Simplicíssimo

Guarda-chuva de Madame

As notícias mostram e os índices apontam o recorde cada vez maior na criação de empregos. Mas esse maremoto de serviços chega a ser sentido apenas como uma marola para as classes baixas e médias. Em uma sociedade em constante mudança e efervescência social, o que percebemos atualmente é a criatividade da população para se conseguir o sustento de cada dia.
            Vi surgir uma nova atividade de trabalho, que denominei Guarda-chuva de Madame. A situação tragicômica de uma realidade atual aconteceu durante as fortes chuvas na capital paraibana.
            Na frente de um Shopping Center da cidade, pessoas se amontoavam esperando a intensa e constante chuva passar. A maioria aparentemente madames, grandes empresários ou pessoas com cargos importantes; aquela, uma composição de saltos finíssimos, talvez um Prada falsié, ou de uma marca brasileira bastante cara, com suas belas vestimentas de tecidos finos e emolduradas com maquiagens e cabelos que não são “à prova d’água”; aquele, com ternos impecáveis e da moda e uma postura de donos da rua. Todos se aglomeravam com um único objetivo, esperar a chuva passar para poderem se deslocar até seus carros importados ou extremamente caros para minha condição financeira.
            Em meio a esse alvoroço, via-se na calçada, embaixo de um daqueles Guarda-sóis com propaganda de marca de cerveja, os pés descalços de uma pessoa com, no máximo, um metro e cinquenta de altura. Ela tinha traços bastante masculinos e estava com uns 6 meses de gravidez, vestia calças largas e uma camisa de escola pública e era a única que poderia ir e vir bem protegida dos fortes pingos de chuva.
            Para ganhar uns trocados, o EI MENINO!, assim chamada pelas socialites e empresários “engomadinhos”, levava-os embaixo do seu “protetor de tempestade” até seus carrões, pelo valor de um real. E assim, em meia hora de chuva forte, vi aquela Fulana extrema criatividade, levar umas trinta pessoas até o seu destino.
            Uma senhora que estava ao meu lado, com uma daquelas sobrinhas que só cobre uma parte da cabeça e é anti-ventania, disse-me que o EI MENINO! vive em situações desumanas, dorme em um estacionamento perto do shopping, embaixo daquele guarda-chuva que atualmente é sua ferramenta de trabalho.
            Acho que o EI MENINO! rezará para que as chuvas continuem cada vez mais fortes e que as madames e empresários continuem estacionando seus “humildes” carros em locais sem cobertura, só assim ela irá fazer parte desse número que é sempre crescente no Brasil, o de empregos informais.

Cibelly Correia

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