONAIS
4. DO PONTO DE VISTA DO PACIENTE
5. DO OUTRO LADO
6. O MÉDICO RESIDENTE E O SEU DIA-A-DIA
7. INTERMEZZO: VOCABULÁRIO MÉDICO-POPULAR
8. ACONTECIMENTOS INCRÍVEIS E NEGLIGÊNCIAS
9. MÉDICO RESIDENTE – A FUNÇÃO SOCIAL VERSUS A FUNÇÃO HUMANIZADORA
10. CONCLUSÃO

INTRODUÇÃO

O presente exercício de etnografia tem por objetivo descrever de forma sintética as atividades profissionais de um grupo de médicos residentes do Hospital Conceição em seu local de trabalho e verificar as relações existentes entre os mesmos, entre estes e seus preceptores e seus pacientes. Para tanto servi-me do conhecimento adquirido durante este ano de 2000, em que tenho trabalhado como médico residente no mesmo Hospital, além de entrevistar especificamente alguns colegas e pacientes, após a exposição dos objetivos do presente trabalho. A escolha do lugar e do tema deveu-se tanto pelo fato de que julguei ser interessante para mim investigar, do ponto de vista antropológico as relações humanas existentes no meu ambiente de trabalho aliado ao fato de que meus objetos de estudo estariam presentes ao meu lado diariamente, não sendo necessário um período de inserção. Isso significa – creio eu seja esse um aspecto importante – ausência de mentiras, desconfianças ou dissimulações durante minha interação com as pessoas. Não poderia de forma alguma “usar melhor a vestimenta” de quem estou estudando do que assim o fazendo. Durante o trabalho, primeiramente descreverei o ambiente de trabalho dos médicos residentes. Daí em diante passarei para as relações hierárquicas e profissionais entre o médico residente, outros funcionários, seus preceptores e os pacientes. A seguir explicarei alguns mecanismos do funcionamento do Hospital e passarei a descrever o dia-a-dia típico do médico residente, passando por algumas experiências contadas por colegas acontecidas no decorrer das atividades e nos plantões. Também será apresentada, do ponto de vista do paciente, uma breve impressão que este tem dos eu médico e dos outros pacientes. Finalmente, serão levantados os aspectos sociais e humanitários da profissão do médico residente. Apesar da grande dificuldade de me distanciar do meu papel de médico residente, eu o consegui, até certo ponto, quando fui ao Hospital por 2 vezes em minhas férias de novembro sem o jaleco branco. Somente aí consegui realmente tomar uma distância crítica entre o meu papel como médico e o meu caráter de pesquisador, de etnólogo, podendo assim analisar alguns aspectos que não conseguia separar normalmente.

