Simplicíssimo

Aurora (XVIII)

XVIII


– Encontrastes no futuro, o passado


Mesmo recorrendo às obras da antiga história, poucas foram as construções sepulcrais que encontrei com tamanha beleza de detalhes, de entalhes, de proporções de medidas, de molduras e esculturas quanto aquela que tínhamos diante dos olhos naquele momento. Somente em Halicarnasso, no sepulcro de Mausolo, considerado a grande maravilha do mundo antigo, encontrei pérolas como as que haviam dispostas em arcada no túmulo de Vicenzo Locci. A primeira vista, havia seu próprio busto, eternamente velando acima das lápides dos descendentes Locci, até as pequenas marginalias esculpidas ao redor da lápide que, enfim, reconheci como aquela que esculpira meu pai e que não era, na verdade, uma lápide, mas apenas uma grande placa de mámore onde se podia ler em suas letras inconfundíveis: “Vicenzo Locci, matemático, botânico, músico, cientista, gênio. O homem que decifrou o futuro e sua volta ao passado, o homem que nunca há de morrer.” Não havia datas escritas e pensei qual seria a exata época de sua morte. O monge girou aquele pedaço de mármore com a ajuda de vários outros homens e um sistema de cordas reforçadas por fios de ouro deu visão a uma pequena escada que parecia morrer na escuridão.

Descemos um a um, o monge a frente e a cripta se iluminou quando dois de seus ajudantes acenderam pequenas tochas que adormavam as paredes alvejadas de pequenos lumes. Não poderia descrever a sensação que me tomou o espírito ao acender daquelas luzes, tão quentes e maviosas que tudo se tornou suntuosamente incrível. Olhei aturdido, vi resplandecer ao meu redor uma verdadeira coleção de maravilhas de admiráveis belezas. Pequenas colunas prateadas, marfins incrustados de pedras áureas, escrínios de vários metais lavrados com figuras bíblicas que ostentavam admiráveis placas de esmalte que compunham uma grande variedade de compartimentos regulares, divididos por pedras de ouro e rubis, presas por outras pedras menos preciosas ao redor de paramentos em fino baixo-relevo de prata.
Havia uma cruz de ouro adornada por sete ágatas e sete diamantes e, circundando a cruz, trinta e três quadros de grande expressão artística retratavam a vida de Cristo em fios de ouro, gerando imagens policromadas sobre um fundo de pálida brancura, obra, segundo o monge, do próprio Vicenzo. Um sepulcro de tesouros! Mas onde estaria a verdadeira lápide do matemático? O rosto, as expressões do monge ao nos mostrar aquelas riquezas ganharam um brilho de orgulho quimérico, apontava-nos os tesouros espalhados à volta, relicários, cálices reluzentes, caixas fechadas, estátuas de cordeiro, de cavalos, de anjos, recipientes repletos de óleos, ceras, perfumes, ouro, incenso e mirra…

Contornando a abóboda da pequena cripta, nas paredes, presos por presilhas que imitavam rosas brancas, se equilibravam um saltério de pequenos vidros esculpidos sem polimento que guardavam manuscritos antigos, obras escritas pelo próprio Vicenzo Locci, seus tratados sobre a vida de Cristo, seus cálculos matemáticos do “Zênite Austral”, os esboços de suas invenções a base de pólvora e toda a obra de sua vida pagã. O monge, então, pediu que os suspiros de admiração silenciassem e subiu os dois degraus de um pequeno púlpito. Começara discursar e minha memória, tão maravilhada com os tesouros da cripta, não consegue agora trazer à luz aquelas suas palavras, a não ser que o velho, a certo ponto, dissera algo sobre o “Zênite Austral”.


“- O que é isso???” – lembro-me que perguntei aos sussurros a minha curandeira.
“- O ‘Zênite Austral’ é a obra mais preciosa da vida de Vicenzo Locci, caríssimo. Seus cálculos de longitudes e latitudes nunca encontradas antes fizeram com que Vicenzo reunisse aqui a maior coleção de relíquias sagradas de todos os tempos.”

