Simplicíssimo

O Marquês (X)

"Com o que a psique guerreia, se não com a injustiça da exterioridade, as vicissitudes repressoras dos instintos, os sofrimentos neuróticos que priva a liberdade que ainda pode dar tempo ao tempo, de modo que, por um instante, talvez seja o nosso tempo?"

Harold Bloom

A inabilidade de caracterizar Granier de maneira adequada, sem seus olhos pequenos para olhar, é o verdadeiro sinal de sua força tão versátil. Suas idéias centrais – seus instintos, defesas, suas agências psíquicas num insconsciente dinâmico – são sempre apenas noções fronteiriças, tornando mais diáfana a demarcação entre sua mente e a realidade. A arte de Will, o pôquer, não é inteiramente especulativa ou poética nem essencial ou terapêutica, mas fica na fronteira entre tais conceitos. Portanto, o próprio uso que Willian Granier fará de seu talento será aqui descrito de maneira fronteiriça entre a poesia e especulação, entre a mente de Will e o real. De toda forma, o ego é sempre um ego corpóreo, e muito egocêntricos seriam os assassinatos imorais de Granier.

Três semanas após entregar o livro de seus devedores a Will, o sol da tarde já se punha quase frio sobre o rosto de Arnaud, sentado em seu salão, às horas que apreciava ler e esquecer do dia, enquanto detinha o Diário local , num dos meses na primavera de 1859, que noticiava uma morte em circustâncias singulares:

"- … enquanto uma das filhas chegava aos prantos da viajem que fizera de sua cidade natal para acompanhar o velório do pai, foram divulgadas as circunstâncias da morte. O Senhor Bracknell fora encontrado na sala de sua casa, a Alameda das Palmeiras nas redondezas da Cidade dos Ventos, na posição fetal, com fínissima costura de linha semelhante a encontrada nas sacas de flores. Com ajuda de um lojista da cidade, a linha foi confirmada como aquela utilizada no transporte comercial de rosas, às quais somente os colhedores de flores têm acesso. A costura no corpo do Sr. Bracknell encontrava-se na região frontal esquerda do tórax, tendo o coração retirado. Em seu lugar, conforme a equipe medicinal do dr. Wilde pôde constatar, fora encontrada uma carta de jogo de baralho, um às de espadas.

Como Bracknell morava sozinho em sua casa, policiais envolvidos na investigação ainda têm dificuldades em precisar se algo fora roubado, ou se havia alguém com ele, na casa, no dia do assassínio. Os demais cômodos encontravam-se em perfeitas condições. Pessoas próximas a Bracknell afirmaram conhecer o gosto da vítima pelo pôquer. Neste jogo, o às é a primeira carta da chamada Royal Straight Flush, uma das sequências mais raras do jogo. Existem ainda um total de dez combinações possíveis no pôquer, para o fechamento da partida."

Arnaud lera aquilo com indiferença, conhecia de longa data Bracknell, mas apenas lembrava-se de alguns jogos em seu salão há anos. Tratava-se de um homem pingue, que embora ainda não tivesse trinta anos, aparentava já ter vivido sua vida. Quando criança, o pai batera-lhe com o atiçador na testa, pouco acima do nariz e, desde então, perdera o olfato e toda sensibilidade para o calor e para a frieza, adormecia com dificuldade e, devido à falta de frio e à insônia, possuía desde a primeira juventude uma ativa vida noturna. Com aquela única pancada, a delicadeza tornara-se para ele algo tão estranho quanto a aversão, tão estranha a alegria quanto o desespero. Daí o silêncio de sua morte, a limpeza e a aparente facilidade com que o assassino agira. Era o primeiro nome do livro, o livro do garoto que agora Arnaud via, varrendo o salão, pequeno, altivo, belo e quieto.

