Simplicíssimo

O Roubo

Seu sócio voltou eufórico da cartomante. Eram boas notícias. A empresa teria um grande futuro e tinham que seguir investindo e blá blá blá. Previsões e previsões. Mas havia, com sempre, um porém: um amigo acabaria por roubar dinheiro da empresa. A idéia de traição inicialmente não o perturbou. Mas pouco a pouco tudo que a cartomante disse foi acontecendo. Foi inevitável lembrar-se de que algo ruim estaria para acontecer. A preocupação seguiu-o por toda a rodovia no caminho de volta para casa e entrou sorrateiramente em sua casa, invadindo seu sono com pesadelos. Acordou abraçado na mesma obsessão. Enfocou o café da manhã, o almoço, o lanche. A noite caía e já estava na hora de voltar para casa. Trancado em sua sala, recebeu uma ligação do seu sócio e único … amigo! Sim seria ele, tinha que ser, não havia com ser outro, nenhum outro! 

_ Estou preocupado com você, o que houve? Vamos tomar um café?

Agora ele sabia do pior. E agora ele tinha que evitá-lo. Abriu as gavetas em busca de idéias e lá no fundo avistou seu 38. Era o que devia fazer, pensou.

_ Vamos sim, pode ser naquela cafeteria da lagoa?

O caminho longo e entrecortado por algumas florestas era perfeito para uma armadilha. Então estava combinado. Deu carona, foram conversando futilidades. Nem recorda o que, nem prestava atenção em nada, só em maquiavélico plano. Simulou um problema qualquer no carro e parou na beira da estrada.

_ Será preciso dar um empurrãozinho, pode me ajudar aqui?

Assim que o sócio lhe deu as costas, sacou a arma e disparou descarregando 5 tiros raivosos e certeiros. Arrastou o corpo para o barranco e o fez despencar até as árvores. Estava feito o serviço e a paz voltou a reinar em seu corpo. Ao virar-se para o carro, avistou algo no chão. Chegou mais perto, bem perto. Era a carteira do falecido. Antes de jogá-la junto com o corpo, ao resistiu à tentação de dar uma olhadinha e depois a outra de pegar algumas notas. Ele não vai precisar delas lá no inferno, pensou. De volta para casa, tomou um banho quente, vestiu o pijama e pensou tranqüilo antes de adormecer como um anjo:

_ Amigo meu roubar de mim? Nem morto!

Ibbas Filho

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