Simplicíssimo

O Verdadeiro Fantasma

Entrou naquele castelo com cara de poucos amigos. Também, não era pra menos: odiava receber chamados como esse. Matar um fantasma, vê se pode? Isso é coisa de quem não tem o que fazer, pensava ele. Sua mochila pesava, ia andando já pensando nos efeitos colaterais futuros que essa empreitada o trariam. Gostava muito de falar consigo mesmo e numa dessas é que se superava em sua mania:
—É eu devo merecer mesmo. Cadê você fantasma? Como devo chamá-lo? Gasparzinho? Fantasma da ópera? Pior que nem gosto de fama, é só bater umas fotos e gravar o danado do troço, seja qual for ele, que ta produzindo esses barulhos. O problema foi me deslocar até aqui e a demora que às vezes dá pra achar o causador disso tudo.
Abriu sua mochila, tirou de dentro dela objetos de trabalho e andou pelos corredores que pareciam formar um imenso labirinto. Encontrou um caminho onde podia ouvir ruídos que iam aumentando enquanto seguia em frente. Parou um pouco cansado e resolveu quebrar o gelo novamente:
—E ai fantasminha? Ou melhor, fantasmão, porque se existires mesmo, anota aí: és barulhento pacas!
Ouviu um forte estrondo seguido do que parecia ser uma resposta:
—Quem disse que não existo? Moro por aqui há dois séculos e meio, mais precisamente 253 anos e 31 dias, hum, ou seria 32? Bem, isso não vem ao caso agora.
Depois de ouvir isso, Hernani, o caça-fantasma mais famoso de todo o reino de Hediôndia começava a sorrir facilmente:
—Sei, e junto de você estão aqueles seus dois amigos? Papai-Noel e o coelhinho da páscoa?
O fantasma então ficava em silêncio. O que intrigava nosso “herói”, afinal o reino não se chamava Hediôndia por acaso. Sua imaginação já começava a precavê-lo sobre sua segurança, então dizia imperativamente:
—Aparece logo engraçadinho, o que é que realmente queres? Vou avisando logo que tô liso. Vamo falsidade, aparece!
Dito isso, os ruídos estranhos só aumentaram. Sabia que alguém ou alguma coisa se aproximava. Até que uma massa sólida branca apareceu diante dele e disse:
—Falso? Você vai sentir no próprio pescoço o quanto eu sou falso.
Então aquilo se entrelaçou por seu corpo como se fosse esmagá-lo. Quando Hernani já se achava totalmente perdido, começava a ouvir outros gritos bem mais familiares:
—Acorda Hernani, acorda, que a torcida todinha tá ai fora querendo quebrar tua cara. É né, tudo fruto do fantasma do rebaixamento.

Frank Santos

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