46 músculos

 Parece incrível que, onde eu vejo equilíbrio, os outros vejam o contrário. Nunca foi uma questão opinativa. É como se, simplesmente, eu tivesse um extra sentido, um dispositivo a mais – ou a menos, insistem alguns – que me permite saborear ao máximo a estabilidade e o comportamento civilizado nas pessoas.

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O carrapato de Süskind

O carrapato de Süskind

 

 

Em nosso cenário não há árvores. Não há pássaros. Não há sequer alguma diferenciação entre o abstrato e o concreto. Não há poesia, tampouco contos ou contistas. Somente o que há é uma imensidão do negro, uma vasta eternidade sem começo ou fim que poderia ser nominada como a harmonia sublime, não fosse exatamente o oposto desta. Mas há mais. No centro deste mar preto, posto neste reino destronado, sobre esta massa solenemente morta, há um ínfimo carrapato.

 

Imagem do site CriptoAgronomia  Não se faria necessário, para o entendimento desta tal história, uma explicação etiológica de nosso personagem parasita, seja ele herói ou vilão. Entretanto, aliada a uma vaidade literária (a qual meu querido amigo WK expôs como prova de simplicidade e fraqueza, como se ela não estivesse presente na alma de grandes mestres da literatura universal), impõe-se sobre minha trama, mal cruzada, uma necessidade incontrolável de mostrar brevemente como um filho de uma mesma natureza que a nossa pode vir a possuir formas tão distintas de morbidez, de podridão, de feiúra. O que é certo é que merece tais soturnos elogios: é da espécie do temido Boophilus Microplus, trazida cá pra nossas ocas pelos conquistadores ibéricos e suas zebuínas experimentações.

 

 

A questão que já se perde em meus pensamentos é que o tal carrapato, rebento escorrido da garganta nojenta do inferno, estava da única forma que sua fatalidade genética lho permitia: à espera do nada, mirando nada senão o nada. Estava assim pois é assim que ficam os carrapatos: alheios. Claro, somente até o momento em que o destino lhos empresta a benção da aparição de um sangue vermelho, de uma vida condenada que doe seu sofrimento ao ser estúpido, que não transpira senão para comer o que não plantou. Do contrário, o faz sendo plantado. Passa o animal e em sua superfície sã atira-se o tosco, cravando com voracidade sua bestialidade instintiva.

 

 

Esta imagem acima pincelada, prezado WK, é minha imagem do que é concreto. Tudo que não é mais do que matéria, mal-cheirosa e pesada. O denso. Do outro lado da força (palavra que está na moda) mora o leve, o tal passarinho que tu entoaste, o abstrato. Entre eles, carrapato e passarinho, não há nada mais que tudo: o mundo. E é neste ponto que perdeste, pela primeira vez, tua coerência (a qual tanto elogiei em meu primeiro texto). Porque tentaste analisar-me com tua matemática calculista, me outorgando a tentativa de dividir o abstrato e o concreto como se fossem adjetivos simplórios, óbvios, classificáveis. Não. Tudo que faço é encontrar os limites que meu universo (que já classificaste como limitado) me permite. Tudo que faço é equilibrar-me sobre a grande veia do mundo, achando pontos onde possa basear meus passos, conciliar destino e livre arbítrio em harmonia e consciência. E, se há um mundo entre o concreto carrapato e o abstrato passarinho, há também milhões de nuanças donde todo o conjunto de manifestações e sensações, a que chamamos de vida, se abriga.

 

 

Tua visão-calculadora, porém, que tanto se mostra exposta em tua face que nunca vi (tudo que fazemos é especular, não?), funciona, sim, em tua visão sobre a literatura. "Escrever e deixar o homem livre para interpretações é tarefa para qualquer um", sim, aí sim mostra tua face arlequim distraído, deixando tua face acrobata para o conto orgasmático com que salvaste tua coluna. Porque, contornando palavras para construir o sábio personagem do vilão, diminuindo-se para surpreender, retirando-se para ousar, fazendo-se estátua para ganhar vida, beiraste a vil secura do malvado que, por medo de perder a elegância e a postura, nunca tira seus planos magistrais de dominação de dentro do seu quartel-general secreto.

 

"Chego a meu centro, à minha álgebra, ao meu espelho. Em breve, saberei quem sou." JLBorges

 

 Mas dizem, os injustiçados leigos, que as rugas que aparecem em nossa própria pele notamos com mais acidez. Talvez por isto critique esta parte malévola (como insiste em parecer) de nós, mim mesmo que está em ti, com tamanha voracidade. Porque somos um e nenhum. Somos dois e nada.

 

 

Mas o mundo não é feito de perfumes, como nos faz acreditar Grenouille (de Süskind), e sim de pensamentos. E, se meu olfato toscano lhe percebe erroneamente como um fruto do difusionismo da rebeldia intelectual, talvez tuas fórmulas ortogonais também estejam a avaliar de forma estática e leviana minhas intenções literárias. Ah, mas o poeta Gabo é uma dessas pessoas comuns, sim, como insiste. Bem diferente daquele outro poeta Gabo que colocaste como pseudo-profeta da ira de Deus. A distância que separa Gabo de Bebo, Bebo de Gabo, é que estou aqui por um fascínio apaixonado pelas relações que nossa massa pesada tem com uma consciência superior que rege nossa tão impetuosa criatividade. Tu estás aqui para mais, em tuas próprias palavras: "Não nasci para morrer como vocês, nasci para contestar a veracidade do infinito". Não serias, tu mesmo, a voz da ira de Deus?

 

 

Entre a dureza do carrapato e a magia do passarinho, fico eu: aprendiz. Preferindo admirar a leveza do concreto e buscando-a até onde meus braços mentais a alcançam. Além dali, nada sou. Por que adorar o carrapato? Por que WK?

