Simplicíssimo

Salto no vazio

O dia era claro, de pouca idade, umas seis da manhã. Saltei do trem junto com o sol, e caminhei pelos meus desertos de viajante sem conhecer a cidade, numa aventura desmedida e inquieta. Eu compreendia a inexistência de paradeiro. E de procedência. Era, ali, nômade em meus desejos, peregrina, andava solta pelas minhas ruas imaginárias, seguia setas de destino que desapareciam às minhas costas. Eu estava ali? Sim, de todo. Vi o céu abrindo a janela do dia, e me tomei de coragem. Descobri que ali havia montanhas, mar, poucas casas, e ninguém. Ao menos ninguém desperto. Por momentos, assustada, perplexa. A imensidão ocupava o vazio. Meus passos soavam estrondosos no silêncio morno, e eu seguia, andarilha, por minha descoberta de algo.
Sentia um prenúncio de descoberta, o vento que gela o rosto e corta a pele ainda cedo. Sim, havia algo que meus passos buscavam, mas meus olhos, ainda apertados pela noite no trem, espichavam-se para alcançar. Era uma sensação, uma busca impensada, e só caminhar pelas estradas de terra me aliviava do aperto doloroso de buscar um não-sei-quê. Seguia andando, sem pensar. O aperto, por enquanto, não diminuía, como se arrebentasse minhas fibras, um rasgo. Afinal, era um aperto ou um rasgo? Ambos. Todas as sensações. A dor forte me impulsionava a andar mais rápido, como se o desconhecido me aguardasse com urgência, e ao mesmo tempo eu tinha uma paralisia de vontades, por instantes desejava parar ali e não partir a nenhum outro destino. Ali, no meio do chão de terra. E era quando seguia ainda mais rápido, desafiando o ar como se lutasse contra uma força gigantesca. Assusutei-me com minha avidez, com minha velocidade, com o turvo dos anseios que não me permitiam parar o trajeto. Uma cabana surgiu à minha frente, como um oásis naquela solidão inóspita, e arrisquei abrir a porta.

Betina Mariante

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