Simplicíssimo

Israel, Hamas, um Elogio, e um Manifesto Tenebroso

Desejo hoje realizar uma apologia e tecer alguns comentários. Apologia do magnífico texto

"Sobre a guerra de Israel contra o Hamas em Gaza", de autoria do brilhante filósofo Cesar Kiraly. Os comentários que farei são sobre trechos do texto, e outras idéias que porventura me ocorram.
Primeiro o elogio: senhores, se desejam ler um texto lúcido, pleno de verdades sobre o confronto de Israel com o Hamas, leiam o referido texto. Friso o termo "verdades" porque o que lá se encontra não são meras opiniões. Opiniões sobre o assunto, temos várias, em excesso, por toda a mídia, a maioria fazendo referências irresponsáveis e tendenciosas. Mas o que o autor se esforça por fazer é uma avaliação moderada, equilibrada, realista dos eventos, buscando a verdade que há neles, coisa rara de se ver hoje em dia, mesmo entre meios supostamente letrados. Os que se interessam pelo tema deveriam ler
"Sobre a guerra de Israel contra o Hamas em Gaza", pois sua escrita é uma preciosidade, e os senhores não vão encontrar muitos comentaristas na mídia que atinjam o mesmo nível de qualidade.
Vamos às citações e comentários:

"Assim, devo dizer que a humanidade terá muito do que se desculpar – essa esperança é um pouco tola, porque estamos a aguardar o pedido de desculpa pela Shoá, e o mais próximo disso são as acusações – e piadas de cunho anti-semita – de que os judeus sentem prazer com a guerra – depois de acabados os eventos."

Basta ver-se que em toda a notícia que se publica sobre o assunto, os jornalistas fazem questão de exibir o placar de mortos, dando um destaque todo especial ao fato de que poucos israelenses morreram, e deixando subentendido um sentimento de escândalo pelo número de vítimas palestinas. Puxa vida, mas guerra agora é assim? Para ser considerada "proporcional", igual número de pessoas deve morrer em ambos os lados? O termo "reação desproporcional" fartamente papagaido pela mídia, é totalmente ilógico, e deixa implícita uma acusação de sadismo – ou "prazer com a guerra" – absolutamente injusta. Os militares do Hamas é que deveriam avaliar melhor a situação antes de lançar-se a uma guerra perdida. Que resposta vocês acham que o Hamas receberia se fizesse fronteira com a Rússia, e decidisse lançar foguetes no território russo? Putin responderia com afagos e medidas socioeducativas?

"A ignorância com que se fala da guerra não se justifica por nada, até porque as grandes guerras que assolaram o continente europeu e que envolveram os continentes americanos, não estão tão distantes assim de nós. Deveríamos de alguma forma, saber falar da guerra, não como uma estranha completa em nossas vidas pacíficas, mas como um componente constante, e hediondo, da constituição de nossas civilizações."

Tenho a impressão até de que há um desejo na mídia de falar de guerra "com ignorância", pois isso facilita sobremaneira a tarefa jornalística de atacar Israel, independentemente das razões e condições reais do conflito. De qualquer modo, o autor continua o texto explicando de que tipo de guerra se trata, e clareando a compreensão sobre dados históricos da formação do estado de Israel, e as vicissitudes bélicas em que este se viu lançado, desde sua formação, e que sempre visaram a consolidação de sua soberania. Sem conquistar e garantir soberania, afinal de contas, não há como se manter um país – menos ainda cercado de inimigos por todos os lados.

"A idéia de uma guerra de conquista é odiosa – e todos sabemos disso – contudo as estruturas colocadas pelas soberanias do mundo não são outras. Brasileiros de todas as cores ignoram o fato de que travaram guerras de conquista contra os povos indígenas, da mesma forma como os australianos e os americanos do Norte. Não precisamos dizer que a geografia política da Europa se deve a guerras de conquista bastante cruentas."

É muito fácil e cômodo julgarmos a situação conforme nossas convicções, crenças e pelas opiniões catadas do éter do espaço, sem nos darmos o menor trabalho de entender do que estamos falando. É a diferença entre pensar que temos juízo crítico, e realmente possuí-lo – possuir juízo é coisa rara, a se dar crédito ao que ensina Schopenhauer. A comparação com o passado brasileiro, australiano e norte-americano vai direto à trave que precisamos tirar de nosso próprio olho. E não adianta responsabilizar os poderosos, os imperialistas portugueses, os fundamentalistas bandeirantes ou o Banco Mundial: para usarmos o mesmo peso e a mesma medida, temos que devolver todo o nosso território aos índios, e ainda lhes pagar polpudíssimas indenizações.

"Mas ao compararmos todos esses modelos de guerra de conquista percebemos que a guerra de conquista travada por Israel contra os Palestinos é de um tipo diferente. Porque dificilmente um conquistador interrompe a sua conquista por motivos morais. Os conquistadores se possuem poder não recuam os seus processos de guerra, mas avançam, porque conquistar é melhor do que ser conquistado. Israel não só interrompe seu processo de conquista como auxilia o processo político da consolidação política dos territórios que não deseja conquistar." (grifo meu)

Entre fazer guerra contra russos ou israelenses, caso eu fosse forçado, não tenham dúvidas, eu avançaria contra Israel. O motivo é o grifado acima. Não há inimigo de guerra melhor que Israel. Talvez por isso a Rússia esteja avançando sobre o Oceano Ártico, declaradamente tomando posse do Pólo Norte, sem receber nenhum pito da imprensa internacional.

