SIMBIOSE

Ela tornou-o vivo, ele fê-la sentir-se limpa. Aprenderam a ver de outros jeitos. Compartilharam lágrimas, risadas e a maioria dos pensamentos. Amaram-se com sofreguidão. Passaram horas e anos entrelaçados. Apoiaram-se e feriram-se. Amigos, eram perfeitos. Amantes, eram medíocres. Houve pequenas traições. Às promessas, às expectativas, à monogamia. Estavam juntos há muito tempo, desde que eram pouco mais que crianças. Ele, tímido, inseguro, atormentado. Ela, despachada e confiante. Ele era franco e idealista. Ela sempre sorria. Cru, ele levava a vida em teoria. Ela, a despeito de ter a mesma idade, tinha visto coisas demais. Ele se afligia. Ela não parecia se importar. Os olhos dele interrogavam. Os dela, pestanejavam. Eram facetas diferentes do mesmo mundo. Ambos irradiavam a energia imensa e estúpida da adolescência. Ele começaria a viver a partir dali, ela estava cansada. Alguma congruência: eram inteligentes e tristes. E novamente divergiam: ele ostentava, ela dissimulava. A ele tratavam como aberração, a ela como pedaço de carne. Típicos. Conheceram-se dum jeito nada especial, num dia comum. Conversaram, mediram-se, beijaram-se. Ela nada esperava dele. Ele não sabia o que esperar dela. A reputação dela era péssima. Ele procurava desesperadamente algo em que acreditar. Ele quis dar-lhe o mundo. Ela almejou estar à altura dele. Colocou-o no colo. Colocou-a num pedestal. Faria-a feliz. Viveria para ele. Fundiram-se. Não estariam mais solitários e sempre haveria então um motivo. Ela tornou-o vivo, ele fê-la sentir-se limpa. Aprenderam a ver de outros jeitos. Compartilharam lágrimas, risadas e a maioria dos pensamentos. Amaram-se com sofreguidão. Passaram horas e anos entrelaçados. Apoiaram-se e feriram-se. Amigos, eram perfeitos. Amantes, eram medíocres. Houve pequenas traições. Às promessas, às expectativas, à monogamia. Não sabiam viver de outro modo. Quase repulsa e quase adoração. Ele era dependente. Ela ressentia-se desse peso, mas sentia-se responsável por ele  nunca achara que o merecia. Ele parecia tão perdido quanto antes. Sofria, temia perdê-la. Ela faria qualquer coisa para salvá-los. Algo saíra muito errado e cabia a ela consertar. Desprezou o tempo: engoliu em seco as angústias e voltou a adolescer. Riu alto, alegre e leviana, como no começo. Os olhos dele marejaram-se, saudosos. Mas ela não deixaria que ele estragasse tudo de novo. Arrastou-o pra cama e deu-lhe a dose de sujeira que ele sempre precisara, pra entender muita coisa.