“- Mas o que é o ‘Zênite Austral’?” – perguntei exasperado, embora ainda sussurrasse.


“- Vicenzo acreditava que o mundo gira em torno do sol e ao redor de si mesmo, desde a criação. Infelizmente, se viu numa encruzilhada cristã antes de seu desaparecimento, e teve, assim como sabes, que negar estas suas convicções para não terminar na fogueira. O que se sabe é que Vicenzo chegou a calcular a latitude e a longitude exatas de uma ilha, a mais próxima a Jerusalém, onde, segundo suas próprias descobertas e teorias, Cristo teria sido crucificado.”
“- Mas Cristo não foi crucificado numa ilha…” – disse, enquanto o monge ainda discursava para a atenção de todos.

“- Mas Vicenzo afirmou que sim, contrariando a Igreja, afirmou ainda que Pilatos ouvira a multidão a favor de Barrabás às margens do oceano e a prisão onde estava o ladrão localizava-se na mesma ilha da colina do Gólgota, onde mataram Jesus. Esta ilha misteriosa, que somente Vicenzo chegou a conhecer após a morte de Jesus, possuiria uma localização incerta até o cálculo de seu zênite. Somente quando este foi determinado, Vicenzo conseguiu desembarcar, sozinho, na ilha deserta. Recolheu fósseis que anos mais tarde foram reconhecidos como os de animais de regiões tão longínquas que somente poderiam ser dos animais salvos do Dilúvio por Noé, achou ainda partes da própria Arca, pois somente a ilha não imergira no grande Dilúvio…”


“- E onde está esta ilha misteriosa?” – perguntei, esquecendo-me totalmente do monge que ainda discursava.
“- Vicenzo concluiu, com seu tempo de estudo na ilha, que esta se localizava exatamente no decorrer do centésimo octagésimo meridiano… nem a sua direita, nem a sua esquerda, mas em seu decorrer… o verdadeiro paralelo que dividiria a Terra ao meio. Anos mais tarde, ele próprio encontrou referências cifradas no livro dos Gêneses, dizendo que um grande abismo separava o futuro do passado, e neste abismo Jesus viveria…”
“- O abismo seria, então, o oceano” – disse.
“- Exato!” – ela respondeu, levantando o tom de voz e chamando algumas atenções.
“- Mas qual a importância destes estudos?” – perguntei, puxando-a pelo braço para um canto menos iluminado.
“- Ao se percorrer o meridiano, sua exata confluência, se chegaria a ilha num tempo diferente… o que quero dizer é que a direita da ilha, quando o sol ainda brilha, a sua esquerda ainda é noite.”
“- Mas e na ilha, o que seria?” – perguntei-lhe, ansioso.
“- Segundo Vicenzo Locci, o tempo da ilha seria o passado.”
“- Isto é estupidez…?” – disse, fingindo meu desinteresse.
“- Sim, o passado…se hoje, aqui é segunda-feira, ao navegarmos para a ilha, como o fez Vicenzo, chegaríamos lá quando ainda fosse domingo. O Zênite Austral indica não somente a localização exata da ilha, mas a única via de se voltar no tempo.”

“- Mas qual a utilidade de se voltar um dia…” – não me lembro exatamente da resposta de minha curandeira, provavelmente, ela nem se dera ao trabalho de tentar me explicitar a questão num momento tão impróprio.