"Os comentaristas, por mais equivocados não dizem que a guerra não deve existir, mas que Israel é um conquistador irresponsável. Existe um abismo entre a percepção de que a guerra contra os mísseis de fabricação iraniana é necessária e a natureza moral dos israelenses e judeus. Porque toda vez que se condena a guerra – condenam aos judeus – mas não condenam a guerra. Assim, deveria se prestar mais atenção ao processo moral empreendido por Israel no qual o anseio maior não é pensar formas mínimas de guerra, mas acabar com a guerra enquanto modo legítimo de solução de conflitos entre soberanias ou entre soberanias e quase-soberanias. (…) nenhuma outra guerra de conquista se deu aguardando os processos internacionais de legalidade (…) Ninguém em sã consciência gosta da guerra – a não ser os capitalistas das fábricas de armas e os religiosos em busca de pessoas para punir – (…)" (grifos meus)

Na verdade, há ainda um terceiro grupo – nada desprezível – que ama a guerra de paixão. Mas não é aqui o lugar de iniciar tal discussão.

Kiraly segue tecendo comentários esclarecedores sobre o uso do termo "limpeza étnica", seus significados, e outros conceitos associados. Haverá também um paralelo interessante com a matança que se verifica nas capitais brasileiras, em decorrência da violência e tensão generalizada que nosso país enfrenta atualmente, segundo eu penso causada pelo crime organizado, sejam quais forem suas causas. Por fim, eu gostaria de destacar uma questão de responsabilidade:

"(…) não encontramos quem possa admitir que Israel procure alvos civis para provocar terror nos habitantes de Gaza. Com efeito, se pensarmos na densidade demográfica de Gaza, na característica intensamente familiar do Hamas, na utilização de prédios, escolas e hospitais para a constituição de células de resistência é quase impossível pensarmos que não existam baixas civis. Claro que é um escândalo que crianças estejam a morrer. Mas também deve causar escândalo a utilização de crianças, hospitais, escolas e mulheres como escudos para a ação de combate." (grifos meus)

Senhores, quantos dentre vós, guerreiros ou pacifistas, militares ou civis, usariam vossas mulheres e crianças como escudo humano? O civis foram avisados dos ataques. Israel se deu ao trabalho de avisar milhares de palestinos por telefone (sim, por telefone) dos horários dos ataques. Os civis palestinos foram avisados de que eles deveriam evacuar a área – com antecedência! Algo me diz que nem Putin, nem qualquer outro, nem mesmo um certo estadista petista sul-americano, faria essa gentileza.

Cito aqui o PT não por acaso, esse amável protetor das FARC (quem quiser ler as atas do Foro de São Paulo basta buscar na internet, quem quiser ler o agradecimento das FARC ao PT e ao Foro, eu envio, com o maior prazer). Não por acaso, repito, eu cito o glorioso PT, pois o manifesto de repúdio que esse partido divulgou não poderia me passar em branco, dado o seu cinismo histérico exemplar:


PT condena terrorismo de Estado do governo de Israel contra o povo palestino

Leia abaixo nota do Partido dos Trabalhadores sobre os ataques israelenses ao territótio palestino

PT condena ataques criminosos
Os ataques do exército de Israel contra o território palestino, que já causaram milhares de vítimas e centenas de mortes, além de danos materiais,
só podem ser caracterizados como terrorismo de Estado.

Não aceitamos a "justificativa" apresentada pelo governo israelense, de que estaria agindo em defesa própria e reagindo a ataques.

Atentados não podem ser respondidos através de ações contra civis. A retaliação contra civis é uma prática típica do exército nazista: Lídice e Guernica são dois exemplos disso.

O governo de Israel ocupa territórios palestinos, ao arrepio de seguidas resoluções da ONU. Até agora, conta com apoio do governo dos Estados Unidos, que se realmente quiser tem os meios para deter os ataques.

Feitos sob pretexto de "combater o terrorismo", os ataques de Israel terão como resultado alimentar o ódio popular e as fileiras de todas as organizações que lutam contra os EUA e seus aliados no Oriente Médio, aumentando a tensão mundial.

O Partido dos Trabalhadores soma sua voz à condenação dos ataques que estão sendo perpetrados pelas forças armadas de Israel contra o território palestino e convoca seus militantes a engrossarem as manifestações contra a guerra e pela paz que estão sendo organizadas em todo o Brasil e no mundo.

O PT reafirma, finalmente, seu integral apoio à causa palestina.

Ricardo Berzoini
Presidente nacional do PT
Valter Pomar
Secretário de Relações Internacionais do Partido dos Trabalhadores

***
(Comandante Fidel que o diga)

Luiz Eduardo Ulrich

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