Simplicíssimo

“Nós que aqui estamos por vós esperamos”

Tive o privilégio de assistir essa semana por indicação de uma professora minha de Psicologia, um filme que me chamou muito atenção. É um documentário de 1999, feito por um brasileiro, e que já recebeu vários prêmios.
Tive o privilégio de assistir essa semana por indicação de uma professora minha de Psicologia, um filme que me chamou muito atenção. É um documentário de 1999, feito por um brasileiro, e que já recebeu vários prêmios. O filme chama-se “Nós que aqui estamos por vós esperamos”. Fala sobre muitas das mudanças que o mundo veio sofrendo ao longo do século XX e que teve como resultado o rumo que a humanidade toma hoje.

Notei logo de início que o filme trabalharia em cima de algumas palavras que só de ouvi-las eu já presto maior atenção como história, morte, caminhos, cultura, diferenças, escolhas… O modo como o documentário aborda todos esses temas transparece através das imagens, do estilo, da visão crítica que o diretor coloca em cada cena, em cada nova etapa do filme.

“Nós que aqui estamos…” sem dúvida é de um valor histórico inigualável, pois acusa toda a beleza e crueldade existente nos seres humanos. Ele transborda energia, dinamismo e criatividade, sendo sensível e crítico ao mesmo tempo.

Como no começo do filme mesmo é dito, ele mostra pequenas histórias e grandes personagens, do mesmo modo que pequenos personagens e grandes histórias. É incrível quanto o mais ínfimo dos mortais tem todo o valor e faz todo o sentido dentro de uma História que a todo o momento é reciclada. Dentro da História não se deve falar de criação, mas de construção. Vejo os homens construindo o passado a cada segundo que transcorre. A História não é ao mesmo tempo o individual e o coletivo, e a beleza disso é o mix que se dá sem a pretensão de haver uma construção do passado. Isso é algo bem interessante, pois as pessoas costumam pensar em transformar o futuro, viver o futuro, sem se dar conta que ao fazerem isso estão também escrevendo a História. A História é vivênciada por todos e reinventada a cada ação de um sujeito. As relações se dão através de ação e reação, nada passa em branco, tudo é experenciado por todos. Somos agentes ativos dentro de todo o tempo e todo o espaço.

Já quando se fala de diferença e cultura o filme novamente não deixa nada a desejar. Apenas um diretor de visão ampla e versátil seria capaz de colocar diferentes povos dentro de uma mesma História da humanidade, mostrando que diferença pouca é bobagem, mas é através desta que se dá o crescimento, que se faz o diferente. Aliás, não existe como dissociar cultura e diferença. Se somos diferentes até mesmo de nosso vizinho, quem dirá de alguém que está do outro lado da mundo! Não é de se admirar que tantos conflitos se dêem exatamente por essas diferenças culturais. Costumo me perguntar freqüentemente porque o diferente incomoda tanto? Por que se dá tanta intolerância diante do que não é semelhante a nós? É verdade que afinidades sempre ajudam a construir relações mais facilmente, mas em compensação, perdem em sentido e tendem a cair na monotonia. Costumo preferir ter relacionamentos em que tanto a semelhança quanto a diferença são constantes. Conseguir tolerar e lidar com o que é diferente é permitir que algo novo se crie, mais criativo, mais misturado, mais inovador e rico. Aqui me refiro principalmente a relacionamentos entre indivíduos, mas que não deixa de ser uma visão que pode se estender aos mais diversos tipos de interação.

Outra parte que me fez refletir um pouco é a que trata das 1000 Marias, 2000 Josés (não sei se o número é esse, mas isso não influencia na intenção). Fiquei pensando por exemplo nas possíveis 1000 Renatas que devem existir por aí hoje. O que elas andam fazendo? Quem elas são? A escolha de seus nomes foi tão aleatória quanto a do meu? Como toda a psicóloga eu tenho aquela postura metida de quem morre de curiosidade pela vida do outro. A questão mais legal é que entre essas 1000 pessoas, algumas tem coisas em comum, outras nada em comum. No filme o autor mostra esses vários personagens da vida real correndo atrás de um mesmo objetivo e o quanto a história de vida, a personalidade e suas escolhas o levaram a ter o mesmo destino final. É bárbaro pensar que entre todas as escolhas que somos capazes de fazer, optemos por apenas uma e temos de descartar todas as outras. E isso se constitui em destino, fazendo com que o caminho de cada ser humano seja único, singular e se cruze em muitas decisões parecidas que as pessoas tomem. Poder escolher seu próprio caminho, permitindo-se ser livre para vivênciar todas as experiências que se interporem, sendo flexível e versátil mostra-se para mim como um sinal saudável de que a vida está tomando seu rumo do melhor modo possível.

O filme me fez pensar também muito em morte. Não sei se pelas cenas base gravadas em um cemitério ou por terem sido colocadas datas de morte da maioria dos indivíduos cuja suas histórias eram contadas, a questão é que a morte foi um assunto muito presente para mim. É estranho como a morte me chama muito a atenção nos filmes, nos livros, na vida. É um assunto que da mesma maneira que dói, também sempre está revestido de um mistério que me faz pensar no sentido da vida, nos valores, na transcendência. Para mim pensar na morte é poder pensar na maneira como a vimos, na forma como a esperamos e como somos capazes de lidar com o inevitável e o imprevisível. Negarmos que ela existe é impossível, e em algum momento nos depararemos de frente com ela e teremos de ser capazes de enfrentá-la independente de nossa preparação. Prefiro pensar que morremos da mesma forma que fomos passíveis de viver. Uma morte pacata, uma morte violenta, uma morte dolorida, uma morte tranqüila, uma morte solitária. Cada um tem a morte que escolhe pelo tipo de vida que teve. Pelo menos isso seria o ideal. A real é que a morte assim como tudo na vida está ligada aos caminhos que escolhemos e as decisões que por ventura viremos a tomar. Claro que nada é tão estático assim, ainda mais quando se lida com um assunto tão angustiante.

Considero que já dei uma levantada nos principais itens que me intrigaram no filme. Nem é necessário dizer que realmente é um filme que nos faz pensar e nos permite refletir sobre as coisas mais variadas. Só tenho a agradecer por existirem pessoas capazes de expressar suas emoções e colocar muito da sua visão e criatividade em cima de um trabalho como os criadores de “Nós que aqui estamos…” fizeram. É um filme magnífico, e que sem dúvida deixou marcas verdadeiras na minha história.

Renata Kiles

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