Simplicíssimo

O Psiquiatra

O paciente apresentava todos os sintomas de uma grave depressão. Hoje em dia, as doenças psiquiátricas encontram-se catalogadas, o papel do psiquiatra resume-se a dar ao paciente o catálogo das doenças (da OMS) e esperar que seja ele a fazer o seu próprio diagnóstico. Desde que apresente um número representativo dos sintomas de uma doença, está feita a escolha. Aquele paciente tinha todos os sintomas da depressão, pelo que só podia estar… “deprimido” quando me devolveu o catálogo. Indaguei-lhe, então:

– O que se passa?

O homem, que já passara a idade madura e estava mais próximo da idade podre, admitiu:

– Sim, doutor! Ando muito deprimido, mas isso eu já sabia quando resolvi cá vir. Não sei o que fazer da minha vida.

– Ó homem, hoje há remédio para tudo, menos para a morte. Vou receitar-lhe um medicamento que o vai tirar, em pouco tempo, desse estado. A depressão é tramada.

– Pois é, doutor. E eu nem sei porque é que me encontro neste estado. Ainda se tivesse razões fortes para isso, eu entendia. Mas a vida nem me corre mal… Pelo menos, pelo que vejo na televisão, há sítios onde as pessoas têm que ser muito fortes para sobreviver e nem têm tempo para depressões. A gente vê cada coisa que, de facto, não percebo como é que nós, com a boa vida que temos, ainda nos queixamos. Imagine se eu vivesse no Iraque, ou se um Tsunami tivesse morto os meus familiares, ou se eles estivessem nas torres gémeas de Nova Iorque quando estas caíram. Sem falar da possibilidade de poderem ser vítimas da gripe das aves, da SIDA, do Ébola ou dessa febre que deu em Angola recentemente. Também se podia dar o caso de os meus familiares terem morrido no Holocausto (ainda hoje se fala nisso), ou, se ainda estivéssemos na Idade Média, terem sido acusados de bruxaria ou heresia e queimados nas fogueiras. Hoje em dia são os cartoonistas que se pretende atirar para a fogueira, felizmente não houve algum na minha família.

– Não se preocupe com essas coisas, más notícias sempre as houve mas hoje, com a sociedade da comunicação, correm mais depressa e ficamos a saber, imediatamente, o que se está a passar em todo o mundo. Às vezes de uma pequena coisa faz-se logo um alarido para levar as pessoas a consumir os jornais, as revistas, livros, etc.. Esqueça essas coisas, homem, esqueça! Não leve tudo tão a peito! Você não pode chamar a si o sofrimento de toda a humanidade, também tem o direito a gozar a sua vida, ou a parte que ainda lhe resta. Procure divertir-se, saia de casa, vá ao jardim e dê dois dedos de conversa,  com os amigos que, de certeza, ainda terá.

– As palavras do doutor estão a fazer-me um bem que nem calcula! Nunca ninguém me falara assim antes, com esta franqueza. Estou farto da hipocrisia das pessoas que me dizem que ainda sou um jovem, que tenho ainda muito tempo para cá estar, que não pareço ter a idade que tenho e coisas do género. A verdade, isso eu sei, é que eu vou morrer.

– Mas vamos todos…

– Não, doutor. Nem todos! Da forma como eu vejo as pessoas a falar, e a discutir, e a defender com unhas e dentes as suas ideias, não creio que elas saibam que vão morrer. Da forma como eu as vejo a construir impérios materiais, não devem saber que vão morrer.

– Nisso, tem razão! Vai um Xanax-zito?

– O doutor é que sabe. Mas acha que adianta?

– Pode-se experimentar. Mas veja lá se deixa de ligar tanto às notícias, saia e converse com os seus amigos. E ler, não gosta de ler? Os livros podem escolher-se de acordo com as preferências.

– Pois, tem razão. Li, não há muito tempo, aquele livro da Mona Lisa. Quer dizer, não me lembro do nome, tinha era a Mona Lisa na capa. Um livro que deu muito que falar e vão fazer um filme sobre ele.

– Ah! O Código Da Vinci, de Dan Brown!

– Esse mesmo. Mas não sei porque é que o livro teve tanta saída, doutor. É certo que o li depressa porque estava curioso em saber a história toda. Mas no final do livro o homem refugia-se numas evasivas, umas insinuações vagas, e nem sequer tem um “happy end” entre o galã e a galona, desculpe a expressão.

– Pois! Sabe, o livro teve uma promoção, “marketing” com se diz agora, e as pessoas vão atrás disso. Basta que alguém comece a dizer que gostou ou mesmo que não gostou, logo aparecem outras a contradizer, gera-se logo uma questão sobre a qual se tem que tomar partido, uns a favor, outros contra e quem sai a ganhar são os que conhecem a psicologia humana. Neste caso o autor, os editores, as livrarias, etc..

– Se me prescrevesse então um livro, talvez não fosse má ideia.

– Já leu o Cândido de Voltaire?

– Voltaire?

– Voltaire foi um pseudónimo. Ele chamava-se François-Marie Arouet, filho de um notário de Châtelet que nasceu em Paris, no final do séc. XVII. Cursou num colégio de jesuítas e pretendia seguir a magistratura. Depois meteu-se na política e foi preso na Bastilha. Sabe? Tornou-se escritor. Escreveu muitas coisas, mas esse escrito, Cândido, é uma das suas melhores peças. Vale a pena. Até fala do terramoto de Lisboa, em 1755.

– Vou ver se encontro.

– Sim… não deve ser fácil! Mas procure.

– Não calcula, doutor, como me sinto melhor com a consulta. E se não encontrar esse, tem outro que me possa recomendar?

– Fernando Pessoa. Aliás, pode tomar Fernando Pessoa a qualquer hora. Conhece “A Tabacaria”? “ O Menino de Sua Mãe”? “Cruzou por mim…”? A esse, encontra-o de certeza. Pode ainda procurar “Pátria” de Guerra Junqueiro ou “A Queda de um Anjo” de Camilo Castelo Branco. Mas não confunda com esse maricas que anda por aí e que, se calhar, já tem livro também: “A Ascensão dos Demónios”, quem sabe?

– De todos os demónios, doutor, todos. Mas já é suficiente. Já tenho livros que cheguem. Pelo menos, até à minha próxima consulta. Devo lê-los antes ou depois das refeições?

– De preferência, entre as refeições. Nunca leia logo antes, nem durante ou logo depois das refeições. Dedique tempo aos seus familiares. Como referiu no início da consulta, não tem que temer por vê-los envolvidos em situações parecidas às que mostram na televisão.

– Pudera, doutor! Perdi toda a minha família num desastre de automóvel. Importa-se que o adopte, agora, como meu filho? Ele também me dava boas sugestões de leitura.

– Lamento muito, pela perda. Não admira que esteja, pois, nesse estado. Por outro lado, pode ficar descansado: afinal não está com uma depressão, mas com uma simples tristeza. Vou retirar-lhe um dos medicamentos, o Cândido de Voltaire. Até breve!

Henrique Sousa

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