O AMBIENTE DE TRABALHO

Ao Hospital Nossa Senhora da Conceição pode-se chegar de uma série de formas: ônibus, carro, táxi ou mesmo a pé, sendo que a entrada principal encontra-se na Rua Francisco Trein. Em frente ao Hospital, vemos um amplo comércio: no lado oposto da rua, temos lancherias e restaurantes, farmácias de manipulação, farmácias comuns, um banco, padaria, lotérica, estacionamentos, lojas de produtos “um e noventa e nove” e vários outros estabelecimentos, além de um ponto de táxi. Do lado da rua em que se encontra o Hospital, existem vários carrinhos que vendem lanches rápidos com cachorros-quentes, xis-búrgueres, salgadinhos, churrasquinhos e refrigerantes, além de uma barraquinha de ervas naturais para “tratamento” de qualquer doença, segundo propagandeia a dona do mini-estabelecimento. A primeira impressão que temos é a de sujeira. A frente do Hospital tem um visual poluído, com todas aquelas barraquinhas, fumaça e cheiros misturados, um misto de poluição visual, sonora e olfativa. Na entrada do Hospital, dois seguranças fiscalizam a passagem das pessoas, deixando passar as que estão identificadas com crachás do Hospital e limitando a entrada de outras pessoas como familiares de pacientes, representantes comerciais de laboratórios farmacêuticos e outros que não possuem autorização específica para entrarem fora do horário de visitas. Os corredores do Hospital são largos, em média de três a três metros e meio de largura, com uma iluminação razoável, baseado em parte na luz solar que adentra as amplas janelas que se encontram tanto nos quartos dos pacientes quanto nas enfermarias em si. Escolhi para meu trabalho a enfermaria denominada 3°C, onde ficam os pacientes de responsabilidade da Medicina Interna, pacientes com patologias eminentemente clínicas e de gravidade considerável. Nessa enfermaria, temos duas partes: uma, à esquerda, onde ficam guardados os prontuários dos pacientes e onde fica uma secretária responsável pelos aspectos burocráticos e de gerenciamento de materiais do posto, servindo também como telefonista e fornecendo informações a familiares de pacientes. À direita, o espaço é reservado para a equipe de enfermagem. No local são guardados medicamentos, materiais para procedimentos médicos ou de enfermagem, seringas, agulhas e coisas do gênero, além de ser o espaço onde os auxiliares de enfermagem preparam as medicações que foram trazidas da farmácia para administrar aos pacientes. Logo à esquerda dessa sala fica então a sala de prescrição, onde os médicos residentes e seus doutorandos buscam resultados de exames, evoluem por escrito e prescrevem seus pacientes. Nessa sala existe uma grande mesa, várias cadeiras e banquinhos (em torno de 10), 2 computadores e uma impressora, além de muitos formulários e papéis de todos os tipos e para todos objetivos, alguns organizados em um escaninho mas outros tantos espalhados pela mesa e até mesmo pelo chão, em uma balbúrdia infernal. Logo ao lado desta sala existe outra pequenina sala onde se encontra mais um computador, uma pequena mesa e duas cadeiras, além de um arquivo onde são guardados artigos científicos de relevância clínica para fácil acesso aos médicos residentes. Nesta sala também há uma antiga máquina de xerox, alugada pelos médicos residentes para que estes possam fazer cópias de livros ou artigos científicos para uso pessoal. Ainda sobre a estrutura física do Hospital, temos no centro do mesmo (já que esse é formado por 3 alas) uma praça ao ar livre, onde tanto pacientes como funcionários podem transitar tranqüilamente. Alguns outros aspectos relacionados aos quartos dos pacientes serão discutidos na parte intitulada “Do ponto de vista do paciente”.

