Simplicíssimo

Música Clássica, Inclusive.

Reparou como de repente todo mundo vira intelectual?

Não lembro porquê diabos eu estava falando sobre o Ney Matogrosso e acabei passando de raspão no Chico Buarque e não sei o que aconteceu no meio do caminho que alguém começou a falar de uma tal de “música clássica”.

— Ah, eu curto música clássica pra caralho! — disse o fã da Som Livre.

— Ah, eu também — disse o fã de coisa nenhuma, pra não ficar de fora dessa esbajação cultural.

Veja só! Eu no meio de tanta gente culta e nem sabia!

Não estou querendo discutir gosto musical, até porque eu sou eclético. E gosto de musica clássica, inclusive, como dizem os fãs de metal melódico. Mas não há nada errado nisso, até a TVE tem um programa de “música clássica contemporânea”. Pois olha, eu estudei um pouco de música e tem muita coisa na, vamos agora empregar o termo correto, “música erudita” que simplesmente não desce. Mas daí os caras usam o seu “gosto eclético” como alvará, como… carta na manga, como se gostar desse tipo de música fosse salvar alguém do fogo do inferno. Tentam passar a imagem de bom moço. Como se os compositores eruditos fossem exemplos de gente decente.

— Olha, seu delegado, eu tenho esse jeitão aí, mas eu sou gente boa, saca… e gosto de música clássica. Inclusive.

Ta entendendo onde quero chegar?

— Pô, véio, mas a 9ª do Beethoven, cara, pô, tesão, bicho.

È mesmo, é? Ouve o terceiro movimento sem vomitar.

E essa coisa de ser underground tá tão na moda. Deve ser por isso que, de um ano e meio pra cá, alguns fãs de punk e alguns fãs de rap que eu conheço, mudaram seu jeito de se vestir. Andam se vestindo que nem putas e reclamam quando são chamados de emo.

— Ô, chefia, eu comi a sua filha, mas não foi por mal, não. Eu tô desempregado, mas eu curto música clássica, inclusive. Eu li “Nit” uma vez, até Dan Brown eu leio, velho!

Tá aí. Tá pronta a cagada. Todo mundo descobriu tudo sobre a anti-matéria, os templários, a monalisa, a torre Eiffel, a Xuxa, os trapalhões, o palhaço bozo.

E tem um cara que ouve uma banda de black metal da Ucrânia, que usa elementros folclóricos da região em suas músicas, que é o bicho. Tá. Música regionalista brasileira não presta. Folclore ucraniano também não, a não ser que esteja num contexto distorcido e com pedal duplo. Entendeu? Sem falar nas bandas melódcas, inclusive, que sempre colocam um pedacito de alguma composição de algum compositor… clássico. E todo mundo sabe daonde veio aquilo, mas ninguém se interessa em procurar mais. E tá certo, se os caras escolheram tal música, é porque ela é a melhor mesmo, o resto da obra é um saco. Ninguém tá interessado em saber, por exemplo, que os filmes sobre o Paganini humilham qualquer clipe com catchup do Cradle of Filth.

A gente não ouve, numa roda de compositores, músicos de verdade, coisas do tipo “eu gosto de rock, inclusive”. Ta certo, música erudita não é pra qualquer ouvido. Mas não façamos disso uma qualidade invejável e superior. E cada um que ouça o que quiser e como quiser. Eu também ouço vários tipos de música. E gosto de pop rock, inclusive.

Rodrigo D.

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