Simplicíssimo

Questão de Hábito

Quantas vezes ouviste a expressão “é apenas questão de hábito” para justificar uma situação desconfortável? “O ser humano se acostuma a tudo”. Não é uma frase familiar?

 

Ora, em essência, eu não tenho que me acostumar a nada! Pelo contrário, comodismo-conformismo, muitas vezes, são apenas pré-requisitos para alienação/resignação/covardia. Se passo da condição de construtor do nosso mundo a mero espectador, se sou incapaz de mudar e evoluir, se me torno plácido em vez de ativo, só há uma conclusão aceitável: estou doente. Não vivo, existo. Não altero, compactuo. Não questiono, aceito. Não provoco, sou dominado.

 

Gosto comum, idéias comuns, existência comum, comportamento previsível, crenças normais, ideologias pueris. Todo este entrelaçamento, óbvio e inescapável, gera apenas uma coisa: vidas ordinárias e medíocres, a pura manutenção do establishment (já disse num texto anterior, mas repito: a significação que tal anglicismo possui e é capaz de sintetizar não encontra correlatos na língua portuguesa).

 

Uma dica: o melhor guia que tens para encontrar alguém verdadeiramente intelectual e valoroso é a coerência que esta pessoa demonstra nas diferentes áreas de sua vida. A relação íntima entre a teoria e a prática, a incessante dialética das constituições que ela propaga seguir.

 

Se, apesar dos pesares, consigo me adaptar a determinada coisa, se passo a aceitá-la minimamente e conviver com ela, isto, sob nenhum aspecto, significa necessariamente que a aprecio e que a mesma me satisfaz. Nos habituamos à desgraça. A ser enganado, controlado, usado. A aceitar pacificamente tudo que nos impõe. A pedir a benção da “mão invisível” do mercado. Digo-lhe: não existe mão. Ela não é invisível. O trabalho não dignifica o homem. A história não acabou. O capitalismo não é inato. O sistema não é invulnerável. Não existe hálibi, escapatória, subterfúgio. Tudo isto goza de sua infinita complacência, permissão e compaixão (a última, em especial, e a mais difícil de eliminar). Nenhuma desculpa é aceitável. Está na hora de mudar os nossos hábitos. “Ao invertermos o que está invertido colocamos as coisas em seu devido lugar”.

 

Orwell, Orwell. É impossível não lembrar de Eric Arthur Blair sempre que se escreve sobre política, revolução, coerência, lucidez, vida. Diz o mestre: “Não se revoltarão enquanto não se tornarem conscientes, e não se tornarão conscientes enquanto não se rebelarem”.

 

De modo incomum, terminarei este texto com humildade e certa paciência. Faço-lhe dois pedidos (ou seriam admoestações?): Se ainda encontra-se no lodaçal da ignorância e cometes o crime de ainda não ter lido “1984”, esqueça o resto, ignore o que estiver lhe impedindo e leia (outra sugestão simples: fique um fim de semana sem se entorpecer e compre a obra por uns 15 reais num sebo). Nenhum academicismo imbecil que a tua faculdade estéril esteja te obrigando a ler pode, sequer, ser comparável. E a outra, igualmente fundamental: revolte-se. Não ame o Grande Irmão. Revolte-se cotidianamente. Questione tudo, a começar por si mesmo. Duvide de cada “certeza” que tens – busque a origem de cada uma delas. É preciso renascer. É preciso voltar a ser criança. A perguntar “por que?” sempre que nos depararmos com algo novo e fazer a mesma pergunta para tudo aquilo que já vivemos. É preciso ser imensuravelmente chato, cético e curioso.

 

Revoltar-se é a condição essencial (e todo o mal-estar que a palavra pode te causar deriva-se somente da demonização que o sistema fez dela). Porque, se assim não for, perco totalmente a inspiração, a razão e o sentido de escrever aqui. E será impossível ao leitor saborear os impulsos enérgicos que me movem.

 

Certo. Se estás no simplicíssimo, e nesta coluna, há, no mínimo, a chama dum outsider dentro de ti. Então façamos este trato: você se rebela e eu evito caceteá-lo novamente do mesmo jeito. Veja bem. Do mesmo jeito. Convido-o a assinar seu atestado de óbito. Porque nós somos os mortos, meu caro. Nós? Somos os mortos.

Maurício Angelo

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