Arnaud tentou reler a bizarra notícia, mas não conseguiu, a visão, ainda que de soslaio, de Granier capturara de vez sua atenção no movimento pendular da vassoura. Sentiu a vontade de reaver o livro, guardá-lo, queimá-lo, enfim, afastá-lo de Will, mas a vontade perdeu a vez para o seu espírito, e contentou-se em cambalear até outra cadeira para observar melhor o menino. Teve a certeza, ou a vontade de ter a certeza que Granier matara Bracknell após vencê-lo no pôquer, e como não obtivera o pagamento da aposta, o matou.

No caso de Bracknell, devido ao seu amor inconstante, porém supremo pelo jogo, bastava lhe encontrar e desafiar-lhe para uma partida… disto Arnaud bem se lembrava, mas enquanto lembrava, Arnaud pensou que o seu objetivo ao observar as regras de ação de Granier, não seria exatamente examinar o menino, o indivíduo Granier, mas a espécie, a qual Arnaud também pertencia, observar sim as características gerais de Will, e os seus grandes aspectos, como um poeta não conta as estrias da tulipa, nem descreve os tons de verde da floresta. Ele deve exibir, nos retratos da observação, traços proeminentes e marcantes, que a todos façam lembrar o original, e deve desconsiderar as discriminaçóes moralistas talvez defendidas, mas despercebidas pelos verdadeiros homens; deveria valorizar agora a características que ele Arnaud detinha junto ao pequeno Will, óbvias à observação e que não requerem grande zelo, pois o velho percebeu que somente assim aproximaria a sua intenção àquela de Granier, que uma vez detalhada, apenas fazia sentido ao menino.

Ao pensar dessa forma, Arnaud chegara à metade do caminho, pois o conhecimento da natureza de Granier lhe era ainda misterioso. Justificou para si que mente humana alguma se encontra em seu estado certo, certamente levado pelas ambições revoltosas e reprimidas de seu coração anarquista e velho. Para Arnaud, não existe homem que seja capaz de regular sua atenção apenas pela vontade, e cujas idéias surjam e desapareçam sob seu comando. Não se poderia encontrar um único homem cuja mente não é, às vezes, tiranizada por noções etéreas, forçando a nutrir esperanças inverossímeis ou sentir medo muito além dos limites da probabilidade sóbria.

Toda a força da imaginação sobre a razão é um grau de insanidade, pensou Arnaud, e embora seja possível controlar e reprimir tal força, ele quis solidarizar-se a Granier, com seu louco ideal de mortes a custo de jogos, pois quando quisesse parar, tanto ele, Arnaud, como Will parariam já que só é declarada a loucura quando esta se torna ingovernável, e parece influenciar o discurso e a ação. Mas não… o discurso e a ação eram seus, pensou Arnaud, não estava louco, Granier não estava louco, apenas cederiam à força da ficção e deixariam a imaginação voar alto, como uma especulação silenciosa. Assim, Arnaud justificou para si o objetivo de Will, o de matar solidariamente, o crime como suas necessidades humanas.

Porém, nem tudo era possível de ser captado pela astúcia argumentativa do velho Arnaud. E ele falhou. Não percebeu que Granier vagava ainda mais longe, num futuro de condições inimaginadas pelo velho, porém desejáveis, sem a fortuna e deleite que poderiam conceder ao pequeno a generosidade dos prazeres do jogo, de fazer valer o jogo em qualquer condição, de observar o poder de todas as suas paixões, em todos os somatórios possíveis, e traçar as alterações da sorte na sua mente humana, alterações causadas por várias intuições e por influências acidentais, de costume e de hábito, desde as diabruras da infância até a melancolia da decrepitude que Willian Granier, embora jovem, já sofria… eis porque a solidão de Will era misteriosa para Arnaud.

Enquanto o garoto ainda varria o chão solitário, Arnaud foi cambaleando pelo salão e olhou para Will de maneira quase supersticiosa, mostrou-lhe o jornal e dentre um círculo de fumaça de seu fumo, falou:

"- Willian, quem será a próxima vítima?"

Rodrigo Monzani

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