Simplicíssimo

Houve uma época dourada…

Sempre temos algum pesadelo. Pensamentos que rondam o subconsciente e vão preenchendo as lacunas sem que percebamos. Até que em determinado momento transbordam, inundam o mundo real e passa-se a viver em função deles, pelo menos até que as emoções voltem a níveis toleráveis e possam ser controladas pela razão. A racionalidade assume e passa ela a questionar o porquê do seu retorno ao poder, se não poderia continuar com os sentimentos no controle. Instinto puro, irracionalidade total…
Era domingo. Nesse dia, podia apenas apreciar a minha vizinha ao longe. O pai e o namorado estavam em casa. Nesses dias de concorrência desleal, subia até o terraço de casa e ficava lendo algum livro, lembrando de seu rosto maravilhoso, suas pernas roliças, compridas e bem torneadas. O dia passava e meus pensamentos viajavam por todo seu corpo, pelas palavras que haveria de escutar e pelos suspiros que deveria arrancar-lhe. Enquanto a realidade me priva desses momentos, fico a divertir-me com os pensamentos, doces ilusões que nublam minha mente e fazem meus 15 anos serem vistos como 20, com todas as liberdades concernentes à idade. Naquele final de tarde, o tempo mudou bruscamente. O temporal que se abateu sobre nossa cidade, era como uma cortina que se abria em meios às luzes para que eu vislumbrasse, através da janela, o palco onde a cena principal de minha vida estava se passando.
A chuva diminuíra durante a noite. Ao sair, para ir à aula, esperei, como sempre fazia, minha vizinha sair. Seu namorado veio buscá-la de carro, uma decepção, já no início da semana… Não me restava outra opção se não tomar o rumo da escola e aproveitar mais vinte minutos de caminhada com minhas divagações eróticas. Quando entrei na avenida que levava até minha escola, avistei o carro parado a umas 3 quadras adiante. Exitei. Não sabia se apertava o passo ou diminuía. Continuei normalmente e quando estava há uns 2 metros do carro vi ela saltando, com sua saia levantada, uma lágrima no rosto e a pasta sendo colocada imediatamente sobre a cabeça, protegendo-a da chuva, enquanto a saia caía docemente sobre suas pernas. No instante seguinte, abre-se um pedaço do vidro do carro e voa uma calcinha pelo ar. A identifiquei. Era parecida com as de minha irmã, embora as da minha irmã fossem bem mais comportadas. Talvez por minha irmã ser um ano mais velha e já estar na faculdade. Antes de arrancar, o namorado ainda gritou:
– Nunca mais quero te ver, sua vaca!
E foi-se embora.
Ao perceber que eu estava perto, próximo demais para fingir que não vira o que acabou de acontecer, dirigiu-se a mim:
– Oi, Mingau!, me dá uma carona de guarda-chuva até a escola?
– Claro. Respondi imediatamente. Mingau, era o apelido que havia ganho nos jogos de futebol e que acabou me identificando com todos, por jogar no time do colégio.
– Visse o que aquele idiota fez comigo, não é mesmo?
– É… Acho que vi.
Não sabia o que dizer. Horas e horas perdidas com minha imaginação, tantas palavras bonitas dialogadas na ilusão e agora só saía isso.
– Não liga para ele. Para mim era só mais um.
Mesmo para um guri de 15 anos foi fácil ver que mentia. Mesmo sendo a guria mais bonita do colégio aquele ignorante havia magoado ela. Dava para ver seus olhos vermelhos, mas o que mais me chamava a atenção era o cheiro que exalava. Ah!, aquele odor ofuscava meus olhos, turvava meus pensamentos e acabei abraçando-me a ela. Um pouco mais alta que eu, arrumou meu braço bem acima de suas nádegas. Eu tropecei. Agarrei-me a ela tão forte que ela fez algum comentário que não ouvi, mas consenti. No mesmo instante ela dobrou a esquina. Estávamos a uma quadra do colégio. Ela apressou o passo, abriu um portão de uma casa a meia quadra dali e entramos. Meu coração acelerou tanto que não conseguia ouvir mais nada. Ela, então, pegou minha mão e colocou entre suas pernas. Foi subindo e descendo, alisando sua pele. De repente, subiu bruscamente. Meu dedo indicador deslizou, rodeou e penetrou. Ela se contorceu, fechou os olhos e me beijou. Nesse instante, abraçado a ela, não pude conter a ejaculação, o gemido e o rubor. A vergonha me impedia de olhá-la nos olhos, mas ela ergueu minha face para que visse seu largo sorriso. Deu-me mais um beijo e pediu para que aguardasse alguns minutos antes de sair. Arrumou-se e partiu rumo à escola. Eu fiquei a admirando e admirado de tudo que havia acontecido. Limpei-me e saí, novamente rumo à escola.
Cheguei um pouco atrasado, mas o inspetor me liberou por ser seu conhecido e não ser reincidente no fato. Ao passar pela secretária a vi lá dentro. Ao me ver, veio em minha direção e disse:
– Passa lá em casa hoje à noite que meus pais vão sair para jantar fora. Me deu tchauzinho e voltou para dentro.
Fiquei sentado durante a manhã inteira, excessão feita ao recreio quando saí e fui gozado por todos. Perceberam as marcas na calça e começaram a me chamar de Mijão. Não liguei. Normalmente brigaria com todos, mas estava extenuado demais. Ignorei. As aulas passaram e mesmo copiando não aprendi nada, não conseguia me concentrar, simplesmente. E estava adorando a sensação. No final da manhã já me sentia diferente, mais forte que o normal, senhor de mim mesmo, olhava a todos com um quê de superioridade. Aguardei a tarde passar em casa, deitado. Não fui ao treino do time, não fiz as tarefas. Fiquei a imaginar…
À noite, estranhando meu comportamento, minha mãe indagou-me a respeito.
– Que tu tens, guri? Estás meio paradão hoje?
– Nada, não, mãe. Ah, aproveito para falar que vou na casa do João Antônio hoje à noite. Talvez até durma por lá ou fique até mais tarde. Tudo bem?
– Tá, tudo bem. Respondeu ela, como quem diz "acha que me engana, esse guri!".
Esperei o vizinho sair. Já tinha escurecido há horas e nada deles irem jantar. De repente, acenderam a luz da garagem. Logo em seguida, vi o carro saindo. E agora, tinha que ir até lá. Voltei para dentro de casa, nem banho havia tomado. Corri para o chuveiro. Coloquei uma bermuda nova, passei desodorante, acenei e corri através da cozinha para que minha mãe não sentisse o cheiro. Fiz a volta na quadra para que pensasse que tinha ido na direção da casa do João Antônio e cheguei ao portão da casa ao lado da minha pelo caminho mais longo. Abri, aproximei-me da porta e bati. O alvoroço do lado de dentro foi facilmente percebido. Logo ela veio espiar no olho mágico e abriu uma fresta na porta, colocando só o rosto à vista.
– Olha, não vai dar para a gente estudar hoje Mingau. Estou ocupada agora.
– Manda esse piá embora logo. Era a voz do namorado dela, a reconheceria em qualquer lugar. Ela ainda tentou remendar.
– Outra hora eu prometo que a gente pode estudar. É só ter paciência, tá?
Eu consenti, baixei a cabeça e voltei para casa.
Dias depois, ela veio falar comigo durante o recreio. Despistei rápido e disse que outra hora conversávamos. Meu amigo João Antônio ficou boquiaberto e perguntou logo:
– Bah, o que ela podia querer contigo?
– Ah, nada. Ela é só uma vadia mesmo!

Mauro Rodrigues

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