AS RELAÇÕES PROFISSIONAIS

Nesse andar, como em praticamente todo o hospital, o trabalho médico direto é exercido por residentes de Medicina Interna, médicos formados em Universidades federais ou particulares de todo Estado e ocasionalmente fora dele. Esses médicos residentes passam, após conclusão do curso terciário, por um processo de seleção que inclui uma prova escrita, a apresentação do currículo e uma entrevista, sendo então selecionados os melhores para a realização do Programa de Residência Médica do Hospital, que é, na verdade, uma forma de pós-graduação e especialização. Também fazem parte do corpo profissional do setor uma enfermeira por turno (que são três no total: da 7:00 às 13:00, das 13:00 às 19:00 e das 19:00 às 7:00) e 7 a 8 auxiliares de enfermagem por turno. Além disso, existem médicos contratados, chamados “preceptores”, que são os orientadores dos médicos residentes. Estes vêm ao Hospital em determinadas horas do dia conforme sua disponibilidade e discutem os casos dos pacientes com os médicos residentes, dirimindo dúvidas que estes porventura tenham no que diz respeito ao diagnóstico e tratamento das enfermidades dos pacientes. É claro, existem os pacientes, que são o motivo de ser do Hospital. Os pacientes que estão internados no 3°C são pacientes geralmente graves, pacientes que tenham uma patologia de difícil manejo, pacientes que necessitem internar para realizar uma avaliação diagnóstica intra-hospitalar ou mais freqüentemente pacientes com várias patologias simultâneas ou com seqüelas de uma patologia anterior. São pacientes com doenças renais, cardíacas, pulmonares, neurológicas, oncológicas, endocrinológicas, hematológicas, infecciosas, psiquiátricas e também psicossomáticas. Além do atendimento médico prestado diretamente pelos médicos residentes, pelos enfermeiros e auxiliares de enfermagem e indiretamente pelos preceptores, ainda estão distribuídos pelo Hospital outros serviços que servem de apoio a essa estrutura básica, como por exemplo as especialidades médicas ( Endocrinologia, Nefrologia, Cirurgia Geral, Urologia, etc.) que podem ser contatadas em casos especiais, por vezes complicados ou que necessitem uma avaliação deveras especializada; também existe o Serviço Social, o Serviço de Fisiatria, a Odontologia além dos serviços de apoio ao diagnóstico, como a Radiologia, o Laboratório Central, a Medicina Nuclear, a Ergometria, a Eletrocardio e a Eletroencefalografia, a Ecografia e assim por diante. Algo curioso que pode se notar logo em uma primeira olhada é algum ar de inimizade, uma tensão existente entre médicos residentes e enfermeiras. Isso não pareceu ser a regra, mas por mais de uma vez pude presenciar atrito entre um médico residente e uma enfermeira. Ao questionar ambos sobre as possíveis razões pelas quais tal fato acontece, já que, a princípio o objetivo de ambos é melhorar a saúde do paciente, a resposta diferiu bastante. Enquanto a enfermeira respondeu que isso acontece porque os médicos residentes são muitas vezes muito impetuosos, solicitando para já a realização de certos procedimentos, não compreendendo a indisponibilidade de pessoal insuficiente para adequação do trabalho de enfermagem, por outro lado o médico residente respondeu que isso aconteceria pois a enfermeira se julga “dona”do posto de enfermagem e, além disso desconsidera o médico residente, já que este permanecerá no Hospital por uma média de 2 anos, enquanto ela é funcionária contratada, não precisando se sujeitar às demandas dos residentes. Foi também possível observar que o mesmo atrito não ocorre entre residentes e auxiliares de enfermagem, exceto em circunstâncias muito especiais como por exemplo demora na administração de uma medicação que tem caráter de urgência ou também durante os plantões com a equipe de auxiliares da noite. Segundo grande parte dos médicos residentes, a equipe de auxiliares de enfermagem que trabalha durante a noite é muito ruim e de difícil relacionamento: não administram medicações de forma correta, descuidam de cuidados simples até mesmo como aferir a temperatura axilar ou a pressão arterial do paciente e assim por diante. O motivo pelo qual especulam que isso aconteça é pelo fato de que são os funcionários contratados há mais tempo pelo Hospital, pelo fato de trabalharem à noite e, segundo postulam, com a inversão do ritmo circadiano ocorreria uma maior probabilidade destes tornarem-se irritadiços e pouco dispostos ao trabalho (o que dificulta concomitantemente o trabalho dos médicos residentes, talvez por isso gerando às vezes um sutil clima de inimizade).

