Simplicíssimo

Prisão da Mente

As paredes eram em tom amarelo-claro, isso é o que ele suspeitava, pois tudo fazia parte de uma imensa escuridão. Não se ouvia nada, nenhum barulho, também não se via ninguém. Nem mesmo a pessoa que todos os dias deixava alguma refeição para ele. Era intrigante, por mais que pensasse não entendia como aquele prato de comida aparecia ali todos os dias. Era insuportável passar os dias naquilo que parecia uma sala completamente fechada. Não fazia nada além de dormir, acordar, pensar e cada vez mais se desesperar. Tinha pesadelos horríveis, que alguém viria e acabaria de repente com sua vida, talvez fosse até melhor, pensava ele. Não tirava o pensamento da cabeça de algum dia não dormir e poder prestar atenção em quem o deixava comida todos os dias.

Um dia quase conseguiu: se fez que estava dormindo, e ouviu passos, mas de repente se viu acordando e se deparando com o prato de comida ali, como em todos os dias. Depois disso realmente não ouviu barulho algum. Dias e dias, noites e noites, e a rotina macabra continuava. O pensamento de atentar contra a própria vida já estava chegando. Eis que certo dia ouviu um barulho parecido como o de uma pia pingando. Era constante, foi uma ponta de esperança que apareceu. Imaginava que quem o mantinha ali pudesse ter sido descoberto, que logo logo estaria livre daquilo tudo, e logo parecia outra pessoa. Gritou, gritou, pedindo por socorro, mas ao que tudo indicava sem sucesso. Ele não sabia nada de si mesmo, se tinha família, de onde vinha, só guardava na cabeça os dias dessa atual realidade. Resolveu então escrever sobre tudo aquilo que estava passando. Agachou-se e com alguns pedaços de algum material, que era desconhecido para ele, começou a riscar o chão. Geralmente escrevia frases dizendo que por mais que tentassem ele resistiria e não atentaria contra a própria vida ou desistiria de acreditar que sairia dali. Ao mesmo tempo, o barulho que conseguiu ouvir se tornava cada vez mais presente, era como se ao vez de uma, umas cinco pias estivessem pingando.

Os dias iam se passando e ele notava que cada vez que escrevia, melhor era a comida que vinha e de certa forma parecia que a sala estava ficando menos escura, como seria possível? Começava a ouvir outros sons, tudo melhorava, até que chegou o dia que ele se deparou com uma surpresa: via um buraco na parede em forma de porta. Podia sair dali a qualquer momento e de certa forma aquilo que viu não lhe era estranho. Ele chegava a conclusão que estava sempre lá, ele que não percebia. Saindo dali viu alguém com um prato de comida, igual àquele que comia todos os dias. Descobriu que era quem lhe dava comida por compaixão e não queria seu mal. Ele notou a alegria estampada naquele rosto de quem lhe ajudava, por vê-lo enxergando a verdadeira realidade e saindo de todo aquele terror criado por ele mesmo. Quanto a ele, depois de tanto sofrer, por sua própria culpa, decidiu olhar a vida com melhores olhos dali para frente.

Frank Santos

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