Simplicíssimo

À Ana

O ser humano é realmente muito rápido no gatilho quando se trata em pré julgamento.
Julgamos o vizinho discreto, julgamos o colega de trabalho fanfarrão, o padeiro falante o cara do caixa de supermercado quieto enfim, julgamos, costumeira e deliberadamente e às vezes até mesmo sem perceber, na melhor forma do foi sem querer, mas fiz de propósito.
Mas não achamos que fazemos isso até que alguém enfie o dedo em nossa ferida e nos clareia a mente.
Outro dia, freqüentando o clube como de costume, passei na secretaria para resolver uma questão da carteirinha de sócio quando fui atendida por Ana. A senhora aparentemente de sessenta anos que não abria o sorriso para ninguém, não ao menos que eu tenha testemunhado.
Mentalmente fiquei criticando Ana. Uma mulher mal humorada que estava sempre de cara fechada e atendia maquinalmente as pessoas, como se estivesse programada no controle remoto. Sabe aquelas maquinas que nos atende ao telefone? Se você quer saber X aperte 1, se quer saber Y aperte o 2 e por ai vai. Dá ate desespero.
Mas nesse dia em questão, Ana pegava meus dados e, surpreendentemente, sem que fosse necessário eu esboçar um som, Ana comentou:
– A mesma data de aniversário de minha filha. Ela também teria sua idade se estivesse viva.
Senti uma sensação desagradável e uma necessidade enorme de falar algo, seria obrigação? Não sei, mas disse:
– Puxa, e você tem outros filhos?
– Meu outro filho morreu ano passado. Aos trinta e cinco anos.
Eu queria que ela tivesse chorado, que me obrigasse a chorar junto, que me dissesse que sabia de meus pensamentos acusadores sobre sua pessoa e que eu era um idiota egoísta incapaz de olhar nos olhos das pessoas e ver o quanto tinham uma vida difícil antes de apontar meu dedo em riste em direção a elas.
Naquele momento, e exatamente naquele momento, quando olhei nos olhos de Ana, vi o quanto eram tristes, opacos de tanto chorar.
Tive vontade de pular aquele balcão e abraçá-la, pedir desculpas por meus pensamentos criminosos, parabenizá-la pela mulher forte que era em manter-se em pé mesmo depois das perdas irreparáveis. Mas não consegui nem ao menos dizer uma palavra de conforto, pois, ali, a única pessoa fraca era eu.
Ana continua lá, fazendo seu trabalho e eu, sempre que tenho uma oportunidade, cumprimento-a e tento trocar uma palavra amável. Ana foi, sem saber e com certeza uma grande mestra no que diz respeito a “amai e não julgai”.

Priscila Magalhaes

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