Simplicíssimo

O Sergipano

Nobre amigo, de fino trato e vasta cultura, o sergipano convidou-me para sair à noite, num bar muito bem frequentado. Sempre apreciei suas abordagens polidas às mulheres atraentes, sem nenhuma chance de recusa e conquistando um espaço para, no mínimo, uma boa conversa.

E lá estávamos nós, posicionados perto do banheiro, por onde mais cedo ou mais tarde todas as almas e carnes passariam. Do seu jeito discreto, sinalizou-me a aproximação de uma atraente mulher. E realmente era. Mas não apenas isso. De passagem, ela jogou um atraente sorriso em sua direção. E entrou no banheiro.

Aticei o momento. Parecia imperdível. Bastava tão-somente o exercício das suas capacidades. Não tardou muito para que ele fizesse o caminho de volta. Nem que ele a abordasse da forma costumaz. E quando, depois de algum diálogo, o papo travou, decidi intervir:

– E então, já descobriste de onde é este moço?

Ela sorriu:

– É um sotaque estranho, mas ainda não sei.

E foi citando vários estados diferentes, sem acertar nenhum. Era hora dele mostrar a que veio:

– Vamos fazer assim: ele vai te declamar um repente e saberás de onde vem.

Não sei qual ficou mais surpreso com a idéia. A exclamação foi dele:

– Repente?

Não retrocedi. Já tinha visto ele cumprir muito verso de improviso.

– Sim, desembucha.

Colocou a mão no queixo, procurou algo com os olhos. Estalou os dedos animado e não perdeu mais tempo:

– Menina case comigo … E nunca passará fome … De dia você come uma coisa … de noite uma coisa te come …

De supetão, ela deu de ombros e saiu depressa. Nunca mais a vimos. Acho que nem o caminho do banheiro ousou fazer. Ele, ainda recitou algum Gregório de Matos ao longo da noite, para compensar a grande gafe. E eu, sigo aqui rindo até hoje, cada vez que conto essa história.


A propósito de Gregório de Matos, veja no site Memória Viva

Eduardo H. Sabbi e Ibbas Filho

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