Simplicíssimo

Feliz 84

QUERO FALAR DE UMA COISA

ADIVINHA ONDE ELA ANDA
Voltar ao nunca mais daqueles dias não estava no programa, mas aconteceu e foi bom, mesmo que nunca mais seja. Por obra e graça de um gatilho involuntário, o disparo acidental de um cheiro, uma cor, frase ou trecho de canção.

QUEM SONHOU, SÓ VALE SE JÁ SONHOU DEMAIS

VERTENTES DE MUITAS GERAÇÕES
João Amazonas vem aí, Abaixo a Ditadura. Teotônio Menestrel das Alagoas, MR8. Ontem mesmo o Plínio Marcos esteve no DA da faculdade, vendendo e autografando o livro mais recente. Chinelo de couro, bermuda, a camiseta curta deixando a barriga de fora. “Quatro anos sem Lennon, dois anos sem Elis – Tributo aos nossos ídolos”, anuncia um cartaz pregado num poste próximo ao prédio de Letras da PUC.

IT’S TIME TO SPREAD OUR WINGS AND FLY

DON’T LET ANOTHER DAY GO BY, MY LOVE
Não, nenhum dia há de nascer sem ser vivido avidamente. Ainda é cedo, cedo, cedo. Não me imagino escutando “A bênção, vô” nem respondendo “Deus te abençoe, durma bem”. Quero que guardem de mim essa cara de travesso ainda sem vincos, esse cabelo em desalinho e 100% castanho-escuro.

ELA É SÓ UMA MENINA, E EU PAGANDO PELOS ERROS

QUE EU NEM SEI SE COMETI
Tantos meninos e meninas que éramos, com aquela libido toda saindo pelo ladrão. Campinas ainda indecisa de virar metrópole, se espichando sem controle mas com o salto alto de uma quase-capital. O Convívio da 13 com mesinhas, garçons e famílias a passeio. Shopping era só um e não arranhava o glamour do centro a ostentar a Muricy, a Mesbla, a Sears.


DA JANELA LATERAL DO QUARTO DE DORMIR
Fiz um sanduíche com o que tinha e fui comer na janela do apartamento, olhando o povo em zigue-zague lá embaixo. São precisamente dez pras cinco no relógio Champion de plástico com pulseiras intercambiáveis, cada uma de uma cor. As migalhas caindo devagarinho. Melhor assim, um prato a menos pra lavar. Além do mais o detergente está no berro. Deito e retomo o “Feliz Ano Velho”, página 96.

NÃO ADIANTA FUGIR, NEM MENTIR PRA SI MESMO

AGORA HÁ TANTA VIDA LÁ FORA, AQUI DENTO
Às vezes, a vontade de sair num fim de tarde. Tomava um banho e ia, caminhando entre as palmeiras imperiais em frente à Praça Carlos Gomes. Um hippie de chapéu de feltro escuro e lugar cativo ali na feira de artesanato, o velho Paulinho Bom-Ar, com seus broches, brincos e colares esticados na flanela, gastava a vida torcendo ferrinhos com alicate bico fino. A originalidade daquela figura era a peça mais rara do mostruário. Era o busto em carne e osso lá da praça.


QUEM ME LEVARÁ SOU EU, QUEM REGRESSARÁ SOU EU
Que papo estranho o daquele taxista, puxando conversa comigo enquanto me levava do Largo do Rosário pra rodoviária.

– Diz que daqui a uns dois anos vem um tal cometa de Halley. Tá falando aí no jornal de hoje, tem uma matéria boa, se quiser dar uma olhada…

VAI PASSAR, NESTA AVENIDA UM SAMBA POPULAR
Mas não passaram as Diretas no Congresso. Calma, gente. O João Batista jurou fazer desse país uma democracia, só não disse quando. A noite vem e agora são dois Chicos. O Buarque na vitrola e o Anysio na telinha.

CHOVE LÁ FORA E AQUI FAZ TANTO FRIIO, ME DÁ VONTADE DE SABER

AONDE ESTÁ VOCÊ
Tem meia maçã na geladeira. Nem lembrava mais dela, escondida atrás do leite longa vida. Abro a veneziana e espio a cidade acesa. De costas pra televisão, ouço o apresentador do Jornal da Globo chamar o Paulo Francis, de Nova York. Sem me dar conta de que aquilo que passava, na TV e na janela, um dia seria história. A do mundo e a minha.


Marcelo Sguassabia

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