Simplicíssimo

Quanto Pior, Melhor – Parte I

Primeiro veio a dor de cabeça. Depois, tentei acordar, mas era como se houvesse uma pedra grande e pesada em cima de cada pálpebra. Lembrei que tinha um corpo depois do meu pescoço e senti frio. Vi uma cabeleira loira entre as minhas pernas. Senti dor. Tentei empurra-la pra longe, mas ela insistia, ela realmente estava gostando daquilo. Não eu, eu sentia como se meu pau estivesse dentro de um liquidificador, era o pior boquete que eu já havia recebido de uma bêbada nos últimos anos. Tive que empurrar sua cabeça com força e só na terceira tentativa consegui me livrar daquela boca de ouriço.

“Você ainda vai precisar de mim, seu estúpido!”
“Só no dia em que você estiver banguela, querida.”

Não conseguia me lembrar o que exatamente havia acontecido. Estaria eu bêbado ou drogado? Então vi aquela mulher jogada no sofá com uma perna no chão e a outra esticada pra cima. Pode parecer estranho, mas ela ficava mais gostosa ainda com a calça jeans mijada. Então me lembrei de um toco de maconha saindo da sua boceta no começo da noite. Baseado com cheiro de boceta, dizem que são os melhores.

Eu estava de novo atravessando a pista de dança do OverMoon, tropeçando em garrafas e tentando chegar até a saída dos fundos. Eu não gostava do lugar mas sempre acabava indo parar lá de alguma maneira e sempre havia algo pra fazer, desde recolher o lixo até servir de roadie para as bandas. O problema é que as bandas grandes possuíam seus próprios roadies e as pequenas não queriam gastar, então os próprios músicos carregavam suas coisas. E quanto ao lixo, eu não podia competir com os catadores de latinhas profissionais, nem fazia a menor questão disso.

O OverMoon era uma boate de gente rica, ou que se acha rica. O dono gostava de rock, mas sabia que não ia ganhar dinheiro com rockeiros, então tocava o barco com música eletrônica mesmo, mas, umas cinco vezes por ano, promovia algum evento de rock e vinham motoqueiros gordos com suas motos customs e seus triciclos cheios de caveiras. O lugar enchia de menininhas “góticas” e virgens e garotos bobos que achavam o máximo da rebeldia e da masculinidade ter cabelo comprido e encher a cara de álcool. Era engraçado olhar pra essa gente e saber que dentro, no máximo sete anos eles iriam abandonar os braceletes de spikes, a maquiagem, as correntes, iriam trabalhar, ouvir música de verdade e ser gente de verdade, só que com uns quatro anos de atraso. Quem passa dos vinte e continua com esse estilo de vida, tem sérios problemas. Quando tinha show de rock no OverMoon, era legal.

Lá fora garoava e já havia alguns playboyzinhos desmaiados na calçada ao lado de seu próprio vômito. Eu não tinha dinheiro nem emprego, mas esse tipo de coisa eu não fazia. Me desviei das pessoas e consegui ir embora sozinho. Gosto de observar os apartamentos e imaginar o que as pessoas estão fazendo. Três, quatro, cinco da manhã, sempre vai haver uma luz acessa em algum apartamento, com suas cortinas bordôs semi-cerradas. Eles estão la, os meus inimigos, os caras que faltavam aula e depois copiavam as repostas da minhas prova, os caras que fumavam escondido no banheiro do ginásio e esvaziavam o pneu do carro do diretor, os caras que tratavam as meninas como lixo, as minhas meninas, para as quais eu escrevia poemas, as meninas que eu amava, estão com agora eles, com os caras que eram maus e agora ocupam cargos executivos e têm um carro grande, uma televisão grande, um cachorro grande. Esse caras estão com as minhas garotas! As garotas que eu desejava e as garotas que eu perdi. Por ter sido um bom garoto? Não sei, mas, se as coisas continuassem desse jeito, em treze anos eu estaria vendendo droga para seus filhinhos.

O lugar onde eu morava era interessante, uma espécie de porão ou garagem, no andar debaixo de um sobrado amarelo. Era o tipo de lugar em que um cidadão pode passar de carro pela frente durante vinte anos e não ver , mas, um dia ele está andando a pé e precisa parar para amarrar os sapatos e então se dá conta daquela construção horrível, pichada e furada.

