Simplicíssimo

Susan Buck-Morrs, Hegel e o Haiti

É muito bom ouvir falar de Susan Buck-Morrs nestes tempos de reorganização da esquerda pelo mundo afora. Ela é autora do clássico The Origin of Negative Dialectics (1977), estudo histórico sobre a Escola de Frankfurt centrado nas figuras de Theodor Adorno e Walter Benjamin. The Journal of Visual Culture (no artigo “Globalization, cosmopolitanism, politics, and the citizen”, 2002, vol. 1, nº 3, p. 325-40) traz uma entrevista com ela, sobre seu último livro (Dreamworld and Catastrophe: The Passing of Mass Utopia in East and West, 2000) e seus projetos recentes. O artigo está disponível no portal de periódicos da CAPES (http://www.periodicos.capes.gov.br), livremente acessável de dentro dos campi universitários. Chamou-me a atenção o projeto (esquerdista) da autora de resgatar as esperanças utópicas da modernidade pelo método da justaposição de elementos, tal como ocorre nas fotomontagens (p. 329). Ela aplicou este método no artigo “Hegel and Haiti”, publicado em Critical Inquiry (2000, vol. 26, nº 4, p. 821-65). (Este artigo está disponível no portal da CAPES, e também na Biblioteca Setorial de Ciências Sociais e Humanidades da UFRGS.) Um tal método poderia nos lembrar aquele utilizado pelos surrealistas, que criavam um novo objeto a partir da justaposição arbitrária de elementos tão díspares quanto um ferro de passar roupa e alguns pregos, ou a fórmula de Tristan Tzara para a composição de poemas dadaístas (recorte as palavras de um texto qualquer, misture-as, pegue-as ao acaso, cole-as na ordem em que foram pegas, pronto!), mas não é o caso. No caso de S. Buck-Morrs, trata-se de um método acadêmico de composição, e a justaposição de elementos aparentemente tão distantes quanto a filosofia de Hegel e a independência do Haiti exigiu dela pesados estudos em várias áreas. Com este método S. Buck-Morrs está, na verdade, superando a aguda compartimentalização do conhecimento acadêmico da nossa época. Seu método relaciona em uma única “figura”, a sua obra, elementos de fato relacionados entre si, embora tal relação não tenha sido percebida por aqueles que estudam, de maneira atomizada, tais elementos. Mais do que justaposição, seu método pretende a restauração não-eurocêntrica de uma imagem (p. 330). A motivação de S. Buck-Morrs para a utilização de um tal método é equipar a esquerda com (o que podemos considerar) uma (filosofia da) história diferente daquela que equipa o pensamento de direita (p. 330), e que estaria por trás da teoria (inspirada em Hegel!) de F. Fukuyama (em O Fim da História e o Último Homem), entre outras (p. 334). Sua pretensão é a de escrever uma genealogia cultural (ou “arqueologia”) da globalização. Segundo seu modo de ver as coisas, a filosofia da história de direita pensa no que poderias ser considerado o fim da era moderna a partir do seu ato final, a queda do Muro de Berlim. Sua proposta é reescrever a história a partir do início da modernidade, e seu objetivo é, sem dúvida, o de lançar os elementos para que esta narrativa (a “História”) tenha um outro final (p. 330). Passemos do método para a aplicação do mesmo. Qual a relação entre Hegel e o Haiti? Para a autora, há elos histórico-intelectuais que ligam a dialética do senhor e do escravo ao contexto de debate e recepção dos acontecimentos que culminaram na libertação dos escravos no Haiti. A primeira menção à dialética do senhor e do escravo está nos manuscritos de Jena de 1803-5, em notas que precedem imediatamente à escrita da Fenomenologia do Espírito. Em 1803 Napoleão prende Toussaint-Louverture, que soltou os escravos da ilha de São Domingos (onde hoje se localizam a Republica Dominicana e o Haiti) e forçou o governo revolucionário francês a abolir a escravatura nas colônias. Em 1804-5 Dessalines lidera o conflito na ilha de São Domingo, liberando a colônia e estabelecendo o “império negro” do Haiti. Foi exatamente nesta época que Hegel formulou a dialética do senhor e do escravo (p. 330-1). Buck-Morrs explora a possível relação entre as duas coisas. Ela encontra elementos que reforçam a possível relação entre as duas coisas no fato do principal períodico político da Alemanha na época de Hegel, chamado Minerva, que Hegel conheceu e leu, ter apresentado centenas de páginas sobre os dez anos de luta haitiana contra o colonialismo, entre 1803 e 1805. O mesmo ocorria com toda a imprensa européia da época, repleta de referências à revolução haitiana. A exceção foi a imprensa francesa, que sofria da censura imposta por Napoleão às notícias vindas da colônia. Para Buck-Morrs a revolução haitiana significou, para os intelectuais europeus, a concretização da metáfora, presente de diversas maneiras em Hobbes, Locke e Rousseau, da “libertação da escravidão”. A revolução haitiana transformou esta metáfora fundamental para a filosofia política européia da Idade Moderna em um evento histórico real, e isto deve ter inspirado o jovem Hegel, inclusive no fato dele ter substituído a narrativa não-histórica do “estado de natureza” pela narrativa intra-histórica da dialética do senhor e do escravo como justificação da liberdade. Tal relação entre Hegel e o Haiti devia estar presente para o público da época, embora a tenhamos perdido de vista (p.331).


(texto escrito em 21/02/2003) César Schirmer dos Santos é mestrando em Filosofia na UFRGS

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