Simplicíssimo

Aflições

Esta será uma coluna inteiramente atípica. E não o falo apenas para chamar atenção. Trata-se duma humilde e necessária prestação de contas. Nada mais.

Explico: depois de um longo tempo de agonia, meu combalido computador conheceu seu fim. Morreu, simplesmente. De velhice. Diz-se que todas as coisas tem sua “vida útil”. Pois bem. A dele se extinguiu. Respeitemos o luto. Que descanse em paz.

 

Mas o importante é que, derivado disso, não escrevo. Produzir a próprio punho é uma tarefa abjeta, impensável, ultrajante, dolorosa. Minha produção feneceu terrivelmente. Há artigos, emails, crônicas, resenhas, entrevistas, colunas, etecetera, etc, empilhadas em atraso, implorando pela libertação. Pior. Pior do que assumir o caráter do irresponsável, do perfeito canalha, são as inúmeras idéias que se perdem nesta brincadeira de mau gosto da entressafra do capital. Fragmentos que, possivelmente, originariam artigos interessantes e contribuiriam para um sem fim de coisas produtivas (a menos para a estabilidade do meu microcosmo).

 

E nosso sumo-sacerdote, Rafael Reineer, anunciou, entusiasticamente, semanas e semanas atrás, o nascimento deste espaço. A presença constante dum certo jovem que ele tomou como intrépido e indecorosamente talentoso (ou  coisa do gênero). Que vergonha. Eis-me aqui.

 

Sou um escriba do século XXI. E isto implica inúmeras questões. Não sei desde quando fiquei tão dependente da tecnologia. Na verdade, isso é menos apocalíptico do que parece. Sou tão dependente do teclado quanto os antigos da pena e da tinta. Se retiram meu instrumento de trabalho, entro em pane. Não é só a idéia da regressão que me incomoda na caneta. É a lentidão, a fixibilidade, a rasura, a claustrofobia. Como já funciono num dado ritmo, e se, mesmo no pc, é difícil acompanhar, imagine no papel. Ao pensar nos escritores do passado, um calafrio me assalta a espinha. Quanta determinação, paciência, cuidado! Vejam os manuscritos de Machado de Assis. Medonhos.

 

É inconcebível para o homem atual que obras, como as de Hume, por exemplo, tenham conseguido se organizar no caos de folhas e borrões. Como não consigo acompanhar o fluxo de idéias que me apresentam, acabo perdendo a grande maioria delas.

Vivo na véspera, tentando recuperar os lapsos do dia passado. E assim se vão as horas, comigo a perseguir a essência do vazio. Pois que, de repente, estou lendo Nelson Rodrigues, tomando café e em simbiose com um ser amado. Neste meio tempo, rascunhei mais três coisas que originarão novos textos. Para não falar nos sei-lá-quantos estilhaços anotados neste período sem o Bill Gates.

 

Não me acusem de auto-comiseração. Pelo contrário. Ninguém se indigna mais do que eu com tanta esterilidade. A angústia intelectual que sinto não é menor que a necessidade de extravasá-la. De fato, tomo consciência de minha imensa covardia por não sair pela cidade, agora, gritando com a baba a escorrer pelo canto dos lábios: “o óbvio morreu!”, “o óbvio morreu!”.

Maurício Angelo

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