Simplicíssimo

Tôco

A anã me olhava dando risadinhas com seus dentinhos careados parecendo querer demonstrar que este era o seu método de sedução que melhores resultados lhe trouxeram até agora. Eu, entre compadecido, enojado e fascinado, dava um sorrisinho cumplíce para que a anã não achasse que eu, afinal, sou alguma espécie de filho da puta mal educado. Se bem sei, risadinhas continuam a fazer parte da relação de conveniências que procuram assegurar alguma espécie de troca empática entre duas pessoas – e a anã parecia realmente querer conquistar a minha empatia. Com sua sainha de crochê que deveria ter pertencido a alguma criança de uns cinco ou sete anos muito relaxada, ela deixava à mostra somente o cotoco que formava sua canela grossa. Se ela estivesse sentadinha a balançar os cotoquinhos alegremente, junto com aquelas risadinhas de dente careados, creio que seja possível dizer que ela teria me conquistado com muito mais rapidez do que conquistou.

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Eu não sei porque continuo vindo aqui – não sei se a anã tem conseguido ser feliz no seu intento de me seduzir ou se o encanto bizarro tem se entranhado no meu ser -, mas a verdade é que, olhando meio de lado, a anãzinha não é assim tão desprezível. Tem alguma gracinha naquele seu jeito de colocar o cabelinho fino para trás da orelha com o dedinho indicador em riste. Na verdade, não gosto de vê-la com este olhar preconceituoso, como se fosse um objeto raro ou alguma anomalia apresentada em circo tal qual aqueles seres deformes com uma cabeça extra colada ao pescoço. Na maioria das vezes, infelizmente, é este tipo de atividade que os anões em geral costumam exercer, mas esta anãzinha decidiu-se por uma forma alternativa de ganhar a vida. Só que eu não sei se é realmente bem sucedida no que faz, porque sempre que venho aqui, ela continua ali, no mesmo lugar, com as mesmas risadinhas, no entanto. Só mudam as sainhas de crochê e os tops, de vez em quando. A meia eu já notei que é quase sempre a mesma – e, na verdade, não sei porque insiste em utilizar meinhas de algodão branco com sandálias como se parecesse uma menininha arrumada pelos pais. Vai ver se vale disto para despertar o encanto em quem a observa, afinal de contas, não creio existir muitas outras artimanhas disponíveis para uma anã utilizar: mulher fatal, diva loira ou gostosona de shortinho parecem não lhe caber. No máximo um calçãozinho enfiado no reguinho pequeno pode ficar de alguma maneira excitante, mas acho que, no final das contas, a puerilidade que exala naquele seu balançar de perninhas [hoje se pôs sentadinha, como que adivinhando meus pensamentos de ontem…] e no jeitinho dócil com que põe o cabelinho fino para trás das orelhas pontiagudas acaba sendo a maneira mais satisfatória de encanto que consegue proporcionar.

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A anãzinha hoje foi mais ousada. Me olhou e, além de sorrir, balançou os dedinhos curtos em minha direção com aquela abanadinha típica de tia gorda do interior em porta de festa de aniversário. Não retribuí o gesto. Acho que preciso rever meus conceitos, pois, talvez não seja tão bem educado assim. A verdade, é que a anãzinha que tanto me tem encantado, hoje está me irritando profundamente: tenho vontade de bater na sua cara ou de levantá-la pelas axilas e balançar o seu corpinho até que não mais esboce sinal de vida. Tenho destas coisas de vez em quando: uma ternura quase sem fim que me faz delirar com pequenas coisinhas que encontro pelo caminho e que não costumam ser notadas pela maioria das pessoas, podendo ser flores em meio a pequenos toletes de merda ou mesmo criancinhas a bater insistentemente no vidro do meu carro. Em instantes depois, posso estar com vontade de enforcar a vovó mais doce e generosa que venha me oferecer um pedaço de bolo de cenoura com chá de pêssego. Acho que tem a ver com o excesso de candura que muitas vezes exala destas coisas e que entope alguma artéria sentimental minha, não me tornando mais paciente para suportá-las. Que bom que, ao final, fico apenas com a vontade se desenhando em minha cabeça e, ao que me lembre, nunca cheguei a levar a cabo nenhum destes intentos mais violentos. Acho que a doçura me toma de novo agora, pois já não creio que seria algo muito justo de se fazer pegar a anãzinha pelas axilas e sacudi-la violentamente até que rompesse em espasmos ou rebentasse alguma veia importante da cabecinha. Uma vez parece que ouvi falar de alguma diferente formação craniana que gera uma fragilidade extrema no cérebro destes serezinhos de pequeno porte, portanto é bom não abusar destas coisas da qual tenho pouca informação. Pegá-la agora pelas axilas e sacudi-la violentamente para saber se tem pouca resistência a bruscos gestos de movimentação de seu pequenino corpo não deve ser a experiência mais indicada para o momento.

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Acho que vou até ela. Está tão triste que tenho vontade de niná-la no colo. Lógico que esta candura que em mim se incorpora vem acompanhada de princípios de dominação – e quem não gostaria de ter uma anãzinha sob domínio para satisfazer seus devaneios eróticos? Ela tem carinha de safada. Não sei se é mais uma das suas artimanhas, mas hoje se botou casmurra e nem seus dentinhos careados quis me mostrar. Seus gestos são mais curtos do que normalmente seriam e, se afasta o cabelo dos olhinhos é porque eles realmente a atrapalham, e não por que com isto queira impor algum princípio de sexy appeal. Acho que desistiu de mim. Na verdade, acho que nunca a mereci de verdade. Quem compreenderá, afinal, o que se passa em sua cabecinha?

Alessandro Garcia (http://suburbana.blogspot.com ) é escritor e publicitário, tem 24 anos, e acha Porto Alegre a capital do mundo. Apaixonado por Legião Urbana e Pearl Jam (e contraditoriamente, fã ardoroso de música soul), sabe que tudo é uma questão de manter a mente aberta, a espinha ereta e o coração tranqüilo.

Alessandro Garcia

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