Simplicíssimo

As Desafinidades Eletivas

Digno de se considerar é o fato de termos no mundo tantos adoradores da discórdia. Ouso dizer que é maior o número dos que estão sempre ávidos por uma discussão espinhosa, se compararmos com os seres humanos ponderados.
 Ah, os grosseiros embates verbais!… As idéias desfilam como adagas, os corações palpitam, a bile borbulha e transpira pelos poros, os cordatos vão saindo de fininho… Doce violência verbal…
O Discordante Habitual normalmente precisa de muito pouco para eleger sua vítima. Basta que esta diga umas poucas palavras: o Discordante as pega, separa do contexto original, distorce o sentido e devolve ao interlocutor com a graciosidade de quem vomita sangue. Sangue com suco gástrico e secreção biliar.
Evidentemente a vítima não assiste imóvel ao espetáculo. “Mas o quê?! Deixar que o fulano arrase com as minhas idéias? Vai ver só!”. Na seqüência, a vítima retribui na mesma moeda e se torna também um agressor.
Procedendo assim, algumas curiosidades se formam: pessoas que discutem raivosamente, embora claramente tenham a mesmíssima opinião sobre o assunto em pauta; pessoas que já viram que não têm razão mas que continuam a brigar, só para não perder; inimizades terríveis e eternas surgindo de debates originalmente triviais; pessoas que passam a defender idéias com as quais não compactuam, só para desaforar o outro. “É duro, mas é queijo”, diz a véia comendo sabão…
Não há nada que machuque mais profundamente alguém do que o ataque direto a uma crença desta pessoa. E quando somos atacados, o revide é igualmente inútil. O contra-ataque faz o outro cerrar ainda mais sua posição, os ânimos ficam tensos e… Puxa, faz um mal danado ficar sentindo raiva e no combate a coisa só piora. Atentem para a pulsação acelerada, a respiração funda e difícil, o nó no estômago, os tremores de extremidades, os olhos espremidos, a tensão mandibular, as mãos, costas e ombros tensos…  
A grande sacada é que não se pode vencer uma discussão. Nunca nenhum lado sai vencedor. O bom debate é sempre cordial, com ambos os lados demonstrando genuíno interesse pelo ponto de vista do outro e se esforçando para respeitá-lo, com bom coração. Esta atitude constrói grandes idéias pois, assim, os cérebros podem se enriquecer e corrigir uns aos outros. Constrói também grandes associações e grandes amizades. Os argumentos já não se anulam como pares de partícula/antipartícula, mas se conformam entre si, sintetizando avanços, ao invés de impasses.

 

 

Antes que algum proctologista se manifeste, quando falei em “machucar profundamente”, me referi apenas aos sentimentos e emoções. Devo admitir que ainda a briga verbal é muito melhor que a empalação…
Chega de eleger inimigos! Vamos eleger mais amigos! (também aqui, no campo dos afetos: nada a ver com as eleições políticas).

 

Luiz Eduardo.

 

Luiz Eduardo Ulrich

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