Simplicíssimo

Ah, o amor…

São Paulo, 06 de novembro de 2006.

Ah, o amor…

A esposa apresentou o amigo com uma piscadela incorrigível. O marido desconfiou de imediato e, quadrado como era, não esperou mais de uma noite para declarar seu descontentamento. A esposa desarmou-o de imediato. “Ele é gay, benzinho…”. Um ligeiro rubor nas faces do careta, e o assunto estava definitivamente degolado…

É engraçado como os heterossexuais sentem-se envergonhados nas desconfianças em que o envolvido é gay. Parece um pecado desconfiar de tal sacrilégio, uma heresia, uma infantilidade sem fim, em que a outra parte sempre aproveita para tirar um sarrinho.

O fato é que Fábio calou-se sobre o assunto, embora não notasse em Julio qualquer trejeito denunciando sua opção sexual salvadora, aquela que, inexplicavelmente, o fizesse recusar a maior das maravilhas da natureza, e todos os seus acessos quentes, úmidos e deliciosos.

O fato é que os encontros entre Joana e Julio estavam se tornando freqüentes demais. Fabio andava incomodado com os papos e cervejas entre as duas “amigas”, que já lhe tiravam a companheira várias noites da semana, e por boas horas. Mas, sentia-se inconveniente em perguntar ou questionar, já que a esposa sempre lhe dava a atenção merecida, mesmo quando ele já dormia no cansaço da espera. Qualquer que fosse a indireta sobre a questão, a resposta era automática: “Deixe de ser bobinho, amor, ele é gay, já te falei…”.

Começou a incomodar quando Julio foi entrando para a família, a convite de Joana, claro. Nas festas, almoços de domingo, aniversários de amigos, parentes, lá estava o Julio, com seu olhar sério, seus modos tímidos e comedidos, sua delicadeza no trato com todos, sua simplicidade inata, cativante, sua cultura refinada, um “gentleman”. Amigas perguntavam à Joana “onde é que você arrumou essa gracinha?”, ao que Fabio prontificava-se em responder “é o amigo gay da minha mulher…”, justificando toda sua indignação disfarçada.

Separaram-se poucos anos depois, numa cena em que Fabio exibiu todo o seu preconceito disfarçado de ciúmes, na festa de final de ano da empresa de Joana, evidentemente com a presença de Julio acompanhando o desconserto bem de perto.

Julio, ao contrário de todas as desconfianças, ofereceu seu apoio a Fabio que, bêbado e desnorteado, aceitou, mesmo indignado. Acompanhou o agora amigo nos dias seguintes, durante a separação, após a partilha dos bens do casal que, para facilitar, não tinha filhos.

Fabio e Julio mudaram-se para Londres poucos meses depois, onde o casamento entre gays é legalizado, e vivem muito felizes. Adotaram um garoto jamaicano que é um sucesso na escola, e demonstra o tempo todo sua gratidão aos pais, orgulhando-os.

Joana vive só, fundou uma ONG de combate ao preconceito, e sempre que pode vai à Inglaterra visitar o casal que ajudou a unir.

Fim, sem intenção nenhuma… (Fala a verdade, mas não ficou com cara de “Páginas da Vida”?)

Marcos Claudino

Marcos Claudino

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