Simplicíssimo

Medo

04 de outubro. Aproximadamente 08:15 da manhã. Após uma conversa sobre diversos assuntos, o professor de Jornalismo Impresso dá uma tarefa simples, e diria até inusitada: produzir um texto autoral sobre as eleições 2006. Diabos! Poucas vezes temos a chance, em certas disciplinas do curso, de produzir algo livre e necessariamente opinativo. Somos treinados para fazer o contrário. Farejar, apurar, verificar, executar. Terminar a luta no segundo round. Afim de entregar o exercício ao término da aula, comecei a rascunhar:

“Nível de abstenções e votos brancos/nulos mantido, múmias eleitas, corruptos reeleitos, apuração rápida, Aécio Neves (PSDB-MG) e Paulo Hartung (PMDB-ES) campeões de votos com 77% cada. Poucas surpresas. Quase nada de novo. PSDB e PFL aumentaram suas bancadas no Senado. Emoção mesmo no previsível segundo turno da eleição presidencial.
Lula pagou por sua arrogância e pela incompetência de seu partido. Incrível como o PT é alvo de fácil armadilhas, tramóias e trapalhadas, como o “escândalo” do dossiê. Contentou-se com o Nordeste e foi massacrado no estado de São Paulo: 4 milhões de votos a menos que Alckmim”.

Parei. Aquilo não estava me cheirando bem. Não parecia um texto autoral. Muitas informações, muitos dados, muito factual, pouco opinativo. O cursor piscava na tela. Não saia nada. Naquele momento, eu era incapaz de ser pessoal. Minha personalidade estava parcialmente congelada. Nada de razoável me vinha à cabeça. Tive medo.

Falta de tempo é algo horroroso. Falta de tempo para escrever é algo pior ainda. São muitos os casos, e vários os exemplos brilhantes, de autores que eram jornalistas e escritores ao mesmo tempo. Hemingway e García Márquez são dois de meus preferidos. Não é difícil que as duas funções se ajudem mutuamente. Mas – e as opiniões geralmente convergem neste ponto – chega um momento em que uma função acaba atrapalhando a outra. Tem que se escolher. O jornalista pode matar o escritor assim como o escritor pode matar o jornalista. Para os jovens, eu incluso, claro, a situação é ainda mais nefasta. E não quero passar fome.

Escrever dói. Às vezes, literalmente. Cito Ricardo Noblat, cujo livro “A Arte de Fazer Um Jornal Diário” é leitura obrigatória para estudantes, focas, curiosos e profissionais experientes em geral. Diz ele: “Escrever é um suplício para quem gosta de escrever. E para quem leva a sério a tarefa. Dá prazer ler um texto bem escrito. Escrevê-lo não dá prazer. Dá trabalho. E, vez por outra, remete quem o faz para o divã do psicanalista”.

Quem pratica, sabe. Sempre, absolutamente sempre, poderíamos ter escrito melhor. Nada, nunca, ficará do jeito que gostamos. Reescrever inúmeras vezes não nos fará alcançar a perfeição, mas é indispensável. A busca desta evolução, desta melhora, do aperfeiçoamento, será aquilo que nos fará escrever até o fim da vida. A insatisfação, em suma. Também não acho que seja um dom. Há aquela famosa citação de um técnico de “futebol americano” que disse: “Metade deste jogo é noventa por cento mental”. Uma das coisas mais enigmáticas que já li, confesso.

Escrever é trabalho, labuta, dor, cansaço, sofrimento, angústia, insônia, inquietação, busca, edição, persistência, dedicação. Só pode ser um hobby para quem não leva a sério. Mesmo os meus escritos mais livres, despreocupados e despretensiosos. Espere um momento. Isto é um blefe. Não existe. Por mais que eu tente fazer qualquer coisa boba e simples, que tenha algum significado ou não, está incluso neste processo uma considerável parcela de raciocínio, escolha, percepção, senso estético, busca de uma forma apropriada.

Estou condenado a escrever. Dom e inspiração não fazem parte do ofício. O que chamamos de dom são anos de leitura e prática. Uma inspiração não passa de alguma idéia que surge justamente em decorrência de sua experiência anterior, da vivência na área. Não surge sem leitura. E jamais será executada devidamente sem competência.

Ao fim desta pequena reflexão, reproduzo o texto que criei – depois, em casa, raciocinando a proposta, o tema e o contexto – para o exercício dado. Sem dúvida o relato mais pessoal das eleições 2006 em minha vida. Aproveitem, se for possível.

