Simplicíssimo

Privação de Sentidos

Encontrei-a noutro dia, por acaso, e a surpresa deixou-me estático. Ela sempre fora linda, eu me lembrava muito bem, mas nada poderia ter-me preparado praquela exuberância. Vestindo vermelho, apareceu do nada e enlaçou-me o pescoço, exclamando docemente o meu nome. Fui envolvido pelo perfume acre, com cheiro de mato, de vida, de calor vaporoso. Cheiro que dava vontade de morder. Que me invadiu as narinas e tomou o corpo todo, feito droga poderosa. O contato com a pele morena equivaleu a descarga elétrica, eriçando-me os pêlos e retesando cada músculo. Lembrei de sentir o corpo sinuoso sob o meu, de lhe arrancar gemidos urgentes, de me dissolver dentro dela. Pareceu que nós lembrávamos da mesma coisa. Sorrindo maliciosa, deu um passo atrás e encarou-me com os olhos escuros e profundos, onde tantas vezes tinha me perdido. Umedeceu os lábios lentamente com a língua, desafiando-me. Ela sempre tivera consciência do próprio poder e queria a confirmação de que eu continuava cativo, depois de todo aquele tempo. Aproximou-se e acariciou minha barba com a mão macia. Senti meu coração migrar do peito pra virilha, latejando dum jeito quase doloroso. Fechei os olhos por um instante, tentando me recordar do motivo pelo qual tínhamos terminado. Em vão. E ainda tentava lembrar quando ela tomou meus lábios com gana, fazendo-me esquecer até de quem eu era. O motivo que fosse era insignificante. Só importavam ela e o meu coração. Latejando.

Livia Santana

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