DO PONTO DE VISTA DO PACIENTE

A entrada dos pacientes no Hospital se dá de três formas básicas: a primeira é pelo Serviço de Emergência do Hospital. Pacientes com enfermidades agudas procuram a Emergência, são atendidos primeiramente lá e então ficam aguardando, geralmente por dias, um leito vago na internação do Hospital. A segunda forma é uma internação eletiva via Ambulatório, de onde pacientes que são atendidos nos ambulatórios e necessitam de internação são encaminhados. As vagas para pacientes ambulatoriais só se tornam disponíveis após ocupação dos leitos dos andares de internação pelos pacientes que recebem alta da Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) e pelos pacientes que estão na Emergência. Pelo menos essa é a regra estabelecida, mas o que acontece não é bem isso. Muitas vezes se burla o sistema estabelecido e se interna pacientes via Ambulatório sem que os pacientes que estão na Emergência subam, o que aumenta a permanência destes na Emergência. A terceira forma é a internação “política”, onde familiares ou pessoas indicadas por políticos municipais ou estaduais internam, sobrepujando qualquer regra básica de ordenação de internação. A grande maioria dos pacientes, aqueles internados pelo Serviço de Emergência, são pacientes de classes sociais menos favorecidas, pacientes que não tiveram acesso prévio ao sistema de saúde, ou o tiveram mas têm dificuldade de realizar o tratamento adequado de suas doenças, quer seja por dificuldades financeiras, intelectuais ou mesmo pelas condições de trabalho, moradia e sobrevivência a que estão sujeitos. No andar em que ficam internados, no caso o 3°C, os pacientes ficam em quartos em que dividem o espaço com mais três pacientes, em um total de 10 quartos mais três quartos reservados para isolamento de pacientes com doenças infecto-contagiosas graves ou com imunossupressão e que conseqüentemente não podem entrar em contato com outros pacientes. Os quartos são só femininos ou só masculinos, sendo que ocasionalmente permite-se um acompanhante do sexo oposto, no caso familiar de algum paciente quando este necessita de cuidados especiais ou atenção intensiva, o que nem sempre é possível ser feito pelo serviço de enfermagem. Entre os leitos dos pacientes não existe nenhum biombo ou cortina, o que deixa os pacientes expostos física e psicologicamente a seus companheiros de quarto. Ocasionalmente, pude constatar pacientes em recuperação de grandes cirurgias abdominais, com seu abdômen aberto, apenas protegido por uma tela, em um quarto assim, “semi-privativo”, sendo exposto à “visitação” por parte dos outros pacientes e pior, na hora da visita, por outras pessoas. Isso sem contar a sensação de desconforto que é causada justamente nos outros pacientes que dividem o quarto, como constatei em conversa particular com uma paciente de 28 anos que estava no leito ao lado. Da mesma forma, uma queixa freqüente que parte dos pacientes em relação aos seus companheiros de quarto diz respeito aos pacientes internados por alcoolismo e àqueles internados por acidentes vasculares cerebrais. Aos primeiros porque geralmente são pessoas que internam em mau estado geral, são mal-cuidados e mal-cheirosos, além de que, quando começam a melhorar, também,são considerados mal-educados, pois em geral, pronunciam impropérios. Dos últimos reclamam principalmente devido ao mau-cheiro das escaras,que são úlceras provocadas pela pressão continuada sobre alguma região do corpo, já que esses pacientes não conseguem se movimentar sozinhos. E, diariamente são trocados os curativos dessas escaras, sendo que, principalmente quando infectadas e expostas na hora dos curativos, exalam um mau-cheiro terrível (que pude presenciar por mais de uma vez). Muitos pacientes estão restritos aos seus leitos, pois a patologia que lhes trouxe para o hospital é tão debilitante que os enfraquece ou mesmo previne que estes possam deambular adequadamente, ficando assim totalmente dependentes dos cuidados oferecidos pelo Hospital e por vezes por seus familiares. Isso inclui impossibilidade até mesmo de fazerem as necessidades fisiológicas mínimas como evacuar, urinar ou mesmo se alimentar. Quando perguntamos aos pacientes o que estes pensam de seus médicos, a resposta geral e quase unânime é a de que seu médico é muito bom, que é confiável, lhe trata bem, ou seja, só existem elogios. Poucos pacientes expressam queixas objetivas em relação a seus médicos, e quando estas acontecem, dizem mais respeito a demora na realização de exames ou sofrimento relacionado a procedimentos realizados mas inerentes a esses procedimentos. Interessante observar que, como já citado, os pacientes internados no Hospital Conceição são de classes sociais menos favorecidas, e isso significa que são pacientes que questionam menos seu médico, ignoram mais completamente mecanismos de instalação das doenças, tendo muitas vezes idéias mágicas acerca da origem de sua patologia, ao contrário do que acontece com as classes mais informadas, que estão sempre questionando acerca da doença, das condutas tomadas e qual o plano a seguir. Cito isso porque também é interessante notar que, com os pacientes dessas classes mais informadas, o nível de satisfação é menor, mesmo se compararmos casos similares com resultados parecidos. Talvez, em parte, porque o nível de exigência seja maior e talvez porque, justamente por possuírem uma maior capacidade de argumentação, os pacientes e familiares de classes mais favorecidas julgam poder ter privilégios sobre outros pacientes, esquecendo que estão servindo-se de serviços oferecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) [o SUS, quando planejado, almejava oferecer acesso universal e integral à saúde de todos cidadãos brasileiros, estando, como podemos acompanhar, pela dificuldade de acesso a consultas, a exames diagnósticos e medicamentos e pelo crescimento dos planos privados de assistência à saúde, em plena decadência]. Muitas queixas derivam do fato dos pacientes terem de esperam internados por muito tempo até a realização de um exame, o que ocorre, após pesquisar seus mecanismos, devido à falta de profissionais contratados para realização desses exames, e não devido a falta de equipamentos necessários. Chegou-se ao cúmulo de o Hospital ficar sem ecocardiograma pelo período de um mês pois o único ecocardiografista do Hospital entrara em férias. (!)

