Simplicíssimo

Consciência

O que não consegues compreender é que, para mim, não existe vida sem inteligência. Ou melhor, não a inteligência em si, por que, como poderíamos defini-la e mensurá-la? Mas a consciência das coisas. E isto, como tudo que é grande na vida, não se calcula ou estabelece, se sente. É um constante sentir, um constante observar. Há, claro, a inteligência para viver miseravelmente, o instinto de sobrevida que nos assola, a resignação inescapável. Assim como o tato para as coisas pútridas, o sentimento para o que é feio, bruto, indizível, cruel, ausente de justiça. Pode-se compreender tudo isto: até aceitá-las, praticá-las, amá-las.

A existência pelo instinto de existir pode ser bela. A exemplo da força amorfa que me provém o sustento também o é. E pode-se existir verdadeiramente sem esta consciência. Claro, seria tolo se não o admitisse. Estas pessoas podem possuir uma vida infinitamente mais real, feliz e agradável que a minha. 

Todavia, é curioso que não as invejo. E não as invejo porque já apreciei as duas variáveis: o campo e a cidade, o quente e o frio, o duro e o confortável, a ruína e o reconhecimento, a indiferença e o amor, o pai e a mãe. Já entreguei-me ao erro e ao ponderado, ao torpe e ao sóbrio, à violência e à mansidão. Pode-se existir ativamente com tudo isso, mas não se pode viver. Só se vive com a consciência. E por isso se sofre, se indigna, se revolta, se busca, se constrói. 

Só a consciência nos permite apreciar as infinitas facetas do universo. Ela, apesar de olhar feito, é também o olhar inocente, aguçado. 

 

Maurício Angelo

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