Simplicíssimo

A negra Jaci

A luz tremeluzente do lampião sobre a mesa rude deixava o negro como se fosse uma imagem em preto e branco, recortada no centro da cozinha. Comia mogango com leite e chupava a colher fazendo um barulhinho chiado, e enquanto comia contou que quando vinha pela estrada velha, mais ou menos à altura do pé de plátano, o tordilho marchador se assustou com alguma coisa, tastavilhou e o tirou de cima do lombo, e que quando ele estava tentando se aprumar apareceu-lhe a aparição da negra Jaci.
– A negra Jaci? – perguntou Sinhá Pitoca escorada na pia.
– Pois não lhe digo? – respondeu meio que interrogando, o negro.
– Mas e o que ela haveria de querer contigo? – tornou a perguntar Sinhá Pitoca.
– E eu sei lá Sinhá. Não fiquei lá pra saber. Me afirmei nos estribos e aqui estou.
Parece que o negro fazia de propósito: dava pequenas pausas com a colher cheia de leite, no ar, e enquanto fazia biquinho para chupá-la, olhava pra mim, arregalando bem os olhos amarelados.
– Só sei que quando galopava pra cá ainda senti uma fungada gelada no cangote – prosseguiu.
– Credo-em-cruz-ave-maria – disse como num suspiro e persignando-se Sinhá Pitoca.
Nessa noite tive medo de dormir solito. Enfiei-me sob o bichará, e como um filhotinho de guaipeca me aninhei no braço forte e aconchegante do pai, que ressonava, exalando um leve cheiro de cachaça. Adormeci.

Cláudio B. Carlos (CC)

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