(continua em 1 semana…)

Rock Progressivo (part II)

Realmente, o auge do progressivo se deu na década de 70, quando o estilo fez mais sucesso (será?) e onde formaram-se a maioria das bandas mais famosas. Hoje em dia, no mundo artístico-musical e do “showbizz”, ele praticamente extinguiu-se e só é ouvido por poucos aficcionados; caiu de moda, inclusive é um “palavrão” em certos meios. Tem apelo comercial quase zero – é pouco vantajoso para uma estação de rádio jovem tocar uma música de 10, 15, 20 minutos sem colocar um intervalo comercial. Várias eram as bandas que dominavam o cenário do progressivo nos anos 70. Entre as principais podemos citar Pink Floyd, Rush, Yes, Genesis, Emerson Lake and Palmer, Jethro Tull, Gentle Giant, Van der Graaf Generator, Focus, King Crimson, Premiata Forneria Morconi, entre outras. Entre as nacionais, podemos destacar: O Terço, Secos e Molhados, Casa das Máquinas, O Som Nosso de Cada Dia, os Mutantes fase pós-Rita Lee, Som Imaginário, etc. Musicalmente falando, existe algo de muito peculiar no progressivo que o torna muito original como estilo, diferenciando-o de outros gêneros musicais contemporâneos: a característica de pegar um tema, um solo, um riff, e a partir dele ir montando toda a música, formando uma continuidade. É como se, por exemplo, repetíssemos uma seqüência de duas notas três vezes, e na quarta vez colocássemos outra nota tocada por outro instrumento, na quinta vez montaríamos um acorde, na sexta vez colocaríamos uma melodia em cima desse acorde, na sétima vez tocaríamos a mesma sequência mas num outro compasso, e assim a música vai se construindo. A própria música minimalista pode-se dizer que se originou do progressivo. Talvez seja dessa característica “seqüencial” que tenha surgido o termo “progressivo”. Ou seja, na verdade, no progressivo uma parte de uma música depende da parte anterior, há uma hierarquia na sequencia das notas, é diferente da música popular comum que tem uma introdução, uma estrofe, um refrão, aí volta para a estrofe, e aí acaba a música, etc. É um estilo que se repete pouco, musicalmente, que tem essa preocupação em não se repetir. É como uma estória que vai sendo contada, tem início, meio e fim, não é uma coisa cíclica, não é um círculo vicioso. Sem falar nas letras e principalmente nas capas dos discos, que é outra coisa peculiar do estilo. As letras têm muitas vezes conteúdos esotéricos e misteriosos, que falam de temas míticos e místicos, algumas vezes medievais, outras futuristas, quando não temas existencialistas. Sem dúvida é uma música bem “viajante”. Certa vez um jornalista usou o termo “A explosão colorida e misteriosa do Rock Progressivo”. Quanto às capas, às vezes quando as visualizamos temos a impressão que estamos em outro planeta, na maioria das vezes são multicoloridas e retratam realidades fantásticas e parecendo que saíram de livros de ficção científica. O artista plástico Roger Dean ficou famoso na década de 70 por desenhar as capas do Yes. Muitos críticos execram o progressivo considerando-o muito chato, anacrônico e rococó. Eu particularmente não acho que às vezes eles não tenham um pouco de razão, mas também acho que eles caem na intransigência e na radicalidade, pois considerar que todo um estilo daquela monta que foi representado pelo progressivo não tenha nada de bom é uma falta de visão, um modismo e também uma burrice. Mas enfim, o que é modismo passa e a boa música fica. Espero.

