Simplicíssimo

A Little Nothing

Henry daria a vida por um par de seios. Nunca tinha dito “eu te amo” verdadeiramente. Todos dizem, afinal. Sabia que nenhuma mulher, presente ou futura, poderia dar-lhe o que tivera no passado. Homesick. A nostalgia sempre é mais encantadora que a realidade.

Em verdade, passava o tempo enganando mocinhas incautas. Levava tão a sério o carpe diem que já esquecera seu significado. Usava drogas apenas estrategicamente. Como era fácil, e tediosa, a sedução. Aqueles joguinhos o enfastiavam sobretudo. Descobrir como cada uma se comportava na cama, o jeito que gemiam, as expressões que entregavam, as taras, a intimidade, as idiossincrasias. Só por este prazer que ele se submetia às etapas anteriores. Noivou três vezes. “Você não imagina o que elas fazem quando confiam na gente”.

Detestava gays, lésbicas, negros, imigrantes, asiáticos e – sempre o afirmava – toda a “escória” do mundo. Pouco se importava com o que pensassem dele. “Posso provar o quanto são nojentos”, disse-me uma vez. Nunca conseguiu. Seu pai não o abusara na infância, jamais tivera qualquer restrição material, não padecia de nenhuma doença. Levava uma vida confortável, graciosamente burguesa, a desgastar-se de bar em bar. Como compete aos pseudo-desasjustados, não criava relações: era sozinho com suas amantes fugazes e sua garrafa de whisky, que odiava, mas tinha se acostumado a ela. Desenvolvera diversos hábitos, nunca vícios ou obrigações. Ególatra quando queria, preguiçoso no resto do tempo. Dizia sempre, em tom profético: “inseguros são os que não sabem gozar a vida”.

Lia Nietzsche, Dostoiévsky, Poe, Whitman, Shakespeare: um intelectual pop. Nunca entendera nenhuma palavra. Tinha medo dos pobres. Tatuara “keep walking” na nuca aos 18, bancou o machão até os 45. Se especializara em roubar as prostitutas, apenas por diversão. Vez ou outra entrava numa igreja para “pedir perdão pelos pecados”. Achava que assim estava livre para cometer tudo outra vez. Não era de todo mau, dava esmolas sempre que podia. Ainda que desconhecesse o motivo, gostava dos políticos de seu país. Mantinha as tradições. Era exemplar, fiel, sóbrio, patriota.

Morreu espancado por sete mendigos ao voltar para casa numa madrugada qualquer.

Maurício Angelo

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