Simplicíssimo

DE CASA PRO TRABALHO, DO TRABALHO PRA CASA

– Nunca me esqueço. Eu devia ter uns quatro anos quando aquela brotoeja pipocou no seu avô. Apareceu assim, do nada, numas férias de verão lá em São Vicente. Ele não deu bola e a coisa foi piorando, piorando, virou outro negócio que quase fez o velho encontrar Nossa Senhora mais cedo.

 

– Nunca me esqueço. Eu devia ter uns quatro anos quando aquela brotoeja pipocou no seu avô. Apareceu assim, do nada, numas férias de verão lá em São Vicente. Ele não deu bola e a coisa foi piorando, piorando, virou outro negócio que quase fez o velho encontrar Nossa Senhora mais cedo.
– Sim, papai. O senhor sempre conta essa história.
– E vou continuar contando até vocês aprenderem que são demais os perigos desta vida, e que pra morrer basta estar vivo. Não precisa ir longe pra perceber que a gente está cercado de ameaças. Ontem, por exemplo, ao acender a luz do quarto percebi uma mancha amarela em uma das pás do ventilador de teto, próxima ao terceiro parafuso que prende o globinho com a lâmpada. Tratando-se ou não de um foco fúngico, de resquícios de pólen ou seja lá o que for, convém substituí-lo por outro, pra afastar de vez o risco de alergia. Concorda comigo, amor?
– Sim, querido. Vai que acontece alguma coisa.
–  Aproveitando a deixa, venho notando ultimamente que o peso da porta da área de serviço está mantendo-a aberta em ângulo maior que 25 graus, o que é um perigo para criar corrente de vento dentro de casa. Vento encanado pode causar resfriado, que é um passo pra gripe, que mal curada vira pneumonia, que de pneumonia evolui fácil para…
– Deixa comigo, amor. Por via das duvidas, providenciarei pra que fique sempre fechada.
– Melhor assim, melhor assim.
– Não vai tomar seu mingau com semente de linhaça? Acabei de fazer.
– Estou atrasado, não vai dar tempo. Dá pra Maria Luiza comer. Estou sentindo ela meio pra baixo. Algo me diz que é deficiência vitamínica, mas não afastaria a possibilidade de uma virose com comprometimento temporário da função hepática. Dai para um aumento incontrolável de glóbulos brancos não custa nada. Foi o que deu na Tia Josélia, lembra? Coitadinha, tá até hoje sem previsão de alta. Bom, o dever me chama. A essa hora já deve ter um montão de gente me esperando.
Reparte o meu cabelo, querida. Deixa eu dar uma umedecida que fica mais fácil. Isso, a risca tem que ficar alinhada com o nariz. Isso, assim tá bom. Ah, por falar em umedecer, lembro a todos que ninguém merece um foco de dengue dentro de casa. Portanto, tampas de privada, já sabem: sempre fechando o vaso sanitário.
– Mas pai, criadouro de Aedes só se forma em água parada.
– Sei, e a água que fica lá no vaso o que é? Falam na televisão pra tomar cuidado com água no vaso. Pra gente se garantir, tinha que deixar alguém apertando o botão de descarga  o tempo todo. O mesmo vale pra esses restinhos de água nos copos em cima da pia. Um perigo, um perigo!!
– Mas espera aí, assim também já é demais… usamos estes copos agorinha mesmo!!!
– Meu amor, o mosquito da dengue não quer saber se a água está parada há dois minutos ou há quinze dias. O negócio dele é água parada e pronto, azar o nosso. Bom, depois a gente continua a conversa. O patrão me chama e a plateia me espera. Tchau!

Respeitável público, com vocês o único, o fenomenal, o inimitável, o primeiro trapezista das Américas a executar  o quádruplo mortal sem rede de proteção! Rufem os tambores… diretamente de Anunciación de las Astúrias, o grande, o fantástico, o destemido… Lorenzo de las Cruces, mais conhecido como “A Hélice Humana”!


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Marcelo Pirajá Sguassábia é redator publicitário e colunista em diversas publicações impressas e eletrônicas.
Blogs:
www.consoantesreticentes.blogspot.com (contos e crônicas)
www.letraeme.blogspot.com (portfólio)
Email:
msguassabia@yahoo.com.br

 


 

Marcelo Sguassabia

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