Simplicíssimo

Aurora (XLIII)

XLIII

 

– Encontrastes uma chave, mas as desconfianças também.

 

Diferentemente da grande sala de discussões, o refeitório não era iluminado apenas por lumes, mas por verdadeiras tochas de grandes chamas. Os monges sentavam-se ao longo de uma fila de mesas inferior, dominada pela mesa superior, a do abade, posta perpendicularmente a essas sobre um vasto estrado. Do lado oposto, um púlpito, sobre o qual já tomara seu lugar o monge que faria a leitura durante o desjejum. O abade esperava a todos, à entrada, perto de uma bica com um pano branco para enxugar-nos as mãos após o lavabo, conforme conselhos antiguíssimos de São Sebastião.

Estranhamente, o abade convidou-nos, Rinaldo, eu e o Carmelita para sua mesa e disse que por aquela manhã, dado que também éramos nós hóspedes ilustres, gozaríamos do mesmo privilégio, ainda que fôssemos noviços. Disse-nos paternalmente que poderíamos sentar à mesa com os monges se quiséssemos, mas que seria bom conversar conosco àquele momento, ainda que impróprio, sobre um furto de uma chave na sala de ervas, ocorrido na noite passada. Pelo canto dos olhos, vi que o Carmelita, acompanhando o canto dos monges entoando o Obsequium Pauperum, manteve-se tranqüilo, até que o abade dirigiu-lhe as atenções:

“- Não o vi, caríssimo, ontem durante as discussões.”

“- Senti-me mal e voltei para meu descanso, senhor. Agora, se posso perguntar, por que o convite a nós três para sentarmos ao vosso lado, e não a todos os noviços?”

“- Ora, todos os noviços não caberiam aqui a meu lado. Ademais, durante estes dias vejo que os três desenvolveram assuntos que os deixa sempre juntos, e me interesso por tudo aquilo que acontece nesta abadia, inclusive as amizades.”

“- Todos temos assuntos que nos aproximam nesta santa casa, senhor. Os mistérios divinos já nos seriam mais do que bastante para nutrir uma proximidade.” – disse-lhe, e a frase me saiu melhor do que previ.

Os monges estavam agora em pé junto às mesas, imóveis com o capuz abaixado sobre o rosto e mãos sob seus escapulários. Quando a refeição da manhã teve início, o silêncio era solene e discreto. No fim, o abade nos cumprimentou e abençoou com gestos contidos. Depois sorriu-nos urbanamente e dirigiu-se para sua sala com seus confrades.

Mais à tarde, Rinaldo e o Carmelita me esperavam na fenda dentre os tijolos do torreão da biblioteca onde nos encontrávamos às noites com os outros noviços para nossas maquinações. Quando cheguei, os dois discutiam e Rinaldo dizia-lhe com propriedade:

“- O que podem fazer contra nós, e como podem nos atacar, se nem nossas palavras, nem mesmo nossas condutas dão lugar a pretextos para estas acusações…”

“- Não nos acusaram de…” – tentou dizer o Carmelita com um fio de voz. Percebi que trazia um pequeno embrulho na manga da túnica enquanto Rinaldo continuava, gesticulando nervosamente:

“- Então o que pode querer o abade conosco quando nos convida a comer em sua mesa a uma hora dessas? E se nos protegemos de vossas ameaças mantendo-nos obscuros, mesmo que sejamos culpados, o que poderiam fazer?”

“- Melhor nos aquietarmos durante os próximos dias” – disse o Carmelita, agora mais nervoso e com os olhos rápidos.

“- Aquietar?” – falou Rinaldo, “- Quero antes sentir os golpes de mãos invisíveis expondo quaisquer aberrações à vista de todos. Que nos queimem na fogueira, pelo Santo Pai! Tentam atacar-nos nas pessoas daqueles que acreditam serem nossos aliados, pois hei de dizer que não tememos seja por nós ou seja por quem quer que seja, pois não estamos, absolutamente, ligados a qualquer indivíduo ou comunidade ladina. As ordens de nossos interesses são superiores e disso bem sabe o Santo Deus. Estaremos condenados apenas se nos deixarmos intimidar. Podem desfrutar de toda a credibilidade do mundo, em nada temo tal credibilidade, e dela, nada desejamos pela graça de Deus, não precisamos dos livros, ervas nem da credibilidade de ninguém. Portanto, ou acusam-nos de uma vez ou deixa-nos cantar melhor as Glórias do Senhor. Talvez jamais tivestes de lidar com noviços acusados de algum crime, pois saiba, Carmelita, que é um crime ao coração de um noviço acusar-lhe de algo tão fora de seu alcance e que sua conduta não pode ser tão familiarizada com tais erros. Sim senhor, falo-vos do coração porque é aqui, no nosso interior, e não em qualquer outro local, que as forças e as ações devem ser consideradas. Todas as demais possíveis perfeições da alma são para nós inúteis e vãs se nos alteram o caráter!”

