Simplicíssimo

Pústula I – “Menos pão e mais circo”

 

 Esta é uma coluna feminina. Uma coluna mantida por uma mulher, e por isso mesmo diferente das outras “colunas femininas”, que por sua vez formam as tais “revistas femininas” que por sua vez (de) formam as "almas femininas”. Estas, que, por sua vez, na maioria das vezes, nada têm de feministas… Ou, pior, como ocorre no caso de algumas infelizes, que pensando ser "feministas", acreditam na esdrúxula deturpação do termo utilizado vulgarmente pelo senso-comum, que diz do feminismo um machismo ao contrário. Ou seja, demonstram uma ignorância igualmente risível em relação a um conceito filosófico, sociológico e político de extrema importância para todo ser humano, sobretudo para as mulheres.
   

Não pretendo com isso divinizar o feminino. Mesmo porque, isso seria recorrer a um erro conseqüente da postura explicitada e repudiada por mim anteriormente. Muito menos pretendo defender a idéia de que haja um feminino à priori. Tenho verdadeira ojeriza ao tal “eterno feminino”, tão explorado por Lyas Luft e Adélias Prado da vida. […] Isso me cheira a misticismo, justificação fácil, a cristianismo platônico e falácias, que poderiam então muito bem ser usados para justificar a dominação machista e burguesa nos mais diversos setores da nossa sociedade. É a carapaça da pseudo-intelectual que tem medo de ser mulher.
    

E como ser mulher se não há feminilidade? Clarice Lispector e Simone de Beauvoir são mulheres. Feminilidade nada tem a ver com frescura, mas é instrínseco à inteligência. Clarice e Beauvoir são mulheres porque escolheram assumir-se enquanto tal. A segunda, Simone, possui máxima interessantíssima, na qual diz: “Uma mulher não nasce mulher, torna-se mulher”. E tornar-se uma mulher passa longe das apologias ao fogão, à fêmea que passa a roupa do marido, que sonha fazer mil biscoitinhos para o seu senhor e principalmente que se cala diante de si e sua insatisfação. Portando o tal “eterno feminino”, é o estigma dessa “raça proscrita que possui seu valor pelo silêncio e a passividade”. Nada contra as mulheres que adoram fazer biscoitos, ou gostam do fogão, absolutamente. Eu mesma me arrisco de vez enquando. Desde que o façam por livre e espontânea vontade. Mas então o leitor irá dizer: Adélia Prado faz biscoitinhos por livre e espontânea vontade. Não, não faz. Não faz porque ainda não se libertou dos grilhões da tradição, do hábito, do “deve ser assim”.  Ela confunde o “sempre foi assim” com o “deve ser assim”. Arraigada na sua tradição de mineira do interior, Adélia, apesar de seus feitos enquanto "intelectual”,acredita, ou deve acreditar que isso é o belo, o divino da condição de ser mulher: nunca libertar-se.  Lya Luft dispensa comentários. […]  Uma católica machista, uma velha. Velha do espírito, das idéias. A idade cronológica não importa se o espírito se mantém renovado. Conservadora, de opiniões pobres, por (muitas) vezes infelizes. Textos chatíssimos. Prefiro Adélia com seus biscoitos e tachos a tal da Luft escrevendo. Ainda por cima na VEJA. Revista ruim, ainda pior com a gaúcha se metendo a escrever sobre política -acredite, POLÍTICA!- por exemplo.
   

E o pior é que é dessa literatura que as tais mulheres não-mulheres gostam.Essa literatura que não mexe nas amarras, que não diz a verdade sobre o que vivenciamos. Uma literatura cômoda. Assim elas não se libertam de verdade e ao mesmo tempo, conseguem a sensação de que são emancipadas, claro, mas que é essa a situação da mulher emancipada: ter orgulho das suas panelas. Portanto, mulheres, livremo-nos das revistas femininas, porque mais machistas que elas não há. Cuidado com as literaturas bonitas demais, “femininas” segundo a mídia mainstream… Cuidado com a VEJA, a Lya Luft, o Paulo Coelho e suas editoras. Elas querem que você leia lixo. Cuidado com a beleza platônica da maternidade, da cozinha, do status quo e establishment. Cuidado com as dietas milagrosas e com os programas que subestimam sua inteligência, porque acham que seus interesses são exclusivamente levantar peito, cozinhar galinha, trepar bem, ser uma mãe como Maria, ter um corpo de Madalena…, chorar na novela, vender-se por uma jóia ou carro novo, e tudo isso – creia! – ao mesmo tempo.

Porque o que nos fazem a nós, mulheres em gênero e alma, é dar-nos pão e circo. Aos homens é dado o mesmo, mas muitas nós jogamos o pão fora, com medo da engorda e da nossa conseqüente desgraça social. Temos de ser a Barbie quando somos pequenas, e a Gisele Bündchen quando mocinhas. Quando velhas, quem sabe, se sobrar alguma coisa, uma Lya Luft ou Vera Fischer (para as menos cultas) cairia bem. Não somos raça proscrita ou seres divinos. No fundo, quem possui essa argumentação diz a mesma coisa. Somos seres humanos capazes, igualmente capazes, apenas aprisionados pela História por nossa própria irresponsabilidade e conformismo. Pelo mito do "eterno feminino", pela ignorância do mito da inferioridade. Já passa da hora de fazermos a História. Tiram-nos o pão com a ideologia burra que deglutimos sem perceber, e como compensação, nos imputam mais circo, muito mais circo. Um circo em que as palhaças (leia-se também objetos sexuais) somos nós.  

Raquel A. Drummond

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