Simplicíssimo

Ruínas – How to disappear completely.

[em memória de Victoria.]

"I’m not here
This isn’t happening
I’m not here, I’m not here

In a little while
I’ll be gone
The moment’s already passed
Yeah, it’s gone…"

 

-RadioHead; "How to disappear completely"-

 

Lembro-me com carinho de ti. E também me lembro de quando nos perdemos. Não sinto saudades. E tu, agora longe, vai se perdendo pra sempre. Fui álibi para tua autodestruição. Isto já estava dentro de ti. Não devo me culpar.

Não posso sequer ver-te pela última vez. Estás longe. E estás, quem sabe, já debaixo da terra. Não me convidaram. Já eras uma suicida, e eu servi como desculpa. Foi só isso o que aconteceu. Eu era a tua desculpa para te destruíres, para te curares, para escreveres, para te anestesiares. Sobretudo, servi de desculpa para enfrentares teus pais, para te sentires livre, para tu entristecer-te. Tinhas tudo, mas eras infeliz. Eras triste, mas não tinha coragem de exprimires teus sentimentos contra as pessoas certas.

Agora esta notícia me deixa atônita. Não consigo chorar. Sim, tu também me serviste de desculpa, de álibi, de redenção, de sonho e de dor. Vias em mim o que eras e eu fazia o mesmo. Eu tinha coragem de gritar e enfrentar o mundo. Sempre tomei aquilo que quis e me empenhei, sem medir conseqüências, naquilo que me apetecia. Voamos alto demais e o sol queimou nossas asas, tal qual como Ícaro e Dédalo.

Não era o sol nosso problema; eram nossas próprias asas. Eu me sobrevivi a queda, acostumada com quedas irreparáveis. Eu compreendia. Agora sei, agora vejo… Por que fizeste isso? Por que deixaste o mundo vencer-te assim? Não se pode amar verdadeiramente quando és uma metade. Já havia lhe dito, mas não escutaste. Eu era a tua desculpa para te desculpares. Eu busquei ser inteira antes de amar de novo. Refiz-me, me renasci, sobretudo porque me cansei dos álibis, das mentiras, das ilusões. "Victoria – disse-lhe, – não deves precisar de alguém, mas querer necessitar. E antes, deves conhecer-te, ao menos tentar. Ser inteira. Tu és responsável por tuas escolhas."

Não me deixaste nada, não disseste a razão…, Porque sabias que eu entenderia. Mas agora não entendo. Entristeço-me. Estou trêmula. Não, não podes ter deixado de existir! É impossível! Os teus fantasmas vão ecoar naqueles corredores escuros, de clausura e rebeldia para sempre. Éramos adolescentes, tínhamos tanto a descobrir. Tuas drogas. Tuas drogas que experimentei para sofrer com tinhas sofrido outrora. Recriminastes-me, eu te agredi. Lembro-me. E agora voltastes e usá-las, e sabias que era perigoso. Tu sabias, e querias morrer. Eu sei, e isso me dói, me corta em pedaços, porque eu sei…, sei que era a única a saber… […]


Eu envelheci, nós perdemos, nós vivemos – nos destruímos; nos amamos demais. Teus fantasmas. Não entendo. É tão difícil para mim… […] Não pude deixar-te uma rosa nas mãos. Não me convidaram. Eu apenas rezo, procurando alguma reminescência de fé ou esperança em mim mesma, ainda que vão…, rezo apenas para que agora descanses em paz, enfim…, Mereces a paz …

Raquel A. Drummond

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