Susan Buck-Morrs, Hegel e o Haiti

É muito bom ouvir falar de Susan Buck-Morrs nestes tempos de reorganização da esquerda pelo mundo afora. Ela é autora do clássico The Origin of Negative Dialectics (1977), estudo histórico sobre a Escola de Frankfurt centrado nas figuras de Theodor Adorno e Walter Benjamin. The Journal of Visual Culture (no artigo “Globalization, cosmopolitanism, politics, and the citizen”, 2002, vol. 1, nº 3, p. 325-40) traz uma entrevista com ela, sobre seu último livro (Dreamworld and Catastrophe: The Passing of Mass Utopia in East and West, 2000) e seus projetos recentes. O artigo está disponível no portal de periódicos da CAPES (http://www.periodicos.capes.gov.br), livremente acessável de dentro dos campi universitários. Chamou-me a atenção o projeto (esquerdista) da autora de resgatar as esperanças utópicas da modernidade pelo método da justaposição de elementos, tal como ocorre nas fotomontagens (p. 329). Ela aplicou este método no artigo “Hegel and Haiti”, publicado em Critical Inquiry (2000, vol. 26, nº 4, p. 821-65). (Este artigo está disponível no portal da CAPES, e também na Biblioteca Setorial de Ciências Sociais e Humanidades da UFRGS.) Um tal método poderia nos lembrar aquele utilizado pelos surrealistas, que criavam um novo objeto a partir da justaposição arbitrária de elementos tão díspares quanto um ferro de passar roupa e alguns pregos, ou a fórmula de Tristan Tzara para a composição de poemas dadaístas (recorte as palavras de um texto qualquer, misture-as, pegue-as ao acaso, cole-as na ordem em que foram pegas, pronto!), mas não é o caso. No caso de S. Buck-Morrs, trata-se de um método acadêmico de composição, e a justaposição de elementos aparentemente tão distantes quanto a filosofia de Hegel e a independência do Haiti exigiu dela pesados estudos em várias áreas. Com este método S. Buck-Morrs está, na verdade, superando a aguda compartimentalização do conhecimento acadêmico da nossa época. Seu método relaciona em uma única “figura”, a sua obra, elementos de fato relacionados entre si, embora tal relação não tenha sido percebida por aqueles que estudam, de maneira atomizada, tais elementos. Mais do que justaposição, seu método pretende a restauração não-eurocêntrica de uma imagem (p. 330). A motivação de S. Buck-Morrs para a utilização de um tal método é equipar a esquerda com (o que podemos considerar) uma (filosofia da) história diferente daquela que equipa o pensamento de direita (p. 330), e que estaria por trás da teoria (inspirada em Hegel!) de F. Fukuyama (em O Fim da História e o Último Homem), entre outras (p. 334). Sua pretensão é a de escrever uma genealogia cultural (ou “arqueologia”) da globalização. Segundo seu modo de ver as coisas, a filosofia da história de direita pensa no que poderias ser considerado o fim da era moderna a partir do seu ato final, a queda do Muro de Berlim. Sua proposta é reescrever a história a partir do início da modernidade, e seu objetivo é, sem dúvida, o de lançar os elementos para que esta narrativa (a “História”) tenha um outro final (p. 330). Passemos do método para a aplicação do mesmo. Qual a relação entre Hegel e o Haiti? Para a autora, há elos histórico-intelectuais que ligam a dialética do senhor e do escravo ao contexto de debate e recepção dos acontecimentos que culminaram na libertação dos escravos no Haiti. A primeira menção à dialética do senhor e do escravo está nos manuscritos de Jena de 1803-5, em notas que precedem imediatamente à escrita da Fenomenologia do Espírito. Em 1803 Napoleão prende Toussaint-Louverture, que soltou os escravos da ilha de São Domingos (onde hoje se localizam a Republica Dominicana e o Haiti) e forçou o governo revolucionário francês a abolir a escravatura nas colônias. Em 1804-5 Dessalines lidera o conflito na ilha de São Domingo, liberando a colônia e estabelecendo o “império negro” do Haiti. Foi exatamente nesta época que Hegel formulou a dialética do senhor e do escravo (p. 330-1). Buck-Morrs explora a possível relação entre as duas coisas. Ela encontra elementos que reforçam a possível relação entre as duas coisas no fato do principal períodico político da Alemanha na época de Hegel, chamado Minerva, que Hegel conheceu e leu, ter apresentado centenas de páginas sobre os dez anos de luta haitiana contra o colonialismo, entre 1803 e 1805. O mesmo ocorria com toda a imprensa européia da época, repleta de referências à revolução haitiana. A exceção foi a imprensa francesa, que sofria da censura imposta por Napoleão às notícias vindas da colônia. Para Buck-Morrs a revolução haitiana significou, para os intelectuais europeus, a concretização da metáfora, presente de diversas maneiras em Hobbes, Locke e Rousseau, da “libertação da escravidão”. A revolução haitiana transformou esta metáfora fundamental para a filosofia política européia da Idade Moderna em um evento histórico real, e isto deve ter inspirado o jovem Hegel, inclusive no fato dele ter substituído a narrativa não-histórica do “estado de natureza” pela narrativa intra-histórica da dialética do senhor e do escravo como justificação da liberdade. Tal relação entre Hegel e o Haiti devia estar presente para o público da época, embora a tenhamos perdido de vista (p.331).


