Simplicíssimo

A Gênese do Caos

O que diabos são convenções sociais?

Convenção é aquilo que está admitido e praticado sem maiores questionamentos, sem muita complexidade, trata-se de um acordo, um ajuste. É porque é. Sociais porque são, geralmente, inerentes à sociedade. É uma convenção social chamar o sol de sol. Ninguém discute porque chamamos o sol de sol. Não há nada no sol que nos leve a crer que ele devia se chamar sol. O sol poderia se chamar bicicleta. Mas esta idéia é absurda. Porque o sol é o sol. É ridículo perguntar porque cargas d’água o sol se chama sol. Nos ensinaram assim. Convencionou-se dessa maneira. O porque do porque do porque é, invariavelmente, enigmático.

Qual o objetivo desta coluna então? Convenções sociais são apenas convenções sociais. Não há nada de especial nisto. Fazer elucubrações esquizofrênicas acerca deste tema é, de todo, vazio. Vazio? Esquizofrênico? Tema?

Em geral, eu odeio regras. Regra dá a idéia de limitação, pudor, modelo, padrão. Eu odeio ficar limitado. Odeio o pudor. Até a palavra é feia. Não, não me chamaria de inconseqüente. Sou certo até demais. Politicamente correto? Talvez. Brigo com meu bom senso constantemente. É preciso fazer isto. Niilista. Sim. Niilista e idiossincrático. O niilismo é maravilhoso (não o niilismo burguês, ou o niilismo travestido de cristianismo, mas o verdadeiro niilismo, ou o lato-niilismo como o formulei, filosofia que poderei explanar melhor neste espaço se o mesmo não morrer de inanição até lá). Embora eu não tenha nenhum antecedente russo, a idéia de pregar a destruição da ordem social estabelecida sem se preocupar em substitui-la por outra é fantástica. Simplesmente fantástica. Deveria ser ensinada nas escolas desde cedo. A anarquia, como precursora do niilismo, é válida. Sozinha, é um desastre.

Quebrar com as convenções sociais estabelecidas é preciso. Destruir é preciso. Criar é importante. Mas destruir é fundamental. Não estou incitando ninguém a sair por aí chamando o sol de bicicleta. Não se trata disso. Sabe a trivialidade? O lugar comum? A rotina? A imposição? O senso de bonito ou correto? Pois é. “Convenções Sociais” visa destruir com tudo isto. Ela não tem forma fixa. Assuntos restritos. Pudor desnecessário. Apego demasiado a regras. Pode se manifestar do jeito que quiser. Pode ser curta ou imensa. O importante é que eu consiga fazê-lo pensar como nunca dantes havia pensado (pretensioso o rapaz? Imagina…). Confrontá-lo com uma realidade que você não esteja acostumado. Que mexa com suas emoções. Que lhe faça reagir. Que lhe ofenda. Para o bem ou para o mal, se eu conseguir te ofender, estarei plenamente satisfeito. Terei alcançado meu objetivo. Isto é importante, o resto é o resto.

Temos muito a tratar, ah sim, há muito para ser dito. Todavia, não faço a mínima idéia do que estou começando. Isto aqui pode ser apenas um pastiche de presunção, pseudo-filosofias, aniquilamento inócuo, intelectualismo besta, inutilidade pública. Preocupação, significado, moral, juízo. Todos são conceitos absurdamente relativos. E os trato (quando os trato) de forma brutalmente idiossincrática. Em grande parte, configuram-se apenas como desperdício de energia vital. Distrações nocivas. Ortodoxia pura. Ninguém precisa de tradicionalismo para viver. Ninguém precisa de “bons costumes” para ter uma existência sadia. “Bons costumes” não existem. “Bons costumes” são fabricados. Os “bons costumes” recomendados são apenas os que estão vigentes agora. O que vigora hoje pode não vigorar daqui a um tempo. Porque temos que achar que nossa moral atual é melhor que a do passado ou mais apropriada que a do futuro? Porque é vendida a idéia de que estamos certos? Esqueça isso, esqueça tudo. Comece de novo. Dê um dedo bem grande para a cara do papai establishment.

Nunca seremos hermeticamente fechados. Se assim fossemos, tudo aquilo de que nos orgulhamos estaria paralisado. Quiçá chegaríamos ao estágio atual. Justamente por isso, não devemos fidelidade a nada, exceto a nós. Se adequar ao sistema não é a melhor maneira de influenciá-lo. Pois, como disse Hermann Hesse: “Não sei se, algum dia, o mundo melhorou nem se foi sempre e permanecerá sempre como é – meio bom e meio mal… Uma coisa, entretanto, eu sei: se alguma vez o mundo foi melhorado por homens, se por influência de algum ser humano se tornou mais rico, mais alegre, mais digno de nele se viver, mais feliz, mais arriscado, mais divertido, não ocorreu isto por força de algum “melhorador”, e sim por influência daqueles verdadeiros “egoístas” que não alimentam nenhum propósito de melhorar coisa alguma, e não têm nenhum objetivo, contentando-se apenas com viver sua vida e ser, no fundo, eles mesmos.”

Grande parte de nossos problemas se originam da negação da personalidade. Temos vergonha de sermos nós mesmos. Negamos o que somos. E negamos, na maioria das vezes, pelas convenções. Nos sacrificamos pela ordem. Tacitamente, estamos mais comprometidos com a sociedade do que com nossa essência. Temos dificuldade, e receio, de admitir limitações, desvios, instintos, anseios, opiniões, repulsa, ódio e o quer que seja. Sufocamos tudo aquilo que se desvia dos padrões comuns de “bom e mau”, “certo e errado”, “apropriado e não apropriado”. Sustentamos uma cultura covarde e medíocre, incapaz de aceitar a si mesma em toda sua completude. E, ao compactuarmos com ela, promovemos uma verdadeira castração do espírito. O que nos leva à busca essencial desta coluna: a dissolução de todo mecanismo cerceativo de nossas potencialidades. Um processo gradual, de micro para macro. Que se desenvolverá naturalmente, sem maiores pretensões. Claro, recheado de todos os paradoxos, contradições e tortuosidades que nos são inerentes. Deixando tudo muito mais interessante e divertido.

Então tá. Para uma prosa inicial, isto é tudo. Estaremos aqui num futuro breve. Se quer continuar sua jornada de desconstrução, dê uma passadinha por este espaço novamente.. Você que sabe. Se preferir permanecer no aconchego desse mundinho trivial, é a sua escolha. É sempre a sua escolha. Não percebe o poder que tem? Deveria.

Maurício Angelo

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