Simplicíssimo

50

 Acordou com aquele gosto característico de guarda-chuva na boca. Amargo, metálico, desagradável. Que insiste em continuar não importa o que se faça. Sequer tinha bebido muito. A grana, que rareava, o obrigava a tomar coisas mais baratas, vagabundas. O conhaque descia rasgando, destruindo a parede da garganta. As ressacas eram cada vez piores e mais demoradas. Já fazia tempo que não prometia que não faria isto novamente. Faria. Hoje mesmo. E muitas vezes mais. Tinha cansado de se enganar. Aceitava os vícios com a resignação de um cachorro.

 

 

Pegou a última cigarrilha do cartucho. Acendeu cambaleante enquanto esquentava um café forte do dia interior. Era o desjejum. Completo com duas torradas com geléia de pimenta e um pedaço de pão de cebola. A geléia era ele mesmo que fazia: pimenta malagueta, biquinho e habanero. Açúcar mascavo, amido de milho e água. Mexia até dar o ponto. Só o cheiro já servia para desobstruir.

 

 

Enquanto saboreava o primeiro cigarro e o primeiro café do dia olhava para a ainda deliciosa bunda da esposa deitada na cama, desfrutando o sono de uma boa foda como há tempos não tinham. Não era só a idade ou o comodismo, os problemas banais de uma vida comum como a da maioria. A falta de tesão de um pelo outro, a inevitável rotina, as idas e vindas, as brigas homéricas. Tudo convergia contra a relação. E o sexo agonizava. Quando acontecia, era aquela transa quieta, protocolar. Sem cheiro, sem gosto, sem lambança.

 

 

Aquele dia não. Depois de uns bons 7 anos ignoraram todas as frustrações e treparam como se estivessem apaixonados novamente. Como dois animais sedentos. Uma volúpia desenfreada, com tudo que gostavam mas tinham deixado de fazer. Silvia gozou 3 vezes. Carlos adorou sentir a cama encharcada, podendo dormir no gozo gostoso de sua mulher. Por um momento se sentiram conectados. Um momento Primal Scream em meio a muito Nick Drake.

 

 

Quem foi ensinado a não vomitar pela janela…

 

 

Quem foi traído pela equipe autorizada…

 

 

Quem se apaixonou pelo suporte técnico…

 

 

Quem dormia para evitar a realidade…

 

 

Quem foi abandonado na porta da escola…

 

 

Quem deixou a comida estragar…

 

 

 

 

Carlos não gostava do que via. Os pelos brancos e as camadas de pele sobressalentes. A barriga proeminente e as dezenas de marcas no rosto. A virilidade já não era a mesma. Tampouco a paciência e a vontade de se cuidar. Era contador. E apesar do serviço não ser exatamente a coisa mais empolgante do mundo, dava um dinheiro razoável no fim do mês. Razoável se não gastasse mais com putas do que deveria. Pouco importava, pensava ele. Seus amigos também não estavam muito bem. Um ou outro conseguia manter aquela felicidade adiposa e soporífera que conhecera tão bem.

 

 

Claudia se virava como professora de história. E não resistia a devorar alguns alunos mais chegados. A faculdade estava repleta deles. E ela aproveitava com gosto. Ainda era bela, 10 anos mais nova que Carlos, com os seios consideravelmente rijos, pernas grossas, uma bunda de fazer inveja a muita menininha. E, sobretudo, sabia usar muito bem os trunfos que tinha. O casamento, para os dois, era mera convenção. Cada um fingia não saber da vida extra-conjugal do outro. E estavam bem assim. Se gostavam, o ciúme não existia e já não tinham vontade alguma de passar por todos os trâmites de uma separação.

 

 

As famílias eram ordinárias como todas as outras. Um sogro bonachão, uma sogra problemática, 1 ou 2 primos viciados em cocaína, cada um curtindo sua decadência mais ou menos explícita. Carlos gostava de se reunir com os amigos de sempre no boteco de sempre. A vida não era ruim. Só prosaicamente besta.

 

 

Não tiveram filhos. Trabalho demais. Dinheiro demais. Eram melhores no seu egoísmo. E o mundo já tinha gente o suficiente, afinal. Sempre viviam com aquela expectativa risível da classe média em sair da metrópole e viver numa gostosa cidade do interior. Nunca aconteceria. E sabiam que, se fossem, seriam infelizes. É a expectativa da coisa em si que alimenta uma utopia agradável, não a sua realização.

 

 

Eu sei exatamente o que fazer comigo mesmo…

 

 

Tudo está destruído e não há nenhuma vontade em consertar…

 

 

A fumaça desaparecia no horizonte…

 

 

Dois gatos copulavam no andar de baixo…

 

 

A chuva caía fina, uma música desagradável vinha não se sabia de onde…

 

 

Se sentia realmente enfarado do amor…

 

Carlos olhava com graça um casal de namorados na janela em frente. Na TV dos dois algum faroeste italiano podia ser perceptível. Uma garrafa de pinot noir estava derrubada em cima da mesa. O fumo acabava. Foi dormir. Estava prestes a completar 50.

Maurício Angelo

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