Simplicíssimo

A Ilha ou A ética na criação de clones para transplante no ano de 2019

Eu poderia dizer que A Ilha estabelece uma ótima oportunidade para o debate acerca das divergências éticas que, com certeza, advirão quando a possibilidade de clonagem de seres humanos for mais do que um mero elemento somente presente em obras ficcionais.

Mas a verdade é que tentando tal abordagem eu estaria mentindo descaradamente, uma vez que mesmo A Ilha sendo um filme bastante divertido, o debate em questão passa tão longe da película que encontrar algum pingo de tentativa de debate moral ou ético no filme é o mesmo que insistir na teoria de que A Queda é um filme perverso e execrável por apresentar a face “humana” de um “inegável monstro” que foi Adolf Hitler.

A grande questão é que A Ilha não se propõe a nenhum tipo de debate neste sentido, por que incentivá-lo – ao menos nesta produção que não tem outra função senão o entretenimento gratuito, vide a direção ser de Michael Bay, criador de pérolas como Pearl Harbor, Armageddon, Bad Boys II, The Rock e outros quitutes da mesma laia – exigiria um cuidado tamanho com seu enredo e, principalmente, com os previsíveis furos de roteiro, que era, obviamente, muito mais simples se deter a produzir somente mais um filme-pipoca cheio de correrias e tiroteios e explosões e fugas em alta velocidade do que uma reflexão sobre as conseqüências do avanço da ciência sobre a criação de clones que serviriam tão somente como “estepes” em caso de necessidade de transplante de órgãos e membros para os seus “investidores” – os humanos originais em questão.

, criador de pérolas como , , , e outros quitutes da mesma laia – exigiria um cuidado tamanho com seu enredo e, principalmente, com os previsíveis furos de roteiro, que era, obviamente, muito mais simples se deter a produzir somente mais um filme-pipoca cheio de correrias e tiroteios e explosões e fugas em alta velocidade do que uma reflexão sobre as conseqüências do avanço da ciência sobre a criação de clones que serviriam tão somente como “estepes” em caso de necessidade de transplante de órgãos e membros para os seus “investidores” – os humanos originais em questão.
A perspectiva é divertida, mas imaginar que uma empresa engendrasse um projeto tão grandioso como este – proporcionar a quem puder desembolsar US$5 milhões a criação de um ser amorfo, insensível, enfim, uma “massa” que tão somente serviria para produzir órgãos geneticamente idênticos ao do seu investidor – e se instalasse em um local tão inóspito e mantido com tanto sigilo que ninguém em todo o mundo soubesse que, na realidade, a perspectiva de criação de um clone que pudesse servir para transplante somente seria bem sucedido se este fosse realmente igual ao seu original – isto quer dizer, um humano que sente, tem fome, dor e sentimentos como qualquer pessoa – é mais do que rizível.

Neste projeto ultra-secreto, somente os administradores e funcionários e quaisquer prestadores de serviço da supracitada empresa é que tem conhecimento da realidade (ou seja, uma multidão capaz de dar com as línguas nos dentes, mas ninguém o faz!): que a empresa possui a capacidade da criação de clones com a exata idade do seu investidor, e os produz com a rapidez e agilidade de uma indústria automobilística, dentro de uma espécie de sacos onde eles permanecem imersos até o seu devido “nascimento”. E que, uma vez estando presentes no mundo – e são milhares, circulando no espaço fechado da empresa, com seus abriguinhos de malha branca e seus tênis Puma brancos -, são enganados com a balela de que a Terra sofreu uma contaminação, eles são os únicos sobreviventes (é, alguns espertinhos estranham os outros “sobreviventes” que continuam não parando de chegar…) e, de tempos em tempos, é sorteado um felizardo para habitar A Ilha, um dos únicos espaços aprazíveis no planeta que teria sobrevivido à contaminação e está apto para o recebimento de seres para viver lá felizes para todo o sempre.

Aí entram em cena o ainda mais espertinho Lincoln 6-Echo (Ewan McGregor) que logo descobre que a ilha se trata de uma farsa descarada – alguns sonhos seus, com lembranças que não fazem parte das implantadas pela empresa começam a deixar os executivos um tanto quanto preocupados, quando Lincoln então se mostra mais do que o mero erro de uma linha de montagem, é que a coisa começa a feder. Lincoln descobre que cada vez que um investidor precisa de um transplante é que seu respectivo clone é “mandado para a ilha”, ou seja, uma sala de cirurgia . Correndo para salvar a sua amiguinha colorida Jordan 2-Delta (Scarlett Johansson, linda mas com um número de falas que, sinceramente, não deve passar de três páginas no roteiro todo do filme), a sortuda que acaba de ganhar o privilégio de rumar para a ilha, Lincoln a toma pela mão e começa a correria a fim de escapar daquele bando de cientistas desumanos e tornar do conhecimento de todos que tipo de ato perverso é cometido em nome de alguns anos a mais de vida de milionários investidores.

Até este momento, temos estas verdade sendo enunciadas vagarosamente sobre a empresa. Depois, é uma coletânea de de Lincoln e Jordan correndo, voando, pulando, sendo perseguidos, escapando de tiros e rumando desesperado para entrar em contato com seus “originais” para mostrar-lhes quão desumano é o investimento que fizeram.

No final das contas, o filme parece uma colagem de uma porção de quaisquer outros de ficção científica: Laranja Mecânica, THX-1138, Minority Report e por aí vai. Vale – fora pelo bom desempenho de Ewan McGregor (e pena não se poder dizer o mesmo sobre a pobre Scarlett) – pela presença de Steve Buscemi capaz de fazer uma definição de Deus da seguinte maneira: “Sabe quando você quer muito uma coisa e você fecha os olhos e faz um pedido? Deus é o cara que te ignora.”

Alessandro Garcia

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