Anos mais tarde, em meus próprios estudos sobre a obra de Locci, pude compreender a questão de maneira mais clara. Verdadeiramente, segundo suas determinações, ao se percorrer o centésimo octagésimo meridiano, na latitude e longitude calculadas por Locci, se chegaria a ilha onde o passado ainda é presente. Vicenzo, pouco tempo antes de seu desaparecimento, reconhecera que nunca conseguira velejar tão rápido e por tão bons atalhos, mas que, caso fosse desenvolvida uma embarcação capaz de velejar mais rápido que as atuais de seu tempo, chegaria às margens da ilha não no dia anterior, mas em séculos anteriores. Trabalhara anos a fio, seus últimos, em tal empreendimento com a fixa idéia de chegar a ilha antes da crucificação para então, armado com suas invenções bélicas, impedir a morte do Salvador. Caso se enganasse na velocidade da viagem, talvez chegasse antes mesmo da traição de Judas, e mataria o traidor sem que Cristo sofresse sua paixão.
Obviamente o intento de Vicenzo Locci, malgrado as qualidades de seus cálculos, amarrava-se em objetivos insanos e bizarros e para se entender tamanha peripércia de seus maquinamentos seria necessário um estudo mais aprofundado de sua vida, algo que não cabe a mim aqui pregustar, embora, mais a frente, sinta-me obrigado a relatar a maneira pela qual tal intento, o de salvar Cristo da morte, perpetuado por seus seguidores, se relacionará com minha busca por Alermano e meu pai.

De toda forma, naquele fim de tarde na cripta, eu continuava a vagar estonteado entre objetos de tamanho valor e raridade. O monge, terminado seu discurso, nos mostrara caixas repletas de relíquias, um osso do braço de São José, sustentado por fios de prata quase invisíveis; numa almofada finíssima, púrpura dentro de uma redoma havia um pedaço da manjedoura de Belém; a bolsa em que Judas guardara as moedas do pagamento pela sua traição; reunidos em forma de coração sobre um vidro grosso estavam os elos das correntes que prenderam os tornozelos dos apóstolos em Roma, uma tíbia de São Camilo, o crânio de São Tiago, um dedo de Santa Ana, o anel de noivado de São José, um bordado dilacerado e puído do hábito nupcial da Virgem Maria, um pedaço da túnica de Pilatos, violeta.


Mais adentro, numa antecâmara ainda menor que a primeira, haviam não relíquias, mas objetos repletos de significados e testemunhos de prodígios e de seres prodigiosos vindo como que de outro mundo, e de outro tempo: um chifre de unicórnio, os ossos dos membros de algum animal de dimensões incríveis, um ovo dentro de outro ovo, uma noz de coco, o úmero de uma besta pré-dilúvio de Noé, a costela de um morcego, um pedaço de maná encontrado junto a um eremita que, recusando-se a soltar o maná, teve a mão decepada e eternamente conservada junto ao pedaço. Ampolas com destroços carboniizados da cidade de Sodoma, cal das muralhas de faraós, retalhos desbotados das roupas de santos, substâncias mminerais, cristais, pedras, seixos, corais conservados em barris de madeira velha, fósseis de peixes do rio Jordão, um pedaço de unha do leproso curado por Jesus, um retalho do sudário… tudo imerso na semi-obscuridade do túmulo para enfim, junto a parede, se chegar ao local exato onde jazia o corpo de Vicenzo Locci. Uma grande cruz, sem adornos, centrada à tumba, era a única visão possível do local e, ao lado, havia um grande livro fechado num cilindro de vidro.
“- Qual a utilidade destas raridades?” – lembro-me agora que perguntei ao velho monge que, com seu ar de condescendêcia, me respondera:
“- Meste Vicenzo acredita que os corpos dos santos não esperam a redençao da carne, mas de seus fragmentos poderia-se almejar suas próprias santidades, se possível fosse reconquistar toda a sua natureza sensível. Tornar-se santo através do fulgor da visão e contemplação das partes e relíquias santas!!!” – ele concluiu, ofegante com o ar fumacento da cripta; e se fora, tossindo.
“- Mas como este homem conseguiu reunir todas estas coisas, objetos e raridades?” – perguntei, estupetado, no que minha curandeira, com ar de ironia, me respondera:
“- Ora… viajando no tempo.”

Rodrigo Monzani

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