Eu gostava do lugar. Não era nem muito quieto nem muito barulhento. Havia apenas um cômodo, além da cozinha e do banheiro. Eu podia comer, dormir, ver TV, enfim, tudo num cômodo só, não existiam paredes para atrapalhar minha visão. O OverMoon ficava á três quarteirões dali, três grandes quarteirões, e era possível ver as pessoas indo e voltando de ĺa. Eu gostava de ficar em casa, sozinho. Gostava da sensação de abandono, gostava de saber que todos estavam indo se divertir, encher a cara, passar mal enquanto eu estava ali, assistindo TV. Era bom saber que eu não importava pra ninguém, que eu poderia morrer de repente que não teria ninguém chorando, ninguém brigando pelos meus bens, nada, nem funerária nem caixão. E isso me dava uma tranqüilidade enorme.

De certa forma, eu fugi, me escondi, me isolei do resto do mundo que eu eu conhecia até então, e estava gostando disso. Um homem nessa situação descobre que realmente não precisa de um carro quando não tem ninguém pra exibi-lo. Eu aprendi a viver com pouco e era assim que estava vivendo. Eu não tinha prestações, nem vícios, nem ambições. Não precisava dar satisfação a ninguém, não me sentia mal se o cara mais idiota do grupo tinha um carro do ano e eu não, porque todos do nosso grupo era fodidos, todos pareciam ter um passado a esconder. Nada de encontrar um colega de escola na fila do banco ou do mercado e falar de como vão os negócios, o casamento e os filhos. Nós não tínhamos nada disso, somente a nossa a vida a ser vivida. Não precisávamos dar um carro de presente para nossas mães, nem seríamos motivo de vergonha para a família e os vizinhos caso não conseguíssemos dar o presente pra velha. Quando um de nós tinha carro, dava carona para os outros, e não cobrava pela gasolina, embora no final todos acabassem ajudando de alguma forma. Quando vendia o carro para pagar uma dívida ou por outro motivo, todos saíamos a pé até que alguém arranjasse uma nova lata velha, que viria a dar problemas e mais problemas, e nos deixaria na mão, no meio da estrada, o que era, de certa maneira, divertido. E assim vivíamos, com nossos passados enterrados, sem rivalidade, sem imposto de renda e sem férias na Europa.

Sempre aparecia algum maluco na minha casa com alguma proposta ruim pra me fazer. Se não alguém tentando me vender algum produto roubado que eu não precisava, era outro pedindo o lugar emprestado pra fumar crack, ou querendo montar uma banda. Só que eles não tinham aparelhagem nem lugar pra ensaio e pedra era sujo e eu queria manter distancia daquilo. Houve uma época em que eu usava de tudo, só pra ter o gosto de chegar ao fundo e poder voltar, mas eu sabia que com pedra a história seria diferente.

O velho dono do lugar era boa pessoa, seu pai ou avô havia lutado em não sei qual guerra ou revolta do Rio Grande do Sul e ele sempre tinha boas histórias sobre os pampas pra contar. Ele acendia um cigarro de palha pra mim, outro pra ele e então começa a falar. Eu não prestava muita atenção na conversa, só concordava com ele de vez em quando. Uma vez arrumei seu rádio, outra, o computador do seu neto, e assim, ganhei a confiança de todos da família. Ás vezes, me convidavam para a janta. Sua filha era boa cozinheira, o diabo é que nessas situações a gente é obrigado a conversar e, na grande maioria das vezes, sobre assuntos que não me agradam, assuntos de gente grande, bem resolvida, que ainda não percebeu e nunca vai perceber a miséria de suas vidinhas. Bom pra eles.

Eu tinha tudo planejado para a minha vida. Sempre tirava boas notas, nunca tive problemas com a polícia e assim por diante. Depois da faculdade, eu iria conseguir um bom emprego e, quem, sabe, me casaria e coisa e tal. Mas algo saiu terrivelmente errado pelo caminho. Sobrenome? Esqueci. Diploma? Escondi.

Então esse meu amigo chega e estaciona na caçada.

“Ei, tenho uma boa pra você!”

Vender droga? Uma banda sem instrumentos? Uma pescaria em um lugar longe e perigoso? Ajudar alguém a fugir da cadeia? Qual seria a boa dessa vez?
 

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Rodrigo D.

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