Simplicíssimo

O homem que fugiu da rotina

   A chuva caia forte naquele final de tarde e tudo que ele conseguia se lembrar era do dia perdido em frente ao micro onde deveria trabalhar, pensava no melancolismo de chegar solitário à uma casa vazia e também na tristeza que toda uma noite solitário lhe causaria, com muito tempo para pensar no nada que era sua vida.

   “Cabeça vazia, oficina do diabo”, já lhe diziam, mas o que ele podia fazer além de sentir-se o próprio Jack, de O Clube da Luta, sendo levado pelos pensamentos de Tyler Durden: "Nós somos os filhos do meio da história, sem propósito ou lugar. Não tivemos Grande Guerra, não tivemos Grande Depressão. Nossa grande guerra é a guerra espiritual, nossa grande depressão é a nossa vida.".
   Ele sabia que era mais um na multidão, ele não era apenas um estereótipo, era uma profusão de frases feitas e lugares comuns. Ele era o povo, com letra minúscula. Não passava de um RG na carteira, uma certidão de nascimento a ser precedida por outra de óbito, mais dia, menos dia, e um longo intervalo entre as duas para que ele não fizesse nada. Seu trabalho era operacional, suas opiniões tercerizadas, sua vida, vazia. Milhões de pessoas viviam como ele, sem saber disto, o que o diferenciava dos demais, ainda que por muito pouco, era justamente o conhecimento sobre a própria situação, que lhe gerava um pequeno sentimento de querer existir. “Nós não existimos, não somos o que pensamos ser, somos o que os outros pensam de nós”, não é o que diz o ditado do povo? E não é a voz do povo a voz de Deus? Ele não existia, ninguém pensava nada sobre ele. Ninguém nunca refletiu mais sobre ele além do troco a devolver, se o pagamento estava em dia, se os impostos estavam certos. E ele nem nisso colaborava, pagava tudo em dia, nunca deu dor de cabeça maior para o sistema que o próprio fato de dar pouco dinheiro ao governo. Trabalhava perto de casa, ia à pé, portanto. 
   Também quase não usava luzes na casa, um abajur aqui e ali, com lâmpadas de sessenta watts lhe bastavam. Da água, nada além do banho, e a casa de piso frio usava o mínimo de uma vassoura.
Ele estava fadado a viver seu próprio feitiço do tempo, fazendo de cada dia, um dia idêntico ao anterior. Estava fadado, até aquela noite. Como dizia, caia uma forte chuva naquele final de tarde. Ele passou o dia lendo filosofia barata na net, coisa que ele amava fazer. Quando deu cinco horas, ignorou a chuva e deu uma corridinha até em casa, entrou, acendeu o abajur como fazia sempre e viu a correspondência, entre as contas de sempre, uma supresa, um envelope mais grosso e pesado que os de costume. Olhou com atenção e viu que era para o vizinho que se mudará a alguns dias. Que fazer? Contrariando toda a natureza e leis do universo, ele abriu a carta e viu que havia um pequeno livro em seu interior, era fino, poderia ser lido em duas horas talvez. Começou a lê-lo mas não terminou, sentiu que sabia como acabava, pois soube que alí era sua vida retratada, e ele viu como sua própria vida acabaria. Ele não dormiu. Naquela noite ele era ele e Macabea em um só corpo.
   Na manhã seguinte, ele não foi trabalhar. Deixou o telefone ficar rouco de tanto tocar. Levantou-se da cama na hora do almoço, mais por fome que por vontade, mas lembrou-se que não tinha nada para comer em casa, e ainda chovia la fora. Pegou seu guarda-chuva, mas não o usou, embrulhou-o num agasalho maior, escondendo-o bem e foi ao banco de sempre.
   Caminhou ignorando a chuva, indo até o banco. A porta giratória reclamou do estranho volume sob os braços dele, mas o segurança já o vira algumas vezes por alí liberou sua passagem, sem saber o que o esperava. O segurança assistiu ao velho cliente de sempre passar pela porta, e sair gritando, empunhando o embrulho tal qual fosse uma doze disfarçada, e avancou em direção aos caixas urrando. “Assalto, assalto, assalto”. Ele gritava, o cliente/assaltante gritava, e todos os demais chorava e gritavam repetindo-o assutados. O segurança, sem saber o que fazer, não precisou pensar, fez o aquilo que era condicionado a fazer, puxou a arma do coldre e deu-lhe três tiros no meio das costas. Todos os tiros perfuraram os pulmões e sairam pelo peito, deixando um buraco do tamanho de um pirez a cada bala que passava e ele caiu trôpego. Só teve tempo de grita: “Eu sou Jack… Jaaaack…” e naquele momento todos o olharam, e ele existiu, e o mundo falou dele, e ele teve seu momento de estrela, ele teve sua Hora da Estrela.

Luiz Emanuel Campos

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