 

 

O animal expurga sua dor em lamúrias. Tenta se livrar do tosco, do inútil, tenta, tenta e tenta. Mas é impotente. Do outro lado do mar da escuridão, se aproxima um outro de sua espécie. Identifica a aflição do chorão e usa os dentes para arrancar o parasita da pele em sangue. Logo a cura virá. O carrapato, mais uma vez expurgado da sua vida, mais uma vez joguete de outrem, cai sem manifestar nada, sem desejar nada, sem viver. É um carrapato.

 

 

"Quando o ousaram, primeiro furtivamente e depois abertamente, foram obrigados a sorrir. Estavam extraordinariamente orgulhosos. Pela primeira vez, haviam feito algo por amor." Süskind

 

Eco do último círculo da Terra

Rebento das trevas, correu com o braço manco como era manco seu pensamento. Com a pele mordiscada pela miséria, poço fedorento de álcool, torceu o olho manco em direção ao manco tempo antes de precipitar-se ao chão, fazendo do sangue chão e do chão textura óssea, cortando em verbo seco sua dor agonizante. Passasse um ou outro seria chutado. Mas só lhe chutava, das entranhas, a agonia da última noite, da última das últimas noites, querendo bufar em vômito. Escorou a mão boa na pedra gelada e o olho saltou a capturar quem vinha. E vinha freira preta e branca, ícone do falso, que, como todo dominó equilibrado no falso, vem a quedar ao passar do tempo. Apareceu-lhe como que para salvá-lo. A boca em catequese chamou-lhe ao perdão. ¿O que tens, filho?, perguntou a endeusada. Sem ter consciência do pus de inferno que era, sem ter na vista o véu do crepúsculo matutino que sempre há, levantou a cabeça e traduziu à mulher, em uma única fala manca, a melancolia que lhe doía no corpo: ¿Me ajuda, moça. Acho que me arrancaram o coração¿.

Vale-Tudo – Round 2

"E como uma pétala de ar, ele caiu no sono… ainda não acordou." Bernardo WK

Começo com o nosso amigo WK para acabar com ele. Ao menos assim o deveria. Mas como? Como fazê-lo se o excesso de zelo do nosso amigo não propôs nada senão a si próprio? Talvez eu não concorde com este vale-tudo, assim como parece não concordar o próprio Bernardo. E quem é o Bernardo? Pouco sei dele e também não muito descobri sobre mim. Mas, como cá estamos para embalar estes novos passos do Simplicíssimo, ouso brigar sem inimigo ou pacificar-me com o que cá do meu lado já está.

Não sei, por isso começo. Por isso recomeço, como Haroldo, o de Campos.

Espero, apenas, que o meu fogo cuspido (e que aliás seria jorrado se viesse a apagar outro fogo, mas não, nada encontrei além de madeira seca, graveto inútil e sem inspiração, secura abstrata de nosso outro agente dialético) traga consigo a raiva criadora, a faísca cilhadora de nossos ventres poéticos, contísticos; que traga consigo o broto da dialética erística para que encantoemos os versos da grande discussão literária, sob o mormaço de nosso limitado pensamento (nossa confessa, e conjunta, ingnorância).

Mas qual inimigo é este? Qual contista poderia ser inimigo meu, que também o sou? E qual raiva poderia sentir eu, escalado poeta, por tal irmão de calvário, sendo que a dor de não sentir o abstrato é tão mortal e pútrida quanto a dor que sinto eu: a de ter o mundo como um grande véu de sombra e aroma em meus sentidos?

Faço da erística, arma, pois passa por meu porto um Schopenhauer inspirado. Como uma aroeira-do-campo, rasteira, engenhosa, dropo da cátedra humilhada por Zarathustra para engatar-me em lutas semânticas, vale-nada, poema insulso da tragédia do egocentrismo.

E penso, repenso, ainda mais uma vez o faço. Depois cago na sociedade de WK, obedecendo-lhe a idéia. Há há há, dirá o sarcástico, mas bem sei que esta mesma sociedade que nos faz solitários invejáveis, é a mesma que rouba-nos o mar da poesia, tendo toda sua polícia a postos. Então por quê? Por que te incluir na gangue de arma e calculadora?

Faz sentido não perder o sentido? Oxalá que sim. Afinal, existe um meio que não divide: o meio-termo. Mas tens coerência, amigo, o meio-termo não existe em calculadoras e mundos do faz-de-não-fazer-de-conta. Tens coerência, porque volta a esbarrar-te na forma dura e seca da pedra que apresenta o abismo, quando toda felicidade está a pairar no vento que vence seus limites. Voar, sim. Por que não?

Ok, ok, esconjurado o jovem que carrega a bigorna do amor sobre a racionalidade. Esconjurado eu. Mas diga-me então, calorífugo WK, a vida vale a pena sendo a alma tão pequenamente ensombreada pelo concreto? Deixe-me pensar que não ou convença-nos do contrário. Não é para isso que estamos aqui?

Termino pensando que as máquinas venceram. Cessou o barulho. O grande homem das letras que amava o exato foi substituído por milhões de combinações de zeros e uns. O pequeno homem que contemplava o abstrato foi conduzido ao céu e, agora lá, fantasia com seu antigo mundo humano de amores impossíveis e sabores de hortelã.

Somos ambos apóstolos de um grande criador. Como não seríamos criadores? Satisfaçamo-nos como companheiros desta jornada malbendita, condenados ao extremo de pensar que ainda pensamos.

Grande abraço.

Como prometi, acabo com WK: "Censurar é ter vergonha do outro".