Simplicíssimo

Ontem (4)

2007-01-31

Como prometi ontem, vou revelar-vos a ideia que me surgiu na
sequência das minhas divagações altamente científicas, baseadas em
teorias da tintura iniciadas pelo tio Smith, que outros tios aproveitaram
para justificar a perpetuação da escravatura, embora lhe tenham
mudado o nome para não chocar demasiado as consciências dos
escravos que, quer se queira quer não, estão hoje um nadinha mais
despertas que há 200 anos atrás.
Evita-se o termo escravatura, substituído por designações como
trabalhadores por conta de outrem, massas assalariadas, funcionalismo
público, staff, etc.. É certo que alguns escravos de hoje conseguem ter
uma vida bem melhor que os de antigamente, isso graças ao avanço da
técnica que permite fazer uso da energia existente na natureza para
substituir o trabalho humano, perdão, escravo.
Por acaso já se deram ao cuidado de pensar como passaríam os
escravos a viver se a electricidade, o gás, o petróleo e o carvão
acabassem e não tivéssemos redes de distribuição de outras formas de
energia alternativas? Já pensaram que sem energia nem sequer água
haveria nas torneiras em nossas casas? Teríamos que despender muito
mais esforço físico para as tarefas do dia-a-dia, lavar a roupa à mão,
acarretar lenha, transportar água, comida, aquecer a água para o
banho, etc. e tal. Adeus televisão, adeus cinema, adeus transportes
motorizados, adeus viagens. Costumo dizer que, sem energia, as
sociedades que se arrogam de civilizadas mergulhariam na mais
profunda barbárie. Algumas técnicas que apurámos mercê da
abundância energética em que andamos a rebolar poderiam ajudar a
desenvolver soluções menos trabalhosas que as que se usavam
antigamente, mas um corte abrupto das fontes energéticas implantaria
o caos nas nossas vidas e na dos tios todos. Um simples apagão é logo
aproveitado para roubar e pilhar… Se agora a criminalidade já é o que
é, com tendência a piorar, quanto mais se a energia acabar. E os tios
não sabem disso? Claro que sabem, e sabem que uma das formas de se
protegerem é ir tentando manter as coisas de modo a que não sejam
engolidos também no caos. Precisam ter controle sobre a energia e
sobre os escravos. Ora, se a energia tende a escassear, o número de
escravos tem que, forçosamente, diminuir. Como? Já ouviram falar da
cultura da morte? Aborto? Eugenia? Eutanásia? Planeamento familiar?
Ora aí está!
A ciência da tintura reclama os seus mártires, os heróis são os
tenazes combatentes da CULTURA DA MORTE.

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2007-02-01

Encontrei o JSS ontem de manhã, andava ele a ver se fazia pela
tintura a arrumar carros no centro de Leiria. Mal me viu fez tenção de
fugir, mas fiz-lhe um sinal de que nada havia a temer e ele acabou por
me dar troco.
– Como vai isso? – perguntei-lhe.
– Mal, muito mal. Já me vejo aflito para sacar tintura à malta. A
maioria finge que não me vê, coitados, não os levo a mal porque agora
já só há parqueamentos pagos e resolveram encurtar os tempos de
estacionamento. Anda tudo em stress para não deixar passar o período,
e a bófia não perdoa.
– E os frascos de tintura?
– Continuam no mesmo sítio que eu te disse. Isso, se vocês não
foram já lá buscá-los.
– Alguém mais te contactou?
– Não! Porquê?
– Por nada! Só queria saber se a máfia do Betadine também anda
metida nisto.
– Não, os gajos do Betadine andam com negócios mas é fora do
país, mas a mando da máfia da tintura de que eles são apenas lacaios.
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– Ai é? E pode-se saber onde?
– Não lês os jornais? Não vês a televisão? Os gajos andam pela
China…
– Ah, pois! Um tal de M. Pinho que foi com o JS anda a sair-se
muito bem.
– Ah! Sempre sabes alguma coisa, afinal. Ouve lá, e já decifraste o
enigma?
– Estou a fazer progressos. Estou já convencido que a tintura não
se encontra em Leiria. Aliás, a tintura tem tendência a concentrar-se
nas capitais. Estive em Lisboa e já tenho alguns cúmplices no encalço
da maldita.
– Espero que seja gente de confiança… Bem, vocês da máfia da
tintura são muito unidos.
– Quer me parecer que são de confiança. Mas a malta de hoje em
dia é tramada para a tintura. Mal se apanham com ela, podem virar a
casaca e passam a fazer parte da máfia. No outro dia, um colega meu
em quem eu depositava muita confiança, professor de Química,
descobriu por meu intermédio o segredo da preparação da tintura e
fechou-se em copas. O gajo diz que se acabou o iodo no laboratório. Eu
finjo que acredito e que me desinteressei do assunto para que ele não
me denuncie à máfia. Passou-se para o lado deles.
– O quê? Então tu não és da máfia? Ainda bem, pá, ainda bem.
Foi um deslize da minha parte, mas prefiro até ter o JSS do meu
lado do que deixá-lo convencido de que eu pertenço à máfia. Podia ser
que ele, assim, se abrisse mais comigo. Dito e feito:
– Sabes, pá, foi tudo invenção minha. Não havia tintura alguma,
aliás, acabou-se-me a tintura por completo. Ela anda agora tão
arredada que é como procurar agulha num palheiro. Eu, se fosse a ti,
desistia de procurar. A coisa é assim: a malta anda toda atrás da
tintura, mas ela é tão rara que quando alguém consegue alguma e a
consegue fazer render, fecha-se em copas e ardeu. Não viste o que se
passou com o teu colega? Todos os que descobrem o segredo da
tintura, passam-se para a máfia. São raros os que perseguem objectivos
nobres diferentes dos da máfia. Talvez uma excepção seja aquele gajo
que ganhou o prémio Nobel da Paz no ano passado mas que devia ser
o Prémio Nobel da Tintura. Como é que ele se chama?
– Muhammad Yunus?
– Esse mesmo! 

Henrique Sousa

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