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Duzentos Anos de um Colosso Musical

Duzentos Anos de um Colosso Musical

    Este mês a Terceira Sinfonia de Beethoven, intitulada “Heróica”, completa duzentos anos de sua publicação. Em outubro de 1806, esta “sinfonia heróica (…) composta para celebrar a memória de um grande homem” iniciava a sua lenta viagem pelo mundo.

    A partitura era então o único meio de formalizar a difusão de uma obra musical. Não havendo como gravar sequer um bolachão, as músicas precisavam contar com o esforço pessoal do compositor e a boa vontade dos editores e intérpretes para serem ouvidas.

    A duração da Heróica fazia dela a mais longa sinfonia jamais composta até então. Como deveria ser ouvida sem pausas, em uma sala de concerto, por uma platéia acostumada a obras mais curtas, o próprio Beethoven advertia de que esta sinfonia deveria ser apresentada no começo de um concerto, nunca no fim. Mesmo assim, os primeiros ouvintes padeceram e a escassez de aplausos da estréia (1805) foi o resultado concreto disso.

    Mas o tempo acabou levando a Heróica à condição de uma das mais executadas de todo o repertório. Apesar da erudição e exigência de sua estrutura, a obra encontrou o seu caminho no coração das audiências. Tentemos entender o porquê disso.

    O tema desta sinfonia hoje soa absurdo. Vivemos em uma sociedade que rejeita formalmente o belicismo embutido no conceito de herói daquela época. O aclamado Napoleão, por exemplo, seria visto como um imperialista muito similar ao presidente dos Estados Unidos.

    O herói se tornou anacrônico, antes motivo de piada que de aclamação. Não devemos, entretanto subestimar a sua força no imaginário coletivo: não é por outro motivo que veneramos os campeões de tantas modalidades esportivas, exaltando seus feitos “heróicos”, sua coragem, determinação, talento, etc.

    A importância do heroísmo e a exaltação de ídolos militares no século XIX era outra. Pertenciam, não apenas à imaginação, mas ao dia-a-dia das pessoas, sempre sacudidas por intermináveis revoltas, guerras e revoluções. Nesse contexto, o herói era depositário das esperanças de liberdade e transformação social. Era o intrépido opositor do velho regime monárquico, o qual todos queriam ver derrubado.

    A Terceira Sinfonia capta exatamente esse espírito. Representa, e bem, um tema da mais alta seriedade e relevância para o europeu do século XIX. Foi exitosa na tarefa gigantesca a que se propôs: expressar-se mediante a criação de um amplo painel épico, tendo como veículo um novo tratamento da forma sinfônica tradicional.

    A felicidade com que traduz o pensamento dos cidadãos de seu tempo é, para mim, uma das razões principais do sucesso que a obra foi adquirindo, apesar de suas dificuldades.

    Se fosse tentar mergulhar em detalhes técnicos, me perderia em minha condição de leigo. Mas algumas coisas podem ser intuídas só de se ouvir a música. A primeira, a marcada diferença nos sentimentos que evoca, se comparada às sinfonias de seus antecessores, Haydn e Mozart.

    A formatação da sinfonia clássica está ali, mas a serenidade galante cedeu lugar ao galopar incansável de emoções fortemente dramatizadas. Tamanha dimensão de idéias levou o autor a carregar o discurso musical de ousadias, distendê-lo, fortalecer os contrastes, sempre a serviço da mensagem que desejava transmitir.

    Essa mensagem não era limitada a um parco exercício bufante de caráter marcial, mas desejava ser um autêntico e humano drama. Não sem outro motivo, a marcha fúnebre do segundo movimento é dor e desespero encenados de uma maneira que é modelar até hoje, opinião corroborada pelos comentários de Berlioz.

    Aliás, creio que a Sinfonia heróica resiste nas salas de concerto até hoje porque é muito franca e direta na expressão de fortes sentimentos humanos, que são universais e não se limitam a um período da História. Toca nas entranhas e faz questão de despertar reações fisiológicas no público, das quais Beethoven tinha plena consciência.

    O “clima” da obra toda é peculiar nas tensões que cria, as quais faz questão de prolongar o mais que pode, adiando até o último minuto os seus momentos de resolução. A ansiedade pode ser exemplarmente percebida no primeiro movimento, logo antes da recapitulação do tema principal.

    Quando o longo desenvolvimento que precede a recapitulação se aproxima do fim, aparentemente começa a resistir e não querer ir embora. Simplesmente não pára! Isto cria um efeito de suspense, uma vez que o ouvinte já estava esperando uma recapitulação que agora não se sabe se vem ou não vem…

    …como se não agüentasse mais a espera, uma trompa se intromete, rasgando a tonalidade da seção antes do resto da orquestra. Ela toca o tema principal e, como se finalmente despertasse, o resto da orquestra executa a recapitulação. Essa entrada da trompa pareceu errada a um aluno de Beethoven, durante um ensaio: “Maldito trompista! Ele não sabe contar?”, teria dito, ao que Beethoven quase lhe respondeu com um tapa no rosto.

    Esta passagem também exemplifica como o compositor aproveita a forma clássica para criar efeitos surpreendentes ao ouvinte, mediante modificações e ousadias no esquema tradicional, estrategicamente posicionadas.

    Poderia ficar falando um pouco mais, mas não muito. Sendo simplesmente um ouvinte, tenho em minha história a Terceira Sinfonia como uma das músicas que mais ouvi, desde a infância. Ouvir música erudita desde cedo não chega a ser a regra para as crianças de nosso tempo, mas também está longe de ser incomum.

    Temos à disposição do mercado brasileiro uma dúzia de gravações da Heróica, entre outras tantas, algumas a preços populares, fato que nos coloca em grande vantagem com relação ao ouvinte do século XIX. Todo leigo pode ouvir a obra mais vezes que qualquer contemporâneo de Beethoven, se for de seu agrado.

    Eu fui um desses casos a quem a obra agradou, e muito. Por isso, quando o nosso editor nos convidou a escrever pensando no número 200, o bicentenário de publicação da Sinfonia heróica, este colosso musical, foi a primeira coisa que me ocorreu.

Abraços,

Luiz Eduardo

Luiz Eduardo Ulrich

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