Rinaldo falava apaixonada e nervosamente sobre as feições da alma de um noviço acusado, indignado que estava com as suspeitas e, digno de inspirar-nos a negação de qualquer reprimenda sobre o furto da chave da sala das ervas, continuava a falar, agora se dirigindo a mim, já sentado a seu lado na semi-obscuridade de nossa gruta. Estava embriagado pelos seus próprios princípios, e encontrou no inesperado avanço do abade a situação que lhe pareceu perfeita para traze-los à tona. Enquanto o Carmelita manuseava cuidadosamente o embrulho que trouxe nas mangas, e o abria perto de nossa única vela, Rinaldo falava:

“- É pelo seu estado presente que toda a sua vida imortal há de ser paga e recompensada, e somos responsáveis somente pela nossa vida. Seria uma injustiça cercear os recursos e os poderes da alma diante do medo; te-la desarmado, realizar-lhe um julgamento sobre nossas condutas e nossas intenções, quando estas delimitadoras de ideais se voltam para o bem, como em nosso caso para a libertação de um cativo da injustiça. Se assim não fosse, nossa sentença seria infinita e perpétua, pois se a alma é cativa do medo, torna-se fraca e enferma, subjugada e confinada; e nossas misérias de um instante seriam proporcionais ao infinito, e nesse intervalo de tempo teríamos que dispor sobre toda a nossa existência. De toda forma, seria uma desproporção injusta receber recompensa eterna por uma vida tão breve…” e se abaixou ao ver o que havia naquele embrulho junto ao chão, terminado seu discurso. O Carmelita tentou se recompor:

“- Rinaldo, seu falatório talvez nos sirva para o caso de vierem novamente atrás de nós, por isso o guarda, mas agora deixa-me mostrar a chave.”

Era uma chave pequena, com dois dentes para um lado e um menor para o outro, de cobre e pobremente trazia a inscrição: Pentateuco.

“- Ontem, quando saí em direção à sala das ervas, vi dois sicários que acompanhavam um velho monge, de cabelo muito longo, grosso e branco. Os sicários traziam alguns livros e adentraram primeiro a sala. Enquanto colocavam os livros nas estantes, esgueirei-me porta adentro e escondi-me atrás de alguns barris de madeira fechados a pregos, aninhados no chão. Terminado seu trabalho, os sicários, então, cumprimentaram o velho e se foram. Pareceu-me muito velho, aquele homem, e somente pode ser ele o herborista, pois consultou rapidamente alguns livros, sentado a sua mesa, a respeito de algumas ervas que trazia nas mãos, com luvas. Enquanto ele se detinha em seus estudos, percebi que deixara esta chave exatamente sobre uma pilha de livros a meu alcance. Quando se foi, fechou o cadeado atrás de si e me deixou preso lá dentro.”

“- E como fizestes para sair?”

“- Primeiro, por mais estranho que pareça, não me preocupei com isto. Percebi que a sala é triangular, com a base do triângulo resguardando as estantes, cinco delas, repletas de volumes antigos. Nos lados da sala, que não é muito comprida estão as ampolas e recipientes com as ervas, todas fechadas para permitir livre e boa respiração lá dentro. No centro está a mesa com uma única cadeira, juntamente com materiais para manipulação, algumas luvas, colheres de pau e um pequeno forno a lenha. A porta de entrada fica no encontro das laterais do triângulo, e ao seu lado existem dois lumes, uma lança bem afiada e vários caldeirões dos mais diversos tamanhos…”

“- Sim, mas como fizestes para sair?”

“- O velho certamente deu falta da chave que agora estava comigo, e voltou. Quando ouvi os barulhos na porta, corri para trás dos caldeirões e esperei. Quando ele entrou, de costas para mim, ganhei os corredores e voltei para meu quarto.”

“- Mas esta, então, não é a chave da sala, pois o velho não poderia entrar lá novamente caso necessitasse dela para abrir a fechadura. E não poderia te-la trancada, também, na primeira vez que saiu.” – conclui, enquanto Rinaldo pegava a pequena chave e olhava seu escrito, Pentateuco, com curiosidade.

“- Sim, mas no tempo que fiquei só dentro da sala me ative em encontrar alguma outra porta, a porta que supostamente levaria às masmorras, mas não a encontrei. Deve haver alguma comunicação da sala com os prisioneiros, o herborista não sairia pelos corredores com as ervas que ministra a eles, mas certamente esta comunicação está em outro lugar, e esta deve ser a chave para adentra-lo” – proferiu o Carmelita.

“- Sim, talvez possamos descobrir mais tarde. Agora tenho que ir até o celeiro. Meu pai me espera.”

“- Vamos contigo.” – disseram eles em uníssono.

“- Não, ele pediu que eu fosse sozinho. Deixa-me ir.” – e fui, sorrateiro, na direção do celeiro.

 

Rodrigo Monzani

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