“Democracia é uma bobagem. “A pior forma de governo, com exceção de todas as outras”. Diz a clássica frase de Churchill. Por preguiça e displicência, não alterei minha zona eleitoral. Fiquei uma hora na fila duma escola municipal qualquer de Belo Horizonte situada a beira dum barranco. Poucas vezes vi tanta gente feia na vida. 1 hora de espera. 25 segundos para votar. Levei 4 horas do momento em que saí de casa até o retorno. Gastei sete reais e quarenta centavos em transporte público. Fui burro. Devia ter saído após o almoço. Por esta imbelicidade, só comi algo decente às três da tarde.
Lula devia ter ganho no primeiro turno. Não votei nele. Votei em Heloísa Helena. A foto que a simboliza na urna eleitoral me pareceu excessivamente feliz. Felicidade despropositada. Talvez um equilíbrio maior a garantiria dois milhões de votos a mais. A última coisa que eu estava era contente. Lembro de um senhor que se sentara ao meu lado num ônibus não muito tempo atrás. Ele se demonstraria claramente marxista. Puxou assunto. Bastou que visse uma propaganda com a foto de Aécio Neves na rua. Ele me dizia que “esta direita retrógada não poderia voltar ao poder”. Que eles “roubaram muito mais que o governo atual”. Que “a mídia era majoritariamente comprada e estava ao lado do PSDB”. O senhor, já de cabelos grisalhos, beirando os 60 anos, trabalhou a vida toda em grandes empresas públicas e privadas de Minas Gerais. Sabia muito. Estava indo visitar a mãe. Ele detestava Heloísa Helena. Dizia que ela era vulgar e agia como se fosse a única pessoa política com moral, honestidade e competência para fazer algo. Cravaria o 13 na urna com plena convicção.
Heloísa é tudo que o PT defendia quando era o Partido dos Trabalhadores. Não foi expulsa a toa. Plínio de Arruda Sampaio não saiu por tédio. Por duas décadas, o PT foi tido como radical. Leia-se como “radical” uma sigla que defendia os interesses opostos daqueles que estavam no poder. Que pregava algo diferente do que era aplicado. Atualmente, “os radicais do PT” são aqueles que permaneceram com sua ideologia. “O Partido dizia que a Oceania jamais fora aliada da Eurásia. Ele, Winston Smith, sabia que a Oceania fora aliada da Eurásia não havia senão quatro anos. Onde, porém, existia esse conhecimento? Apenas em sua consciência, o que em todo caso devia ser logo aniquilado. E se todos os outros aceitassem a mentira imposta pelo Partido – se todos os anais dissessem a mesma coisa – , então a mentira se transformava em história, em verdade”. Nós somos os mortos. Obrigado George Orwell.
Não posso me considerar marxista. Li poucas obras completas e vários trechos de livros diversos. Li teóricos sobre Marx, clássicos, contemporâneos e recentes. Li discípulos, opositores, críticos. Inúmeros artigos. Incontáveis textos carregados de sua influência. Não me considero marxista por crer necessitar de uma base teórica mais profunda e consolidada. Contudo, não passaria vergonha numa discussão mais ampla. Algo importante é aniquilar de nossas mentes o que o senso-comum atrelou a Marx no último século – e tudo aquilo que quiseram atribuir a ele. Basta lembrar que o “inconsciente coletivo” é o sistema quem cria. “Quem controla o passado, controla o futuro; quem controla o presente, controla o passado”.
A síntese que faço das eleições 2006 é que terei de desembolsar aproximadamente 15 reais para votar nos dois turnos. Um péssimo negócio. Uma última coisa que me vem a mente é que bastaria um pouco de Marx, ou menos, um pouco mais de leitura, discernimento, consciência e interesse para que aquelas pessoas ao meu lado na fila, pobres e feias em sua maioria – não que uma coisa seja decorrência da outra, mas apenas uma constatação – pensassem melhor ao apertar os botões. Um primeiro movimento para sair da condição servil e complacente e reivindicar, de fato, uma melhor condição de vida. A revolução, a princípio, é simples. Não precisa de Marx. Não precisa de intelectualismo. Pede apenas que olhemos para nós mesmos. Os covardes e estóicos brasileiros. Corpos úteis e dóceis a serviço da democracia.”

Maurício Angelo

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