(texto escrito em 21/02/2003) César Schirmer dos Santos é mestrando em Filosofia na UFRGS

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Rock Progressivo (part I)

Viva a boa música. Desde que a música moderna ocidental surgiu (acho que no século XV ou XVI), poucas tentativas de revolução musical (musicalmente falando), tirando talvez o jazz, foram tão intensas ou interessantes quanto o surgimento do progressivo, surgido por volta da sétima década do século passado. Desde que surgiu, nos anos cinqüenta, o rock sempre foi passando por transformações. Do rock’n’roll básico de três acordes de Elvis Presley e Chuck Berry, foi surgindo, na década seguinte, um som um pouquinho mais complexo, incluindo acordes menores e melodias um pouco mais desenvolvidas. Era a época da Beatlemania, que assolou o planeta com os quatro cabeludos de Liverpool e mais uma penca de bandas na sua cola, tais como Beach Boys, Zombies, The Byrds, Rolling Stones, etc (os “Stonemaníacos” que não me atirem pedras). Certamente naquela época o rock ganhou mais corpo como estilo musical, mas só iria ser levado à condição de arte com o clássico álbum “Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band”, de 1967, considerado um marco. Bem, podemos dizer que foi mais ou menos aí que tudo começou. O antológico álbum dos Beatles chamava a atenção não só pela beleza das músicas, mas também porque trazia uma estrutura que fugia dos parâmetros musicais dos discos anteriores. Ruídos estranhos no final da última música do disco, músicas coladas umas às outras, uso de instrumentos totalmente estranhos ao rock e até mesmo à música ocidental daquele momento, como a cítara, por exemplo, e junto com isso, a inclusão de elementos musicais totalmente novos, como a música indiana, o jazz e a música de orquestra, por exemplo. Quem leu com atenção o parágrafo anterior já tem agora mais ou menos a noção do que é o progressivo. O estilo, nesse ínterim, poderia ser conceituado como tentativas de alguns músicos de expandir musicalmente o rock até suas últimas fronteiras, atingindo uma qualidade e riqueza artísticas jamais pensadas. Na minha opinião, os Beatles, talvez mesmo sem saber, tenham fundado o progressivo com o lançamento do “Sgt. Peppers”, mas mais ainda, com o lançamento do “Abbey Road”, de 1969, que incluía aquele clássico lado B com todas as músicas em sucessão, coladas, como que seguindo uma seqüência lógica. Talvez uma das características mais marcantes tenha sido a inclusão de elementos da música erudita no rock. De fato, muitos dos mais famosos nomes do progressivo, como Keith Emerson, Rick Wakeman, Patrick Moraz e outros, tiveram uma formação de música erudita; muitos dos discos de progressivo eram compostos por “suítes” que duravam 10, 12, 15, 20 minutos. “Thick as a Brick”, do Jethro Tull, preenchia os dois lados do vinil. “Tubular Bells”, de Mike Oldfield, idem. Também de fato, era uma época de turbulência cultural, certamente os músicos filhos dos “burgueses europeus” passavam estudando música erudita durante anos em conservatórios mas queriam ser roqueiros, pois era a época em que o rock estava em expansão. Boa parte da manutenção do rock progressivo durante a década de 70 talvez tenha vindo dessa mistura de influências músico-culturais pela qual esses jovens passaram. (continua no próximo episódio)

(escrito no verão de 2001)