Simplicíssimo

Bem na foto

– Meu Deus do céu, olha só… nessa época eu ainda tinha ruga! Bons tempos, bons e velhos tempos que não voltam mais!

– E o cabelo branquinho, olha que fofura. Lembra algodão doce, bem nenenzinho mesmo. Se for comparar com esses tufos pretos que você tem agora, heim? Tá ladeira abaixo meu amigo, decadência física total.

– Mas o que é que a gente pode fazer? A idade é implacável, traz junto o que não dá pra evitar: musculatura definida, barriga de tanquinho, pressão 12×8, bunda durinha. Quem me dera se as varizes e a escoliose durassem a vida inteira.

– É, são dádivas da juventude. As delícias de ir pra cama com o ciático pinçando, aquela gordura abdominal empapuçada, chacoalhando de um lado pra outro e provocando fiu-fius, a charmosíssima catarata escancarada, dando na vista, bem sexy e oferecida… se tudo isso fosse eterno não teria graça.

– Acho que Deus faz as coisas certas, nos reserva essas glórias só por um tempo. E talvez passe tão rápido justamente pra gente dar valor ao que perdeu. Pálpebra caidinha, papada, bigode de chinês! Nossa, olha que monumento essa velhinha linda, a terceira aí na foto, da esquerda pra direita.

– Só de olhar já dá uma nostalgia, uma vontade louca de ter aproveitado mais, não é mesmo?

– Ai, ai, ai, trocaria sem pestanejar meu colesterol de 90 e minhas artérias desentupidas por esse Parkinson supercharmoso. Só o nome já dá um frisson na gente… Parkinson, ui!!!

– Ah, pra mim já estava bom se pudesse me transformar na bengala aí da foto, sendo o tempo todo manipulada por essas mãos trêmulas, secas e cheias de manchas…

– Acorda, meu bem. Foi-se o tempo. Não é mais pro nosso bico.

Esta é uma obra de ficção.

© Direitos Reservados

Marcelo Sguassabia

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