Simplicíssimo

Não julgarás

Não julgarás é a recomendação mais absurda da bíblia. É totalmente possível ficar sem matar, roubar, cobiçar a mulher do próximo, dizer o nome Dele em vão, e até amar o outro como a ti mesmo (mais até). Tudo isto é possível. Deixar de julgar é a única impraticável.
 

Julgar não é apenas preciso, como saudável, construtivo, valoroso, intrínseco, necessário, e requisito fundamental para viver, para expurgar a praga da indiferença de nossos espíritos preguiçosos. Julgar é a base da existência humana. O que nos distingue, caracteriza, retira da massa e nos torna atuantes. Mais do que julgar, é preciso refinar esta arte. Sair da crítica-como-lugar-comum. Rejeitar os padrões de pensamento. Identificar os estereótipos que nos são ensinados. Estereótipos, aliás, embora tenham sua parcela de verossimilhança – o que apenas se aproxima ­­do real, diga-se – não passam duma estratégia barata para ridicularizar/reduzir/distorcer alguma idéia, conceito e/ou comportamento. “Político é tudo igual”. “O trabalho enobrece o homem”. “Deus em primeiro lugar”. Apenas alguns exemplos.
 

O próprio “não julgar” é doutrinário, admoestativo. Não julgar implica aceitar, ceder, se acovardar, compreender, abdicar da crítica, abdicar de si mesmo. Quando alguém acusa-me de ser “muito crítico”, em tom pejorativo, obviamente, posso apenas rir desta pessoa. Como se devesse me envergonhar disto. Se a crítica em excesso pode originar atitudes previsíveis – chatice, mau-humor, insatisfação, honestidade, a criação de barreiras, etc – ela, em primeira instância, é o elemento fundamental do que sou. É a minha essência. Tudo o mais deriva-se da atitude crítica.
 Já que tocamos em dogmas religiosos, parafraseemos então, uma passagem bíblica. O velho livro diz que “buscai primeiro o reino de Deus e todas as outras coisas lhe serão acrescentadas”. O certo seria: leia, e todo o resto lhe será acrescentado. Não se busca na leitura apenas o prazer de se ler, o enriquecimento do vocabulário, a aquisição de conhecimento, o status social, o aperfeiçoamento de idéias. Lê-se para criar uma consciência crítica. E esta consciência crítica definirá todo o resto: suas convicções políticas, ideológicas e filosóficas, seus gostos (na música, na literatura, no teatro, nas artes em geral, no jeito de se vestir, no modo de falar), sua postura perante a sociedade, seus anseios, suas dores, seu trato com o outro, enfim, todo o seu comportamento e sua constituição. Julgar é uma necessidade vital que temos. Criticar, o ato em si, é um dos imperativos mais categóricos que conheço.

E é por isso que o ser verdadeiramente crítico exala uma brutal falta de paciência com o que é ruim, abaixo da média, inaceitável, patologicamente entranhado no establishment. Mais que perder a paciência, criamos um legítimo faro para certas coisas. Identificamos, rapidamente, o que não presta. A visão é expandida, abrange-se, consegue-se enxergar um sem número de elementos que não são possíveis à mente comum, ordinária. Se a sociedade me diz para não julgar, ela apenas espera que eu deixe de destrinchar o outro, a mim mesmo, que eu aceite as coisas como elas estão, que eu tema minha própria voz, que eu não faça minhas escolhas, que o deixe moldar-me à sua imagem e semelhança. Não há desgraça maior.
 

A passividade do não julgar coloca-o apenas como alvo do julgamento alheio. Impressionante notar como toda nossa civilização baseia-se em conceitos e idéias pré-determinadas (no sentido de aceitação, principalmente), e, portanto, oriundas de julgamentos. Todo padrão é fruto do juízo que o que se convencionou chamar de senso comum faz de determinada coisa. Não se pode mesmo esperar coerência dum mundo tão contraditório quanto o nosso.
 

A crítica é a atividade intramotora basal de nossa experiência. Não existe nada sem ela. Só o sábio critica. E só ele sabe aceitar suas limitações, lidar com elas, transformá-las em algo valoroso. Do mesmo jeito, somente o liberto é capaz de criticar. Felizmente, não é o fator social, o poderio econômico, que delimita nossas possibilidades de tecer críticas. Ao contrário. Os abastados, comumente, afogam-se em sua própria ignorância. Pois o mundo em que vivem não é propício para o surgimento da consciência crítica, não tem necessidade dela. Apenas uma das conseqüências de quando se coloca a responsabilidade sob si nas costas de outro ou de outra coisa.
 

Os críticos são a verdadeira elite da humanidade. Uma elite sem barreiras, sempre pronta a receber novos membros. Os únicos que efetivamente pensam, independente de suas crenças ou do que defendam. E que Descartes me perdoe, mas não é “penso, logo existo”. Minha última sentença: critico, logo vivo.

Maurício Angelo

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